Lince ibérico deixa de ser uma espécie "criticamente em perigo"

silvana
June 24, 2015

Foto: DR
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Depois de quase uma década e meia na ribalta como o felino mais ameaçado do mundo, o lince ibérico deixou de ser considerado internacionalmente como um animal “criticamente em perigo”.

Ainda é uma espécie em risco de desaparecer do planeta. Mas desceu um nível na escala de alerta da União Internacional para a Conservação da Natureza, segundo a mais recente revisão da sua Lista Vermelha das espécies ameaçadas, divulgada esta terça-feira.

Em 2002, o lince (Lynx pardinus) também tinha sido protagonista da Lista Vermelha da UICN, mas pelo motivo contrário. Nessa altura, a sua situação passou de “em perigo” para “criticamente em perigo” – sendo essa a categoria a ante-sala da extinção de uma espécie na natureza. “Quando tivemos de agravar a classificação do lince há 13 anos, a sua situação era extremamente alarmante”, disse o investigador Urs Breitenmoser, da Universidade de Berna, Suíça, e co-presidente do Grupo de Especialistas em Felinos da UICN.

A população selvagem estava no limiar da extinção. Em Portugal, não se via um lince na natureza desde o início da década de 1990.

Com o lince à beira de extinção, Portugal e Espanha uniram-se em projectos conjuntos para a sua conservação. O número de linces triplicou de 52 para 156 entre 2002 e 2012, em duas sub-populações distintas na Andaluzia – na Serra Morena e em Doñana.

De 2012 para cá intensificou-se o programa de reintrodução de linces, com cinco centros de reprodução em cativeiro na Península Ibérica – quatro em Espanha e um Portugal, em Silves. Em Portugal, o primeiro casal foi libertado em Dezembro do ano passado. Agora há pelo menos onze linces a viver no país.

“Este é o mais promissor programa de conservação de uma espécie de felino no mundo”, diz Urs Breitenmoser.

Os resultados desclassificaram o lince ibérico, mas no bom sentido: a espécie deixou a categoria de “criticamente em perigo” e voltou a estar classificada como “em perigo” na Lista Vermelha da UICN. Os indicadores desta melhoria já eram evidentes há algum tempo, mas, na metodologia da Lista Vermelha, é preciso esperar cinco anos para que se confirme que uma espécie ameaçada mudou de facto de estatuto. “Estamos satisfeitos que não tenha sido apenas uma flutuação temporária da população”, afirma o investigador suíço.

Mas o trabalho ainda está no princípio. “Estar ‘em perigo’ não é uma situação satisfatória”, alerta Breitenmoser. O investigador diz que serão necessários pelo menos mais 15 a 20 anos para o lince ibérico descer mais uma categoria, para a situação de “vulnerável” – e isto se se mantiverem os esforços de conservação e se não houver problemas com os coelhos bravos, o seu principal alimento. E só descendo ainda mais um degrau na escala da UICN – para “quase ameaçado” – é que se poderá dizer que a espécie não está em risco de extinção.

Na nova revisão da Lista Vermelha da UICN, a otária de Guadalupe (Arctocephalus townsendi) é outro caso de sucesso. A sua história vem de longe, desde que foi dizimada pela caça entre o final do século XIX e a década de 1920. O mamífero marinho, que vive na costa do México e da Califórnia, chegou a ser considerado extinto. Não estava, mas quase: em 1950 não havia mais do que 200 a 500 animais. Sob maior protecção, a população aumentou para 20.000 em 2010. Agora, a otária de Guadalupe passou da situação de “quase ameaçada” para de “menor preocupação”.

Mas muitas espécies vão no sentido contrário. O gato dourado africano (Caracal aurata) passou de “quase ameaçado” a “vulnerável”. O leão marinho de Hooker (Phocarctos hookeri) saltou de “vulnerável” a “em perigo”. E mesmo o próprio leão (Panthera leo) – o rei da selva –, embora tenha se mantido com o estatuto de “vulnerável” a nível global, passou a ser considerado “criticamente em perigo” na África Ocidental, devido ao recrudescimento da caça.

A Lista Vermelha só contém os seres vivos que foram alvo de avaliações científicas, e que são uma minoria: apenas 77 mil das cerca de 1,7 milhões de espécies que se conhecem no mundo. Ou seja, pouco mais de 4,5%.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Novas avaliações trouxeram agora novas preocupações. Por exemplo, 83 das 84 espécies orquídeas sapatinho da Ásia tropical estão ameaçadas de extinção. “Apesar destas espécies estarem bem representadas em colecções cultivadas, o seu desaparecimento em estado selvagem terá grande impacto sobre a sua diversidade genética e a continuidade da sua existência”, alerta um comunicado da UICN.

No reino das plantas, contam-se também nove espécies ameaçadas entre as que dão chá, incluindo duas camélias que só existem na China – Camellia impressinervis e Camellia chrysanthoides – e das quais não restam mais do 50 a 100 exemplares na natureza.

Nos mares do Caribe, 19 de 143 espécies de gobiões agora avaliadas estão em risco de extinção, devido à destruição dos recifes de corais que são o habitat destes peixes e à competição com espécies invasoras. E na gruta de Giri Putri, em Bali, Indonésia, duas espécies de caranguejo estão neste momento “criticamente em perigo”, vítimas do turismo e das cerimónias religiosas naquele que é o seu único habitat.

No total, há 22.874 espécies ameaçadas em todo o mundo. Na prática, três em cada dez animais e plantas que atraíram a atenção dos cientistas está em risco de desaparecer para sempre da Terra. Há 4735 espécies “criticamente em perigo”, 7124 “em perigo” e 10.925 “vulneráveis”.

*Esta notícia foi escrita, originalmente, em português europeu e foi mantida em seus padrões linguísticos e ortográficos, em respeito a nossos leitores.

Fonte: Público

 


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