Educação vegana - leon denis

A Simplicidade

Vivemos em um país onde a livrofobia e a epistemefobia são os pilares da cultura. Nunca fomos exemplo de um povo habituado a leitura, aos estudos minuciosos, pelo contrário, as...

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05/09/2014 às 15:40
Por Redação

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Vivemos em um país onde a livrofobia e a epistemefobia são os pilares da cultura. Nunca fomos exemplo de um povo habituado a leitura, aos estudos minuciosos, pelo contrário, as escolas públicas são os locais por excelência da criação de traumas nos futuros leitores. Poucos são os alunos que saem da escola com gosto pela leitura, pelos estudos. A maioria nunca foi estimulada de forma prazerosa a frequentar uma biblioteca, a estudar pelo simples prazer de se enriquecer culturalmente.

A falta de hábito de leitura nos nossos adolescentes é um fator que muito prejudica no ensino dos direitos animais nas escolas. Se não lêem nem a literatura infanto-juvenil, o que dirá de obras e artigos de direitos animais, que são recheadas de argumentos de vários campos do conhecimento como: Filosofia, Etologia, Direito, Historia, Lógica, Neurociência, Nutrição, entre outros.

Diante desse cenário, cabe ao educador vegano engajado na introdução dos direitos animais na sala de aula, procurar simplificar ao máximo a mensagem que será passada. Comte-Sponville dirá que a simplicidade “é a mais leve das virtudes, a mais transparente e a mais rara… é a vida… sem exageros, sem grandiloquência.” O filósofo a classifica tanto como uma virtude intelectual como moral.

É comum ouvir reclamações tanto dos adolescentes quanto de adultos, no dia-a-dia, que não entendem nada do que foi passado nas aulas de filosofia. É uma infeliz prática a de alguns pensadores, e no seu embalo, a da maioria dos professores da disciplina o rebuscamento da linguagem. Escrevem e falam num linguajar tão difícil (técnico) que gera no público nada mais que aversão ao conteúdo da aula.

A filosofia, e no caso aqui, a teoria dos direitos animais, se torna algo incompreensível; logo, inacessível aos reles mortais. Algo distante e sem sentido. Falar numa linguagem rebuscada, erudita, é sinal de status, de posse de um capital cultural que a maioria não tem. Mas num paupérrimo ambiente escolar qual serventia tem? Tornar o simples, complexo, não é sinal de inteligência, pelo contrário, a inteligência pode ser chamada de a arte de transformar o mais complexo em algo simples.

Montaigne critica aqueles que fazem uso de discursos refinados: “este anuncia preceitos em excesso, prenhes de dificuldades e pouco compreensíveis; emprega palavras sonoras e vazias que não se entendem e não suscitam nenhuma idéia…”. Mais adiante, em um trecho longo, mas importante para nos fazer refletir sobre como transmitir nossa proposta ética animalista para um público leigo e habituado ao exercício da preguiça intelectual, Montaigne diz:

“É estranho que em nosso tempo a filosofia não seja, até para gente inteligente, mais do que um nome vão e fantástico, sem utilidade nem valor, na teoria como na prática. Creio que isso se deve aos raciocínios capciosos e embrulhados com que lhe atopetaram o caminho. Faz-se muito mal em a pintar como inacessível aos jovens, e em lhe emprestar uma fisionomia severa, carrancuda e temível. Quem lhe pôs tal máscara falsa, lívida, hedionda? Pois não há nada mais alegre, mais vivo e diria quase mais divertido. Tem ar de festa e folguedo. Não habita onde haja caras tristes e enrugadas […]”

As questões são: porque complicar quando se pode simplificar, demorar quando se pode abreviar, obscurecer quando se pode esclarecer? Se viver o modo de vida vegano exige de nós a prática das virtudes, a apresentação da teoria dos direitos animais exige que a leveza da simplicidade seja o fio condutor; para que os princípios norteadores sejam compreensíveis para todos e discutíveis por todos, precisam ser claros e evidentes.

Sempre com os olhos no modo de vida simples pregado pelos greco-romanos, Montaigne nos ensina que: “A recompensa e a grandeza da verdadeira virtude estão na facilidade, utilidade e prazer do seu exercício; que ela apresenta tão poucas dificuldades que nela são igualmente fortes as crianças e os homens, os simples e sutis; e faz se pela moderação e não pela força. Sócrates, seu adepto favorito, propositadamente recusou a impô-la pela força, e passou a contar com a simplicidade e a brandura para fazê-la vencedora.”

Fitemos os olhos em Epicuro, mestre na simplicidade das palavras. Fitemos os olhos no modo de vida simples de animalistas como Sônia Felipe, Nina Rosa, Laerte Levai, Mauricio Varallo…

A verdade sobre os infortúnios que os animais não-humanos passam para que a sociedade mantenha seus especismos (eletivo e elitista) intactos deve ser dita numa linguagem simples, sem artifícios, pois é pequenez de espírito e imprudência (o não ver a quem se fala) querer se apresentar com uma linguagem rebuscada/refinada, permeada de expressões e vocábulos pouco conhecidos, atitude escolástica e infantil.

Que os educadores veganos conscientes da cultura livrofóbica brasileira, da aversão ao estudo inculcada nos nossos adolescentes nas escolas, não caiam no engodo do academicismo de um lado, e do analfabetismo funcional animalistta do outro. É possível transmitir a teoria dos direitos animais e sua prática vegana de maneira simples, mais clara, e porque não, de modo alegre, divertido? Sim. Para isso, que estudemos e nos dediquemos as mais diversas metodologias. A ludicidade, recurso tão comum as práticas de intervenção psicopedagógicas, façamos uso dela também.

A simplicidade é o caminho oposto da complexidade. É liberdade, leveza, transparência. Um falar e um agir simples é demonstração que nosso pensamento e nossa reflexão foram arejados pela simplicidade. Sem a simplicidade não há temperança.

O fato de que os animais não-humanos não são coisas, produtos, objetos destituídos de sentimentos e consciência, é algo simples de se entender e compreender. Se o público não está compreendendo que aquilo que nos iguala moralmente – a senciência e a vulnerabilidade – é o que deve passar a nos guiar eticamente, é porque algo no caminho entre a inocência e a consciência do fato esta impedindo. E na maioria das vezes essa barreira é a complexidade, a obscuridade, a pomposidade no expressar.

Pascal disse que “em geral, só imaginamos Platão e Aristóteles com grandes túnicas de pedantes. Eram pessoas honestas, e, como outros, rindo com seus amigos; e, quando se divertiram em fazer as suas Leis e a sua Política, fizeram-nas brincando. Era a parte menos filosófica e menos séria de suas vidas. A mais filosófica consistia em viver simples e tranquilamente.”

Esse é o espírito, simplicidade. Ser simples não exclui o instruir-se, o dedicar ao estudo constante da vida animal. Ao contrário do que parece, educar não é algo difícil, é algo simples. Difícil é desabituar-se de costumes violentos naturalizados desde a mais tenra idade. Difícil é forjar uma segunda natureza virtuosa não-violenta numa população onde o simples é tomado pela obscuridade, pela complexidade, pelo impossível. Para superar essa cultura da aversão a leitura, aos estudos, ao dar ouvidos à razão, é preciso simplificar nosso modo de discursar.

Educar é simples, mas por ser um exercício, cansa ao fim do dia. Torna-se uma tarefa árdua, mas não faz parte dela a complexidade. Crianças e jovens aprendem por mimesis; sejamos exemplo de que a prática da justiça para além da nossa espécie, com coragem e prudência, é algo possível de se realizar.

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