Desobediência Vegana - Ellen Augusta Valer de Freitas

A verdadeira caridade é radical

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O imaginário em torno da palavra caridade é sempre alguém cedendo um prato de comida a quem tem fome, é uma pessoa que sai em silêncio e não diz nada para ninguém. Mas o verdadeiro ato de caridade é a prática de coisas difíceis, às quais ninguém quer abrir mão.

Recentemente um fato curioso me chamou a atenção. Um grupo de pessoas realizou um evento de ajuda humanitária. Conseguiu muito pouca ajuda e adesão nas redes sociais. Mesmo assim, foram sozinhos à luta.

Mas, vejam, na hora de divulgar o trabalho realizado, postando fotos das poucas pessoas ao lado das crianças sorridentes pela ajuda recebida, o que veio foi uma enxurrada de nojentos comentários odiosos, do tipo ‘por que postar fotos? se você faz as coisas fique quieto’, etc, etc.O caridoso deve sair e falar para todo mundo o que fez. Sim, gente boa! Sabe por quê? Por que assim você inspira os outros a fazer o mesmo.

Quando falamos ‘seja vegano’, os arrogantes acham que você é arrogante. Mas muita gente se inspira e começa a ler, a se interessar e a ajudar. Depois que me tornei vegana, entrei para a militância dos direitos humanos. Atuo na causa animal mais efetivamente. Minha sensibilidade aumentou. Falei a todo mundo, com a voz bem alta, tudo o que fiz.

É preciso dizer, quando você ajuda alguém. Diga aos outros ‘eu fiz’. Não dói. Faça também.
Na Capital do RS, muitas pessoas são duras, não ajudam, não se cumprimentam. No meu prédio, as pessoas jogam muletas no lixo.

Eu ajudo, distribuo livros, panfletos de como ajudar. E digo bem alto ‘seja vegano’. E digo o porquê – ‘o veganismo salva vidas de animais, diminui o trabalho escravo de humanos, contribui para diminuir a degradação ambiental e diminui a fome do mundo, pois cereais são plantados para o gado, para produzir leite para encher a pança de humanos’.

Sou chamada de radical, mas a verdadeira caridade é radical. Os verdadeiros caridosos sempre foram subversivos e foram perseguidos por isso. O maior exemplo disso foi Jesus. O sábio e velho Nietzsche escreveu sobre a humildade e sobre o preço que se paga, certas vezes, por fazer a caridade. Mesmo assim, a gente faz. Porque quer fazer.

O barato que dá quando se compra algo é tão passageiro. Pegue algo em sua casa, saia para a rua e ajude alguém. Volte para casa e sinta o que aconteceu. Mas não fique quieto. Passe adiante.

1 COMENTÁRIO

  1. Cara Ellen Augusta, sábias e certeiras palavras bem arrumadinhas na crônica. Se não custa nadica de nada fazer o bem e ser do bem, por que não?
    Abração.

  2. Concordo, Ellen! Essa coisa de fazer caridade e não contar para ninguém é algo duvidoso. Penso que temos que mostrar os feitos, inspirar, incentivar, mostrar que é possível fazer algo e que isso não é coisa para “superhomem”. Só não concordo quando pessoas passam a tentar humilhar os que não fazem o mesmo que elas fazem, com a finalidade de incorporar uma faceta negativa da vaidade. Talvez essa seja uma das razões – não a única – que fez com que essa ideia de caridade silenciosa se disseminasse tanto e que a caridade declarada fosse não tão bem vista. Abraço!

    • Olá pessoal, gracias pelos comentários. O triste é quando o ato de divulgação vira antes da motivação pessoal, apenas marketing. E também concordo com o Juliano, essa tendência que muitos têm, de humilhar os outros, seja de que forma for. O que mais dificulta a divulgação nos dias de hoje, pelo que percebi, é o deboche dos outros nas redes sociais, e os ultimos acontecimentos que citei no texto, são prova disso. As pessoas discutem e teorizam bastante, mas na hora de ajudar, aparecem aqueles poucos de sempre. Mas a divulgação incentiva muitos que em silêncio ou não, nunca pararam para pensar, ou já ajudam a muito tempo, etc, a seguir na nossa luta de sempre fazer o melhor.

  3. Dos que se dispõem a ajudar os animais existem os que somente levantam a bandeira da conscientização , e , por outro lado os que fazem de tudo para salvar vidas em riscos iminentes, ainda que ferindo leis injustas, são os considerados radicais.
    Acredito que a conscientização é muito importante para um trabalho de longuíssimo prazo e ainda assim não alcançará a maioria das pessoas. Por outro lado os que enfrentam o mau inclusive as leis e normas más e injustas, praticam o melhor papel, o mais eficaz, pois a dor requer medidas imediatas, urgentes, não há que se esperar, não há tempo pra isso. Coloque-se no lugar de um animal que está sofrendo: você gostaria que pessoas fossem tentar conscientizar malfeitores que são inconscientizáveis para que ele passasse a pensar melhor dali pra frente, ou você preferiria que um radical lhe salvasse imediatamente. Claro que você optaria pelo radical pois ele sim lhe livraria da dor, dos maus-tratos, sem ter que contar com a longa conscientização social.
    Creio que só fizéssemos conscientização veríamos grupos de proteção e a ANDA daqui há décadas ou séculos ainda lutando pela tal conscientização sem consideráveis avanços. Mas se radicalizássemos tenho certeza de que salvaríamos muitos animais, com certeza. Essa onda de paz deve ser restrita aos humanos decentes. Quando se trata de monstros humanos só há uma solução, a força. É submeter ele aos mesmos maus-tratos que impinge aos animais. Quando eu era menos maduro e no início do meu caminho de proteção aos animais, eu achava que a conscientização por si só bastava, mas agora, maduro, concluí que não. Temos que utilizar da força, do ativismo radical, senão iremos perder a chance de salvar muitos animais. Discurso, debates, geralmente não são muito eficazes.
    Certa vez um filhote de cão fora abandonado na minha porta e meu pai disse para eu não pegar mais pois já estava com meu abrigo lotado. Ele disse que eu deveria tentar fazer mudar as leis. Eu então lhe disse: se fosse o senhor que estivesse com tenra idade, com fome, com frio, abandonado, você gostaria que eu lhe fechasse as portas da minha casa ??
    E o silêncio do meu pai já foi sua resposta.
    Eu por exemplo apesar de ter um abrigo de animais ainda ajudo outros, mas sempre ajudo àqueles em que os donos se privam e se sacrificam de conforto para dar bem-estar aos animais, pois esses são os melhores protetores, os que põe a mão na massa, a mão na merda do cão, os que catam bosta o dia inteiro e vivem em privação. Protetor que anda sempre limpinho, cheiroso, bem vestido e de carrão, esses eu não ajudo.

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