O ameaçado mico-leão-dourado tem refúgio em antiga reserva biológica


(Foto: Chico Escolano/TG)
(Foto: Chico Escolano/TG)

Um grito de socorro ecoa na mata. Quem pede ajuda? Tem cara de leão, mas é frágil diante da irresponsabilidade humana. O símbolo nacional, presente na cédula de 20 reais, quase foi completamente extinto do Planeta. Isso só não aconteceu graças a um bravo exército de ambientalistas. O mico-leão-dourado só existe em um tipo de floresta, a mata atlântica de baixada, que predomina na região norte do estado do Rio. Mas a área hoje não passa de dois por cento do total. A sobrevivência da espécie só é possível hoje graças a lugares como a Reserva Biológica Poço das Antas. Foi a primeira reserva biológica do País, criada há 40 anos no município de Silva Jardim.

Quando criada, a reserva era o único fragmento de mata do Brasil em que havia micos-leões. Os bichos perderam seu hábitat e se tornaram vítimas do tráfico. A maioria deles morria no meio do caminho. Nos anos 70 não havia mais que 200 animais em liberdade. A extinção parecia inevitável. A solução encontrada por pesquisadores brasileiros e americanos foi misturar a genética dos micos da reserva com a de outros animais de todo o mundo. A busca percorreu parques e zoológicos e 500 animais participaram do programa. Os selecionados foram levados primeiro para os Estados Unidos, onde experimentaram pela primeira vez a vida fora da jaula. Eles foram soltos na área de visitantes do zoológico em Washington. Com a ajuda de veterinários e biólogos, aprenderam os primeiros passos da vida selvagem. Depois de seis meses de treinamento, chega a hora de voltar ao Brasil.

Na reserva Poço das Antas, no Rio de Janeiro, um grande viveiro os espera. Ali, os primeiros micos-leões resgatados passam a quarentena, até o dia de ganhar a liberdade. Para os micos, tão diferente quanto perigosa. Como fugir de predadores? Reconhecer alimentos venenosos? São lições que o cativeiro não ensina. E por que não um animal ensinando o outro? A mistura deu certo. Hoje há filhotes de micos que vieram do zoológico na imensidão verde da reserva. Encontrar os pequenos primatas é missão árdua.

O rádio da bióloga Andréia Martins alerta que há um grupo de mico-leão por perto. Como o remanescente é pequeno, os animais estão sempre disputando espaço. Matas como a da reserva possuem frutos que o mico-leão-dourado come, a exemplo do araçá. Por isso, eles gostam tanto dessa região. A fruta parece uma goiaba, docinha. A menos de meio metro eles vêm se alimentar, sem nenhum medo. Mas a aproximação dura pouco. Acabou a comida, o animal vai embora.

As pesquisas da Associação mostram que a interação com o homem não traz prejuízos. Os animais preservam instintos como o de buscar alimento nos ocos das árvores. Na reprodução, a cada gestação nasce um par de gêmeos. Quando ficam adultos, são expulsos e obrigados a formar novos grupos em outras áreas. E é aí que mora o problema. Andréia Martins diz que a maioria da área de ocorrência já está ocupada por micos ou é tão pequena que não cabe mais famílias.

(Foto: Chico Escolano/TG)
(Foto: Chico Escolano/TG)

Em 30 anos, os ambientalistas conseguiram um salto gigantesco na população de micos-leões. De pouco mais de 200 na década de 1970 para 3.200 animais nos dias de hoje, muito mais que a meta. O bicho estၠsolto, mas ainda precisa de casa para morar. Luis Paulo Ferraz, secretário executivo da Associação, diz que hoje os bichos estão numa situação melhor que no passado, mas longe de dizer que o mico-leão estásalvo da extinção. A bióloga Andréia Martins comenta que “nosso desafio agora é conseguir essas áreas, essas matas, para que esses micos sobrevivam nos próximos 100, 200 anos.”

O que era floresta virou cidade e pasto. Da Mata Atlântica no norte fluminense sobraram apenas algumas ilhas de vegetação, onde se esconde um símbolo nacional: o mico-leão-dourado. Os animais jovens não encontram espaço para formar suas famílias, são expulsos do grupo e morrem. Por muitos anos a reserva Poço das Antas, com cinco mil hectares, foi o refúgio de muitos animais. Mas com o crescimento da população desses primatas, que aumentou 16 vezes em três décadas, é preciso mais.

A reserva não tem tamanho suficiente para garantir a preservação das espécies. Ela precisa estar ligada a outros fragmentos. Esta ligação é um trabalho bem complicado, mas não impossível. Aliás, o que não é possível para quem conseguiu salvar o mico da extinção? Mais uma vez os soldados da preservação vão à luta, armados de sementes que formarão as novas florestas da mata atlântica. Do mato, as sementes vão para os viveiros mantidos por seis famílias de um assentamento rural. Ali nascem as mudas e a consciência de um novo futuro. Dona Graça Morais, agricultora, diz que antes mal sabia o nome das árvores em volta do sítio, e hoje vê a floresta com outros olhos.

O marido, João Morais, também agricultor, diz que a lida faz bem para o corpo e a alma. O amor pela flora inspirou até o nome das filhas: Acácia e Vitória Régia, que gostam de brincar de plantar. Aprendem desde cedo o valor da natureza. Esse ano o casal deve produzir 60 mil mudas de árvores nativas da Mata Atlântica. Todas serão vendidas para projetos de reflorestamento da Associação Mico-Leão-Dourado. Dona Graça já imagina como as plantinhas ficarão bonitas e imponentes: a bela aroeira, o saboroso araçá, e o florido fedegoso. São olhos de quem sabe a importância de enxergar o futuro.

(Foto: Chico Escolano/TG)
(Foto: Chico Escolano/TG)

Os viveiros de Silva Jardim cultivam 124 espécies. O que sobra da formação das mudas é depositado no banco de sementes. E quem poupa garante o socorro em momento de aperto. Nas áreas jၠreflorestadas, o resultado do esforço: árvores plantadas hၠdois anos crescem vigorosas. O corredor ecológico plantado no meio do pasto uniu dois fragmentos de mata. Os micos conseguem passar de um lado para o outro. Aumentou a oferta de comida e de espaço. O banco da consciência junta moedas para preservar um grande patrimônio nacional.

Fonte: G1


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