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Os Beagles e os Porcos: o constrangimento que nos traz

Sinceramente, qualquer um de nós, no lugar de um daqueles beagles resgatados do Instituto Royal, no dia 18 de outubro em São Roque-SP, iria adorar e aplaudir a ação dos ativistas. Definiria a ação como uma “visitação de anjos libertadores”. Para o beagle, não há interesse em saber que ele é uma cobaia indispensável para que o país tenha um laboratório de ponta para fármacos e novas drogas. Ele quer é viver. Sendo assim, como beagle, a história terminaria aqui e ponto final, ou melhor, a vida começaria agora. Pela primeira vez, aqueles animais estão experimentando o direito à vida, à liberdade e à própria integridade física.

Entretanto, esse episódio tem uma complexidade que permite muitas leituras, e me arrisco, então, a fazer uma delas. Primeiro, é preciso ressaltar que o Instituto Royal é considerado o “mais controlado, ético e regular centro de pesquisa”. Recebe financiamento público e tem permissão legal para o uso de animais em estudos científicos e está regularmente credenciado junto ao Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA), que é um órgão integrante da estrutura do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, no que tange à solicitação de credenciamento das Instituições de Ensino e Pesquisa Científica. Ou seja, estamos diante de uma instituição que tem o respaldo das leis brasileiras e esta base legal está disponível no site (http://concea.mct.gov.br), tópico legislação, onde é possível encontrar a Lei Arouca, o Decreto, as Resoluções Normativas e Orientações Técnicas. Dito isto, não estamos lidando com pessoas desonestas ou ilegais. Está tudo “dentro dos conformes”.

O que esta invasão e resgate suscitam é um questionamento do nosso padrão moral, ético, de civilidade e de relação com os outros seres que dividem conosco o mesmo habitat. As pessoas, ao tomarem contato com os bastidores de um desses laboratórios, tiveram uma reação de reprovação e comoção. Temos aqui outra pergunta: o que nos leva a comover com os dóceis e lindos beagles e sermos completamente indiferentes com os vira-latas, porcos, vacas e seus bezerros, cavalos, galinhas, gansos, por exemplo? Que tipo de procedimento mental é este que nos faz selecionar alguns, para que sejam alvo de nosso amor, proteção e cuidado e agirmos sem nenhum tipo de sensibilidade e total indiferença com outros? Estamos falando de animais que se diferem apenas na forma – consideramos uns mais bonitos e fofinhos do que outros que, entretanto, possuem o mesmo tipo de consciência, sistema nervoso central e vontade de viver.
Este lampejo ou raio de luz que por alguns instantes iluminam e escancaram nossa incoerência ou esquizofrenia moral, para utilizar uma expressão de Gary Francione, nos permite deduzir que, este mesmo sentimento e consciência que atingiu tantas pessoas, tem como sustentação o fato de que, os animais são sujeitos de uma vida, como afirma Tom Regan. Desta forma, como seria a libertação dos 8,5 milhões de bois e vacas; 9 milhões de suínos, considerados os animais mais inteligentes já domesticados pelo homem; 1,4 bilhão de aves que foram mortos ou “abatidos” apenas no 2º trimestre (abril, maio e junho) de 2013 no Brasil? Este recorde histórico, muito comemorado pelo agronegócio, é considerado por outros como “fábrica de desmontagem de vidas”, conforme expressão de Fábio Chaves do site VISTA-se, que vai além, “cada um destes animais sofreu de uma forma que somos incapazes de imaginar”.

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A libertação dos animais não humanos, sejam ele um beagle ou um porco, depende muito mais de nós do que imaginamos. Esta libertação virá quando deixarmos de consumir sua carne, sua pele, seus órgãos internos, de extrair suas secreções e também não comprar produtos das indústrias que fazem testes em animais. Não será necessário invadir os incontáveis abatedouros espalhados pelo país; basta utilizarmos apenas uma arma: o nosso garfo e o nosso poder de compra. Hoje não há lojas que vendem máquinas de datilografia, pois não há quem as comprem. O Instituto Royal não é o demônio da história e sim nossas demandas de consumo. Este tipo de ativismo silencioso terá efeito na longa duração e não suprime o trabalho heroico e incansável dos socorristas, dos protetores ou de outro tipo de envolvimento com a causa, porém, é preciso ser considerado seriamente por todos aqueles que, sinceramente, “amam e se dizem protetores dos animais”.

15 COMENTÁRIOS

  1. Concordo plenamente, pois não adianta defender tantos os beagles e não ter o menor sentimento de culpa em comer porcos, ovelhas e carneiros. A morte destes animais é cruel e sofrida.
    Cada vez que vejo no super as prateleiras com carnes sangrando, penso na dor e sofrimento deles.Viro as costas e como verduras, legumes.

  2. Obrigada Beatriz, Gisele e Cney pela interlocução e pela leitura. A mente não especista não se fixa na feição do animal, mas em sua vida, que é tão importante para ele quanto a minha é para mim.

  3. Por isso que parei de comer qualquer tipo de carne e procurar não usar produtos de origem animal,sem maus trato ou tortura a nem um tipo de animal humano ou não,a menu ser vivo.

  4. A sociedade necessita de olhos mais atentos, mente mais aberta para que o real valor da libertação animal seja elucidado. Precisamos estabelecer um comportamento mais racional para que valores éticos e morais possam ser realmente compreendidos. A questão vai muito mais além do que possamos ver, na verdade, o Instituo é apenas a ponta do iceberg. O que seria necessário é avaliarmos a base desse iceberg. Pois a lei existe, e não foi burlada, o que deve acontecer, é ser mudada. Abraços e seu texto está muito bom.

  5. Luia, concordo com sua reflexão. Mas o fato do Instituto Royal ser totalmente legalizado não anula as acusações de maus tratos aos Beagles. Tenho consciência de que nossas atitudes e hábitos precisam mudar, mas será que esta ação não poderá contribuir para que a sociedade acorde para o tipo de vida que estamos levando e comece a olhar para o mundo de uma forma diferente? Será que esta ação de fato não dará início a um incômodo maior, levando o povo a entender que os animais também tem vida e que precisam ser preservados contra a nossa ganância, arrogância e individualidade?

  6. Muito lúcido o texto. É uma pena que os defensores dos animais seja considerados, pela maioria, como extremistas. E é muito triste também assistir a indiferença da maioria e ainda pior a hipocrisia… Escutei outro dia: eu tinha uma galinha que era meu animal de estimação, me seguia para todos os lados como um cachorro, ela morreu de velha e eu não tive coragem de come-la. Mas essa mesma pessoa não se importa em comer outras galinhas, onde está a diferença entre elas?

  7. Concordo plenamente ainda que esta situação trouxe assuntos que quase ninguém nunca teve coragem de falar/criticar comentar ou se questionar.
    Necessitamos observar que salvar animais depende diretamente da nossa ética e moral com relação à vida (nossa e a de outros) e ainda, daquilo que nosso dinheiro financia.

  8. Sem duvida a ação do Royal suscita questões reflexivas, muito além dos 178 beagles. Desde os interesses economicos e politicos que o tema trouxe, mas tbem uma conscientização ainda que lenta, dos amplos direitos dos animais. Como sempre digo, nascemos numa cultura com regras fixadas mas nunca imutáveis. Caberá a todos, na continuidade desse trabalho, gerar duvidas, desestabilizar certezas e na consequencia, mudar hábitos e criar novos conceitos de consumo etico. Isso será um grande avanço de cidadania ; )

  9. Eu acho essa questão ética/moral x “o bem superior” interessantíssima e dificilmente eu ou a autora ou qualquer outro aqui está mais ou menos certo já que, ao meu ver, vários pontos diferentes parecem tão certos quanto outros. Não acho que todo o animal que é morto para beneficiar nós humanos sofreu dores e etc, mas foi de fato privado de viver mais um pouco, o que já é muito. Mas ao mesmo tempo nós, humanos, somos onívoros, ou seja, comemos tanto carne quanto vegetais e faz parte de nossa natureza, assim como um leão, carnívoro, ou uma vaca, herbívora, e acaba que de fato essa coisa do mais forte de fato acontece, tanto que nós, humanos, vivemos em grandes cidades, que antes eram florestas e que provavelmente tinha animais que foram expulsos por nós, ou seja, parece certo e errado ao mesmo tempo, pelo menos ao meu ver. Quanto ao “bem superior” que citei acima, se trata dos sacrifícios de animais em testes farmacêuticos, que realmente não é nada ideal, mas que as consequências são ótimas, tanto para nós, humanos, quanto para outros animais, principalmente os de estimação, já que medicamentos são os frutos dessas pesquisas e sacrifícios. Talvez até entraria uma questão ética ai, que seria: continuar a testar e matar animais para fazer medicamentos que podem vir a salvar varias vidas, humanas ou não, ou impedir o uso e, consequentemente, morte desses animais em testes, e talvez achar a tempo um método alternativo que de fato substitua os testes em animais, já que ainda não se tem um método alternativo que substitua por completo os testes em animais, antes que algumas vidas, de novo humanos ou não, sofram com a falta de medicamento devido ao fato que o uso de animais em testes foi interrompido?

    Não sei se me fiz entender, então me desculpem se o que escrevi está mal redigido.

    Ótimo artigo por sinal, levanta vários questionamentos e dilemas, e quebra tabus também.

  10. EXCELENTE MATÉRIA!PARABÉNS!!! Sim, é essa pergunta e questionamento que se encontra naqueles ainda não sensíveis aos animais não humanos, aqueles que ainda levam à sua boca pedaços de cadáveres desses inocentes sensitivos e comprovadamente conscientes que não falam por si. É extremamente necessário e urgente, ainda que tardio, a mudança de consciência ampla e geral, mundial, e para que isso aconteça e já está acontecendo temos que continuar a luta unindo-se uns aos outros para despertarmos a consciência e levar aos homens a mensagem que os animais são apenas de outra espécie, diferentes, e que na dor, sofrimento e morte somos todos iguais, portanto, todos temos direito á VIDA!

  11. “EXCELENTE MATÉRIA!PARABÉNS!!! Sim, é essa pergunta e questionamento que se encontra naqueles ainda não sensíveis aos animais não humanos, aqueles que ainda levam à sua boca pedaços de cadáveres desses inocentes sensitivos e comprovadamente conscientes que não falam por si, explorando-os barbaramente como objetos/produtos. É extremamente necessário e urgente, ainda que tardio, a mudança de consciência ampla e geral, mundial, e para que isso aconteça e já está acontecendo temos que continuar a luta unindo-se uns aos outros para despertarmos num todo, e assim podermos evoluir, sermos realmente a Sociedade do SEC XXI – 3º Milênio, levando aos homens a mensagem que os animais não humanos são apenas de outra espécie, diferentes, e que na dor, sofrimento e morte somos todos iguais, portanto, todos temos direito á VIDA!” Maria José Nia (Vegana e Ativista Voluntária e Independente pelos Direitos dos Animais)

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