Macaca Chico e a Resolução Conama


Por Fátima Chuecco (da Redação)

Quem não se lembra do Chico (na verdade uma fêmea), que gerou uma superpolêmica e acabou sendo devolvido para a tutora? Pois a macaquinha está na capa da revista Terra da Gente deste mês numa excelente foto que retrata exatamente como foi mantida por 37 anos – presa a uma corrente de um metro e meio que não era tirada nem mesmo na hora do banho (conforme pôde ser visto em uma matéria na TV Record).

(Foto: Revista Terra da Gente)
(Foto: Revista Terra da Gente)

Sensacional a revista escolher esse tema como tema principal falando também de outros casos em que animais silvestres são criados como domésticos, quase sempre, com graves consequências para a saúde física e emocional deles. Assinada por Dimas Marques, a matéria levanta a postura do Ibama e do Conama (o que dizem as leis), e também ouve pessoas contrárias à manutenção de bichos como Chico em santuários depois de muitos anos convivendo com humanos. A alegação desse último grupo é que a separação pode ser traumática para o bicho e tutor.

Mas no caso de Chico foi muito fácil verificar sua felicidade ao interagir, pela primeira vez na vida, com outros macaquinhos de sua espécie. A adaptação foi rápida e Chico logo começou a trocar carinho com seus colegas de viveiro. Também passou a receber uma alimentação adequada com frutas e o melhor de tudo: se livrou das grossas correntes. Mas a tutora de Chico, aos 71 anos e alegando estar adoecendo com a falta daquele que ela chama de “filho” (apesar de mantê-lo noite e dia acorrentado) comoveu parte de imprensa, da sociedade e o juiz. Assim, a alegria do animal foi interrompida e hoje ele está de volta à antiga casa onde um viveiro está sendo construído para ele.

Sua vida já está no fim, pois, macacos como Chico vivem em média 30 e poucos anos. Por isso, talvez uma prova de amor de sua tutora fosse deixá-la conviver com outros macaquinhos nesse tempo que lhe resta. O que prevaleceu no final dessa história, no entanto, foi o atendimento de um desejo humano em detrimento das necessidades físicas e emocionais do animal. Se a macaquinha se mostrasse deprimida poderíamos concluir que a devolução à tutora seria o mais certo a fazer. Mas sua alegria em um ambiente com outros bichos de sua espécie provou que ela estava se sentindo muito bem. Depois de 37 anos em corrente merecia aquele prêmio. Mas o bilhete da loteria de Chico foi picado. E ele se viu forçado a voltar para o passado.

(Foto: Revista Terra da Gente)
(Foto: Revista Terra da Gente)

Lei pode favorecer tráfico de animais

A história de Chico chama atenção para uma problemática bastante séria. Em dezembro entra em vigor a Resolução 457 aprovada pelo Conama em maio deste ano. Por meio dela, as pessoas terão direito de ficar como fiéis depositárias de até dez animais silvestres se estes fizerem parte de uma lista de espécies criadas para venda como bichos domésticos (Lista Pet do Ibama em processo de elaboração).

O perigo é esse:  incentivar o tráfico já que as pessoas poderão se sentir mais à vontade de adotar os animais privados de seu habitat natural,  sabendo que, se forem denunciadas, podem sem muito custo conseguir o direito de continuar com eles – como foi o caso de Chico e de tantos outros. Além disso, a Resolução fere o artigo 4º da Declaração Universal dos Direitos dos Animais da Unesco: “Cada animal pertencente a uma espécie selvagem tem o direito de viver livre no seu ambiente natural terrestre, aéreo ou aquático e tem o direito de reproduzir-se”.

O editor da revista Terra da Gente, Valdemar Sibinelli, acentua: “Não há lei que acabe com o costume antigo e arraigado do brasileiro de adotar animais silvestres. Com um pouco mais de conscientização, entenderemos que nem os domesticados gato e cachorro devem substituir um humano para preencher as nossas carências afetivas. Muito menos os Chicos, os Lourinhos e outros silvestres. Lugar de bicho do mato é no mato”.


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