Série "Santuários da Vida Silvestre e Selvagem"

Animais silvestres debilitados recebem mais uma chance em Assis (SP)

Por Fátima Chuecco (da Redação)

Foto: Reprodução
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As cidades engolem as florestas. As matas sofrem com queimadas. Há caçadores e traficantes de animais por toda parte. Está cada vez mais difícil a vida selvagem sobreviver até mesmo em reservas florestais. Numa tentativa de encontrar alimento e abrigo, alguns bichos adentram vilarejos e caem em novas armadilhas, são perseguidos e mortos. Estamos falando de macacos, grandes e pequenos felinos, cachorro-do-mato, aves e mais uma série de bichos que feridos, mutilados, doentes, explorados em circo ou nascidos e crescidos em cativeiro não podem mais retornar para seu habitat natural. E só lhes resta uma chance de viver em semiliberdade, com um pouco de tranquilidade e qualidade de vida: dentro de santuários – quase sempre mantidos com doações e passando por imensas dificuldades financeiras e de estrutura.

A série Santuários da Vila Silvestre e Selvagem vai falar desses locais onde cada dia é um milagre. Onde trabalham pessoas movidas por uma paixão imensurável por aqueles animais que não estão dentro de nossas casas, mas fazem parte do nosso ecossistema e precisam ser protegidos em caráter de urgência. Pessoas que não medem esforços e entregam suas vidas nessa missão difícil, mas “de honra”, em defesa da vida que brota e agoniza na fronteira com a selva de pedra.

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Episódio Um – Amigos da Onça

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Vitória, Vitorinha, Marie e Viny são quatro onças pardas que vivem na Associação Protetora de Animais Silvestres de Assis – APASS, no Interior de São Paulo. Com trágicos históricos, elas terão que passar a vida toda no santuário que abriga ainda mais 600 animais entre felinos, cachorros-do-mato, macacos e aves. Aliás, a APASS foi onde a macaquinha “Chico”, que recentemente gerou polêmica por ser devolvida à tutora, ficou hospedada por uns dias junto com outras de sua espécie.

Como são muitos os bichos entregues o ano todo, a entidade necessita urgente de novos recintos para os felinos e está lançando a campanha “Sou amigo da Onça” para angariar fundos que serão destinados à construção de ambientes maiores e mais apropriados para garantir melhor qualidade de vida aos animais. A “vedete” da campanha é a onça Vitória, de cativantes olhos azuis, capturada na cidade de Getulina quando filhote. Ela foi criada em cativeiro, ficou mansa e brincalhona como um gatinho. Sua ferocidade evaporou e seus melhores amigos são os cães do santuário.Vitória não tem condições de ser solta.

A campanha pede qualquer colaboração em dinheiro já que a APASS vive exclusivamente de doações de pessoas físicas e jurídicas. Os colaboradores recebem um adesivo da campanha e ajudam as onças a migrarem para locais mais condizentes com sua natureza já que para a as matas não voltarão mais. “Recebemos doações de pessoas físicas e jurídicas, mas que não são suficientes para a reforma. Para a comida temos um patrocinador. O problema maior é a construção de recintos, manutenção, gastos mensais e pagamento de funcionários”, explica Natália Tomaz de Godoy, fundadora da APASS junto com o marido e ex-bombeiro Aguinaldo Marinho de Godoy.

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“Dos animais recebidos conseguimos devolver à natureza 30%, sendo a grande maioria aves. Dos 600 animais sob nossa guarda, 40% estão sendo preparados para soltura. Quando recebemos animais adultos feridos a situação é mais fácil, pois leva em torno de 30 a 90 dias até que o animal se recupere e, a partir daí, providenciamos a soltura. Todavia os filhotes, mutilados e dependentes não conseguem mais retornar. Nos casos de filhotes é mais difícil ainda por criarem vínculos com os tratadores”, comenta Leonardo Rizzo Pipolo, biólogo voluntário da APASS.

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É o caso de Lola, uma fêmea de gato mourisco encontrada com queimaduras. Depois de recuperada, até foi solta por duas vezes, mas voltou para o santuário. A onça Vitorinha foi apreendida em uma casa onde era alimentada com ração de gato e tomava mamadeira. Lola, Vitorinha e Vitória (que aparece na foto da campanha Amigos da Onça) desenvolveram sinantropia ou dependência de seres humanos.

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Comoventes histórias de superação

Em outros casos, como o da onça macho Viny, a dependência se faz devido a longos tratamentos médicos. Sua história é um tanto inusitada, pois, foi sua própria mãe que o entregou aos humanos. Ela o carregava desfalecido na boca por uma estrada e chamou a atenção de um carro que parou para fotografar. Outros carros foram parando para dar chance da onça atravessar, no entanto, ela depositou o filhote no chão e voltou para a mata, da onde ficou assistindo toda a movimentação.

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O socorro foi chamado e constatou-se que o filhote estava numa crise de epilepsia. Foi tratado com gardenal durante vários meses e terminou apegando-se aos tratadores. Hoje já não usa mais medicamentos e vive sem sequelas, mas não pode ser devolvido à natureza porque não saberia se manter sozinho. A história de Marie é semelhante. Foi encontrada com apenas 10 dias de vida e também mostrou-se epilética, só que com crises ainda mais severas que as de Viny. Foi tratada dentro de casa por um longo período tal a gravidade de seu caso e criou laços com a filha de Natália. Marie se recuperou e hoje convive com as demais onças da APASS, mas não tem como sobreviver na mata.

Recentemente a ONG recebeu mais um filhote de onça parda, a Catarina. Ela foi vítima de uma agricultora que se assustou e feriu gravemente sua cauda com a mesma lâmina que cortava a cana. Teve que amputar o rabo. Jade e Michel são dois irmãos de gato mourisco vítimas de queimada. Jade perdeu as orelhas e Michel ficou sem orelhas, sem nariz e com a boca torta. O gato maracajá batizado de Bio foi atropelado, quebrou a bacia e perdeu mobilidade motora. Todos eles são alguns dos felinos da APASS que não poderão viver em liberdade novamente.

“Apesar de alguns animais não reunirem condições de sobrevivência em meio natural, em cativeiro procriam e essa também é uma das atividades da APASS: proporcionar a criação de alguns animais ameaçados de extinção para que, futuramente, não sejam extintos na nossa região. Felinos como a onça parda, o gato do mato pequeno, o gato maracajá, o gato mourisco e a jaguatirica, que se encontram na APASS, já fazem parte desse quadro preocupante de risco de extinção,” diz Aguinaldo Marinho de Godoy, presidente da ONG.

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Certificação e serviço de conscientização

A APASS foi criada em 1997 e em 2000 declarada de utilidade pública pelo município de Assis-SP. Desde então já recebeu aproximadamente 25 mil animais das mais variadas espécies. Atende Presidente Epitácio, Pontal do Paranapanema, Porto Primavera, Araçatuba, Birigui, Dracena, Tupã, Lins, Bauru, Getulina, Marilia, Pirajú, Avaré e Botucatu. É certificada no Cadastro de Entidades Ambientalistas do Estado de SP (com autorização de todos os órgãos competentes para reabilitação e manejo de animais selvagens) e cadastrada na ONU no CSONet (Civil Society Network) como Protection of wild animals, special those in risk of extintion, severed injured (Proteção a animais feridos e em risco de extinção).

Além do centro de reabilitação, desenvolve também o Projeto Semeador com aulas de educação ambiental em Assis e região, cidades do norte do Paraná, Bauru, Botucatu e Avaré. As palestras apresentam os trabalhos realizados até o momento e visam a conscientização ecológica, a proteção da fauna e flora, e o combate ao tráfico de animais silvestres. São ministradas para crianças e adultos nas escolas públicas, privadas e técnicas, faculdades, instituições e empresas dos mais variados seguimentos. Contato Facebook/apasspan – e-mail: apass_ong@yahoo.com.br

Foto: Divulgação
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