A reação de Manaus à morte dos periquitos


Muita coisa me impressionou com o caso dos “Periquitos do Condomínio Ephigênio Salles”. Não foi só a tristeza de saber que pelo menos duas centenas de aves tão belas e inocentes morreram, mas também pela proporção que isso tomou e sobretudo pela comoção e manifestação popular, que foi demonstrar sua revolta na frente do condomínio, conhecido por abrigar, além de milhares de periquitos, parte da burguesia de Manaus.

A forma como praticamente todos os manauaras, da noite para o dia, se tornaram especialistas em aves, patologia animal e investigação policial, diagnosticando que os periquitos foram todos envenenados e a culpa é dos moradores do condomínio foi o que mais me impressionou. Tudo bem, o histórico de colocação de redes nas palmeiras que adornam o condomínio e as constantes reclamações de seus moradores sobre o barulho que as aves produzem pesam contra e levantam sim suspeitas. Mas determinar a causa mortis e ainda mais os culpados, baseado apenas em “achismos” é de uma irresponsabilidade enorme. Desconfio inclusive que os moradores do condomínio que não gostam das aves devem ser a minoria.

Sou veterinário e infelizmente não estava em Manaus no dia fatídico, mas realizei a necropsia dos animais que foram enviados ao IBAMA assim que retornei para Manaus. Em todos eles pude constatar o mesmo quadro. Não vou entrar em detalhes, mas o que observei foi uma hemorragia acentuada em todos eles. Essa hemorragia é compatível com muitas coisas, entre elas intoxicação (que pode ser por veneno, zinco, cobre, tintas) e traumatismo (quedas, pancadas). Ou seja, sem um exame toxicológico é impossível determinar a causa mortis com exatidão e responsabilidade. Somente após recebermos o laudo laboratorial, poderemos dizer o que realmente causou a morte de tantos animais.

E informo que isto será feito. Os órgãos ambientais têm tanto interesse em desvendar esse acontecimento quanto qualquer cidadão indignado de Manaus. E diferentemente do que tenho ouvido falar, podem ter certeza de que pouco importa se quem mora no Conjunto Ephigênio Sales é o governador, o senador, o bispo ou o papa. Duvidar da idoneidade de técnicos comprometidos, que dedicam a vida a cuidar do meio ambiente é no mínimo ingenuidade e síndrome da teoria da conspiração.

Fauna maltratada

Todos os dias vários animais são atropelados, eletrocutados, capturados, caçados e maltratados. Árvores e fragmentos florestais inteiros são dizimados para darem lugar a condomínios, ruas, avenidas, indústrias e todo tipo de empreendimento imobiliário.

Mas como praticamente tudo na vida tem seu lado positivo e o negativo, consigo ver uma coisa boa desse episódio que repito, foi muito triste. Parece que o cidadão manauara acordou para um fato que venho a muito tempo citando. O total descaso com que a fauna e flora de Manaus são tratados.

Todos os dias vários animais são atropelados, eletrocutados, capturados, caçados e maltratados. Árvores e fragmentos florestais inteiros são dizimados para darem lugar a condomínios, ruas, avenidas, indústrias e todo tipo de empreendimento imobiliário. A cidade cresce sobre a cidade sem o planejamento necessário e o mínimo de respeito. A cada dia temos nas nossas ruas mais carros e menos pássaros, mais cinza e menos verde.

Vejamos o caso dos periquitos do V-8. Todos os dias sem exceção morrem periquitos atropelados lá. E isso não é de hoje. A média é de 4 a 5 atropelamentos por dia. Agora façam as contas: 5 animais por dia vezes 30 dias do mês dá uma média de 150 animais mortos por atropelamento em um mês. Ou seja, em dois meses temos cerca de 300 animais mortos, somente por atropelamento e somente naquele lugar!

Agora vejam o caso do nosso animal símbolo, o sauim-de-coleira. Somente na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), a média é de 12 animais mortos atropelados por ano. Em apenas um fragmento! Se pensarmos que na UFAM existe somente uma avenida e extrapolarmos isso para toda a cidade de Manaus, podemos imaginar que os sauins atropelados e mortos por ano na cidade estão na casa das dezenas e quem sabe centenas! Sem contar os animais que morrem eletrocutados, atacados por cachorros, capturados para serem vendidos! E o sauim-de-coleira é uma espécie que só existe na região de Manaus e é considerada uma das espécies mais ameaçadas de extinção do mundo!

E se formos falar das cutias atropeladas? Dos bichos-preguiças queimados nas invasões? Dos passarinhos apedrejados por crianças? Das árvores derrubadas? Dos fragmentos florestais suprimidos? Dos igarapés poluídos com todo tipo de lixo e dejeto?

Aonde vamos chegar desse jeito me parece óbvio. Uma cidade cada vez mais quente, mais triste, mais feia, sem animais, sem árvores, sem opções de lazer, sem igarapés onde se pode banhar-se. E depois serão bilhões de reais gastos para tentar despoluir e recuperar toda a destruição causada por nós mesmos.

Mas ainda dá tempo. A morte desses 200 periquitos foi uma mancha na história da cidade, mas pode servir para alguma coisa. Talvez seja um divisor de águas na forma como a cidade enxerga e trata o meio ambiente.

Temos uma legislação que protege a nossa fauna, basta fazê-la ser cumprida. Manaus tem um código ambiental (Lei 605 de 2001) que diz que os fragmentos florestais devem ter proteção especial. Diz mais: qualquer local onde haja espécie ameaçada de extinção é Área de Preservação Permanente e, portanto, não pode ser suprimida! Ora bolas, mas o sauim-de-coleira está em extinção! E todo dia áreas com sauim são desmatadas para que condomínios, indústrias e avenidas apareçam! Basta ver a história recente da Avenida das Flores e da creche que a prefeitura quer fazer do lado do Parque do Mindu.

Obviamente a solução não é proibir tudo nem impedir o crescimento da cidade. Afinal, a cidade precisa se desenvolver. Todos querem mais creches e avenidas que facilitem a nossa vida. A questão é como fazer isso de uma forma harmoniosa e respeitosa com o meio ambiente. Ou será que vamos caminhar no mesmo rumo que cidades que hoje sofrem com seus rios poluídos, falta de água, falta de parques, falta de mobilidade urbana?

Redutores de velocidade (lombadas) podem ajudar a diminuir o número de animais atropelados. Recuperação de áreas degradadas pode ajudar a conectar fragmentos e grupos de animais. Plantio de árvores, limpeza de igarapés, projetos de educação ambiental, ciclovias, envolvimento comunitário, tudo isso é importante e faz diferença.

A população pode e deve fazer parte disso. Cobrando das autoridades e políticos, manifestando, exigindo que a lei seja cumprida. Chega de comodismo e alienação!

Obviamente os órgãos governamentais tem um papel importantíssimo nisso. A SEMMAS deve parar de dizer que não tem nada a ver com a fauna silvestre, como já cansei de ouvir. Afinal, toda atividade potencialmente poluidora é licenciada pela SEMMAS (Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade) ou IPAAM (Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas) e cabem a eles dizer a forma menos impactante disso acontecer. O licenciamento ambiental serve entre outras coisas para isso!

Moramos numa cidade conhecida nacional e internacionalmente por estar na região de maior biodiversidade do planeta. Tenho certeza que todos que chegam aqui esperam ver uma cidade linda, que respeita os seus habitantes, sejam eles pessoas, periquitos, árvores, sauins ou bichos preguiça.

Uma cidade que saiba viver em harmonia com a natureza, que traga qualidade de vida para seus moradores e visitantes. Que tenha parques, igarapés lipos, araras no céu, sauins, periquitos e sobretudo pessoas felizes e orgulhosas. E não revoltadas com a forma como nossa biodiversidade é tratada.

Ainda dá tempo. Isso não é vaidade, viagem e nem sonho de ambientalista. Isso é apenas pensar no futuro com responsabilidade e respeito a natureza. Que a morte desses pequenos e indefesos animais não tenha sido em vão.

*Diogo Lagroteria é médico veterinário e analista ambiental do IBAMA.


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