Olhar literário - laerte levai

Um novo imortal

A cadeira n. 29 da Academia Riograndense de Letras passará, no dia 12 de novembro de 2013, a ser ocupada por um escritor gaúcho de inegáveis méritos, que trabalha como...

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05/11/2013 às 18:40
Por Redação

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A cadeira n. 29 da Academia Riograndense de Letras passará, no dia 12 de novembro de 2013, a ser ocupada por um escritor gaúcho de inegáveis méritos, que trabalha como físico e professor em Porto Alegre e que, também, atua como pianista clássico. Um detalhe não menos importante: o novo acadêmico é vegano. Estamos nos referindo, é claro, a Rafael Bán Jacobsen, personalidade bem conhecida no movimento de defesa animal e que transita com desenvoltura, há pelo menos quinze anos, no inusitado universo da prosa de ficção. Talento é coisa que não lhe falta, convenhamos. A estréia promissora, com Tempos & costumes (Alcance, 1998), rendeu ao jovem autor o Prêmio Açorianos de Literatura. Cinco anos depois esta mesma distinção foi-lhe outorgada em razão do romance Solenar (Movimento, 2005). Já na narrativa Uma leve simetria (Não-Editora, 2009) – obra que trata do amor não como um sentimento, mas como o sentimento – uma personagem vegetariana integra o enredo da trama.

Qual discípulo de Moacyr Scliar dos sonhos tropicais, do ciclo das águas e das paixões solitárias, o escritor Rafael Jacobsen – na precisão matemática de sua palavra escrita capaz de multiplicar visões de mundo – por vezes se faz exército de um homem só, incansável viajante de caminhos aparentemente impossíveis de percorrer.  É aí que seu ofício recluso, em busca de si e dos outros, alcança uma dimensão que o torna, ao mesmo tempo, interior e coletivo. Na sutil tessitura de seus núcleos dramáticos as situações-limite da alma humana, tangidas pelos momentos de angústia ou tensão, parecem incorporar o lirismo poético projetado no cenário dos acontecimentos. Deste singular encontro do ser com sua identidade mais profunda é que a sinfonia tempo-espacial, tocada pela alma do artista, compõe a imagem mais perfeita do sujeito ficcional que sonha, que ri, que sofre e que se eleva.

A sondagem psicológica, sempre mais sugerida do que revelada, é outra marca característica das narrativas jacobsenianas: que o diga a irmandade trágica de Rodrigo e Cristiane de Solenar, que o diga o percurso dos meninos Daniel e Pedro em Uma leve simetria. Neste contexto, em que as personagens dividem-se entre grandes procuras e perdas irreparáveis, vida e morte tornam-se eixos estruturais quase obsessivos em sua obra. Ali se vê a canoa de Caronte a navegar sobre as águas de destinos irremediavelmente selados.  Ali a comoção do solo sagrado imprime-se na lápide da mais sentida ausência. Como se o tempo esboçasse, pela mão do escritor, as linhas imaginárias que o conduzem sempre ao universal tema do homem: na poesia das coisas, na refinada ironia diante do partir ou numa solidão de cósmicas proporções.

As personagens de Rafael Jacobsen movem-se, pelo curso das histórias suas, como peças vivas no tabuleiro de um grande e quase indecifrável jogo. Em Solenar um jornalista viaja ao passado para investigar, pela leitura de registros epistolares, a derrocada de uma tradicional família do interior gaúcho. Todos os ingredientes de um bom romance, segundo Léa Masina, estão presentes neste livro: “amores conflituosos, relações incestuosas, perseguições, ódios implacáveis, medo, crueldade, ambição, preconceito, sofrimento e morte”. Já na delicada história dos adolescentes protagonistas de Uma leve simetria, elogios rasgados vêm do próprio Scliar: “Com grande sensibilidade e não menor talento literário, Rafael Bán Jacobsen narra-nos uma história que, tendo como moldura a vida comunitária judaica com seus costumes e suas tradições, representa, contudo, um verdadeiro mergulho na condição humana – uma obra que, desde já, consagra o seu autor como um importante nome na nova geração de escritores brasileiros”.

A cerimônia da consagração literária de Rafael Bán Jacobsen, na Academia Riograndense de Letras, dar-se-á a partir das 18h00 no Palácio Histórico do Ministério Público, Praça Marechal Deodoro, n. 110.  Imortalidades à parte, apesar de a tradição acadêmica assim distinguir seus membros, o fato é que nosso homenageado terá pela frente, no mínimo, mais de meio século para produzir uma vasta Obra e, assim, exercer em plenitude o relevante ofício de escritor. Seu olhar sensível – e sempre atento – às grandes questões do mundo é que nos traz, agora mais do que nunca, a confiança imorredoura de um futuro melhor para todos os seres. Porque Vida e Arte andam sempre juntas, numa interação que se mostra muito mais do que importante, numa interação simplesmente essencial. Rafael Jacobsen, o novo imortal da academia gaúcha, sabe bem disso.

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