Mark bekoff

Ratos demonstram empatia por companheiros torturados e mortos em laboratório

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Aqueles dentre nós que estudam e convivem com animais já sabem muita coisa sobre suas emoções e capacidades mentais, mesmo que a ciência ainda não tenha provado além de uma sombra de dúvida acerca desse conhecimento.

Mas esperar pela ciência para confirmar o que nós já sabemos sobre os animais pode ser desastroso. Ceticismo é um importante traço para um cientista, mas a dúvida também pode ser usada como desculpa, uma forma de não ter que lidar com as consequências daquilo que temos feito com os nossos semelhantes.

Para os cientistas, a dúvida é especialmente útil como uma forma de evitar a verdade sobre aquilo que é feito com cada indivíduo sendo estudado.

FAÇA PARTE DO #DiaDeDoarAgora EM 5 DE MAIO

Consideremos dois estudos, um sobre empatia nos ratos, e outro sobre o “amor dos ratos-almiscarados”, nos quais indivíduos foram abusados e mortos, tudo em nome da confirmação daquilo que muitos de nós já sabemos.

Primeiro, você acredita que ratos são capazes de empatia? Se você já conviveu com um deles, provavelmente dirá que sim, visto que já deve ter testemunhado em primeira mão. Mas de qualquer forma, até poucos anos atrás, a “ciência” ainda não tinha sido capaz de provar ou refutar este fato, sendo considerada uma afirmação controversa.

Então, em junho de 2006, pesquisadores relataram no periódico Science a primeira evidência inequívoca de empatia entre mamíferos adultos não-primatas, ou seja, ratos. E que tipo de experimento você acha que eles desenvolveram?

Dale Langford, da Universidade McGill, e seus colegas, demonstraram que ratos sentem empatia, mostrando que eles sofrem angústia quando assistem seus companheiros de confinamento experimentando dor. Langford e a sua equipe injetaram um ou ambos os companheiros com ácido acético, que causa sensações de dor e queimação severas. Os pesquisadores descobriram que os ratos que viam seus companheiros em sofrimento ficavam, eles próprios, mais sensíveis à dor.

Um rato injetado com ácido se contorcia mais violentamente se o seu companheiro (ou companheira) tivesse sido também injetado, e estivesse se contorcendo de dor. Não apenas os ratos que assistiam seus companheiros em sofrimento se tornavam mais sensíveis ao mesmo estímulo doloroso, como também se tornavam mais sensíveis à dor de modo geral, demonstrando reações intensificadas, a calor sob as suas patas.

Um dos pesquisadores sugeriu que uma barreira opaca fosse usada para separar os ratos, de modo que eles não soubessem o que estava acontecendo com o outro rato, porque ratos que se observavam durante os experimentos poderiam estar “contaminando” os dados. Os ratos, em outras palavras, estariam sendo empáticos demais.

É difícil de acreditar que alguém possa dizer uma coisa dessas, mas trata-se de um bom exemplo de um cientista se esquivando da sua responsabilidade de prover aos animais que ele usa os melhores cuidados possíveis. É claro, de acordo com a lei dos Estados Unidos, que camundongos, ratos, ratazanas e outros roedores, assim como aves, coelhos e peixes, não são protegidos de pesquisas invasivas. O próprio estudo em questão demonstra o quanto essa lei é inadequada.

Em outro estudo, intitulado “amor dos ratos-almiscarados”, pesquisadores separaram nove ratos machos dos seus companheiros de confinamento para ver como eles lidavam com o estresse. Então eles mataram os animais retirados, e descobriram naquele que restara altos níveis de uma substância química denominada hormônio liberador de corticotrofina (CRH), conhecido por desempenhar um papel determinante na depressão.

Um artigo no Los Angeles Times tratando desse estudo começa assim: “Cientistas confirmam o que os poetas já sabiam há tempos: A ausência traz pesar ao coração.”

Pela lógica, morte traz pesar ao coração também? E o que dizer sobre cientistas que inventam um experimento no qual eles matam animais apenas para provar que eles podem amar?

Se os animais escrevessem um manifesto, certamente uma de suas demandas seria que os humanos confiassem em seus instintos sobre os animais, em primeiro lugar. Então, se houvesse dúvidas remanescentes, que os humanos as satisfizessem de algum modo que, em retrospectiva, não aceitasse a crueldade como um preço pelo conhecimento.

Este texto é um trecho do livro The Animal Manifesto: Six Reasons for Expanding Our Compassion Footprint.

Mark Bekoff, Ph.D., é um dos primeiros etólogos cognitivos dos Estados Unidos. É também professor emérito de ecologia e biologia evolucionária na Universidade do Colorado, e cofundador, juntamente com Jane Goodall, do Ethologists for the Ethical Treatment of Animals.

Fonte: O Holocausto Animal

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui