E quem é o outro - Juliano Zabka

Pernas, pernil e o prazer

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Na noite do dia 16 de agosto de 2013, editei e compartilhei no meu perfil do Facebook a imagem acima. Ainda que explicativa por si só, trata-se de pernas e nossas diferentes visões do mesmo tipo de membro, variando a espécie do animal dotado do membro e a finalidade empregada. Junto da imagem, escrevi o seguinte trecho: “Comparar para apelar ao nojo não é o foco. Até porque respeitamos interesses alheios por reconhecer a relevância e a existência de tais interesses nos outros, e não porque desrespeitar tais interesses seria nojento. A questão é: seríamos o tipo de gente que, ao colocar o egoísmo acima de tudo, precisa ser forçada a não desrespeitar interesses relevantes, independente de quem é o portador de tais interesses?”

Não pretendo desenvolver agora a grande quantidade de questões implicadas nesse tipo de abordagem com “imagens fortes”. Nem tenho conhecimento para isso. Também, não vou detalhar outras intenções embutidas no trecho acima em questão. Ainda assim, como pista para o que chamei de “outras intenções do trecho acima”, serei mais um [1] a sugerir esse texto [2] (em inglês) como capaz de revelar algumas dessas intenções e a importância disso dentro do movimento anti-especista.

Vou procurar tratar de duas repercussões que surgiram em comentários na própria postagem, apesar da natureza duvidosa de tais comentários.

Num dos comentários, foi levantada a possibilidade de as pernas humanas ficarem deliciosas se marinadas e defumadas. Num nível descritivo, acho que teríamos razões para acreditar que ficariam saborosas para quem sente prazer gustativo com carnes marinadas e defumadas. Talvez com algumas nuances diferentes, que poderiam ser corrigidas com temperos específicos e outras adaptações na forma de preparo. Nada longe do alcance de algum bom cozinheiro.

A grande questão aqui seria romper o tabu de apreciar cortes e preparados tradicionais com o diferencial de serem provenientes de humanos. E de como fazer isso de forma ética, já que não desejamos para nós o inferno que impomos aos outros animais, desde o nascimento deles até o momento da degola. Sabemos que com os outros animais não existe ética alguma, mas abusos e perversidades de todos os tipos.

Mas vamos entrar na brincadeira e supor que fosse diferente no caso de humanos, como sugerido no comentário (digo brincadeira porque não estou defendendo o consumo de carne humana, mas realizando um exercício hipotético e questionando se seria mesmo um absurdo esse consumo).

Vamos supor que numa sociedade onde esse tabu de comer carne humana já estivesse sido ultrapassado (que fosse padrão comer carne humana; que fosse um valor, cultura e tradição fazer isso e que fosse seguro o consumo) e que cada cidadão fosse livre não apenas para se declarar como doador de órgãos para fins de salvação na medicina (modelo que temos hoje), mas também para se declarar como doador de carne para fins comestíveis.

Em algumas estimativas [3], só nos casos de acidentes de trânsito no ano de 2010 teríamos um potencial de cerca de 2.842.700 quilos de carne humana geradas só nesse tipo de sinistro (considerando a estimativa de 40.610 mortes naquele ano; e supondo que cada indivíduo pesasse cerca de 70 quilos e que todos fossem doadores de carne e membros para fins gastronômicos diversos; e imaginando que a carne pudesse ser em tempo desossada e acondicionada de forma higiênica e segura, coisa que parece difícil nos casos de acidentes de trânsito, mas não para casos de óbitos em lugares controlados como hospitais – que provavelmente são mais exigidos e inspecionados que os frigoríficos de onde outras mortes são encomendadas em rotativa infindável).

Entretanto, aqui poderia se encaixar um argumento da ladeira escorregadia, supondo que evoluíssemos para esse modelo de sociedade onde comer mais esse tipo de carne (carne humana) fosse amplamente aceitável dentro dos limites éticos acima sugeridos: vai que grupos criminosos resolvessem fazer com vulneráveis humanos o mesmo que já fazemos com os vulneráveis animais em nome do lucro ou para satisfazer desejos banais e passageiros como os do paladar? Vai que a corrupção generalizada e o assassinato de inocentes com fins lucrativos e egocêntricos se instalasse dentro da comunidade humana num nível culinário, aos moldes que fazemos com os animais?

Talvez esse argumento da ladeira escorregadia seja importante para não fomentarmos esse tipo de quebra de tabu. Não suportamos imaginar em nós o mesmo desespero imputado ao animal que é forçado a percorrer o caminho de sua gaiola/prisão ao matadouro grotesco. De todo modo, esse argumento de ladeira escorregadia é plenamente enquadrado também na questão da doação de órgãos. Deveríamos incentivar o fim das doações de órgãos para que crimes contra inocentes não ocorram ou devemos aumentar a educação e vigilância sobre o respeito e consideração de interesses semelhantes?

Já no outro comentário, através do sentido e do vocabulário usado, percebi uma mistura de reacionarismo com o incômodo de um reacionário ter que notar intuitivamente que a comparação entre pernas de espécies diversas é válida. Pelo desconforto de notar essa validade na comparação, e pela carência e falência dos argumentos que pensava ter (o que pensava ter como argumento não passava de irracionalidade e preconceito), a saída desse foi apelar ao ad hominem [1]. No entanto, esse ataque pessoal não foi de todo vazio. Por acidente, trouxe uma questão intrigante e, muitas vezes, desagradável se assumida da forma errada.

No ataque, entendi que foi dito que as pessoas que propagam essas imagens chocantes para alcançar e influenciar outras pessoas que não tem a mesma percepção dos propagadores no fundo sentiriam muito prazer em fazer uso de tais imagens. Seriam dependentes de tais imagens tão horríveis em busca do prazer. Creio que, por acaso, acabou apontando uma questão profunda e tão inevitável quanto certeira, ainda que de forma atrapalhada. Mais uma vez, preciso deixar claro que estou estabelecendo uma conversa interna e com o leitor (que pode se manifestar nos comentários aqui da página), pois não tenho as qualidades plenas para tratar esse tema que é multidisciplinar e bem enraizado em outros. E, no momento que escrevo, não estou puxando muitas referências externas.

Mas antes de seguir, é importante salientar que esse tipo de reacionarismo em ver uma perna humana esfolada ao lado de uma perna animal esfolada se dá pela conjugação de diversos fatores. São confusões diversas somadas ao preconceito baseado em critérios irrelevantes para se avaliar o que está em jogo. Nesse caso, o que está em jogo é a capacidade de um ser poder ser beneficiado ou prejudicado. O que está em jogo é ser portador dessa capacidade, independente da espécie animal que o portador dessas capacidades pertença.

Normalmente, quando alguém se ofende com tais comparações é porque supõe que os seres humanos são seres superiores e que os demais animais são tão insignificantes que não merecem qualquer consideração em comparação com as considerações que exigimos para nós. A má noticia para quem pensa assim é que está enganado e está dando continuidade à um preconceito tão irracional e perverso (o preconceito do especismo) quanto aqueles que dão seguimento aos preconceitos semelhantes com gays, nordestinos, negros, judeus, mulheres etc. Estão imersos numa irracionalidade e confusão gigantesca. Não vou me prolongar aqui, e recomendo a leitura do texto [4] “Porque temos o dever de dar igual consideração aos animais não-humanos e as implicações práticas desse dever” para mais esclarecimentos sobre isso.

Retornando, quando foi dito de forma pejorativa que no fundo sentiríamos muito prazer em fazer uso de imagens com sofrimento exposto e que seríamos dependentes de tais imagens tão horríveis em busca do prazer, isso, acidentalmente, não foi de todo errado, mas ainda assim bem equivocado.

Penso que esse assunto está relacionado com as contradições internas do conceito de altruísmo, com conteúdos por trás de frases como “fazer o bem faz bem”, pela dependência dos opostos na configuração de uma identidade (bem x mal; claro x escuro etc), no tema da comiseração/autocomiseração (sentir dó, piedade, pena de outros ou de si mesmo) entre outros.

Tenho a impressão que, assim como no caso da vaidade [5], certas características nossas são praticamente inescapáveis (alguns autores defendem que tudo é vaidade e uma questão seria de como canalizar essa vaidade para gerar boas consequências também para outros). Buscamos sempre o prazer, e essa busca pode se manifestar das maneiras mais aparentemente contraditórias (como no caso do masoquismo).

Muitas vezes, desde que não sejamos nós as vítimas afetadas diretamente, algumas pessoas sentem um certo tipo prazer em sentir pena (comiseração) de alguém em situação angustiante. Ao mesmo tempo que reconhecemos a desgraça alheia, por meio de uma empatia enviesada, sentimos uma forma de alívio de não sermos nós em tal situação ruim ao mesmo tempo que desejamos que quem está na pior situação possa superar isso. O mais estranho é que, para muitos de nós, assistir de camarote um evento negativo (ainda que assistindo com boas intenções) pode acabar sendo algo prazeroso por despertar um sentimento de piedade, de sentir que se é alguém do tipo que gostaria que aquilo de ruim terminasse. É a inevitabilidade do contraste.

Numa sociedade do espetáculo, não é por acaso que no cinema as tramas de romance mal vividos causam tanta emoção, que os filmes apocalípticos são extremamente desejados, que os noticiários com tragédias tem os mais altos picos de audiência, que relembrar desamores são mais performáticos na frente de um espelho onde se pode ver o próprio choro, que ajudar ou salvar alguém de situação catastrófica mobiliza multidões e exemplos não faltam. Parece ser a paradoxal condição humana.

Entretanto, fazemos uso de imagens retratando situações extremamente negativas em campanhas contra os malefícios do cigarro, nos casos de acidentes de trânsito, nos abusos e agressões contra crianças e mulheres e também para denunciar os maus-tratos contra alguns animais (normalmente cães e gatos) que são tão iguais quanto os outros que estão agora na linha de desmontagem tendo suas patas amputadas antes do couro ser puxado por uma máquina ou antes de virar a picanha ou qualquer outro nome comestível.

Seriam todos esses outros também escravos do prazer em compartilhar tanta coisa negativa ou teriam alguma razão mais louvável em fazer uso de tais métodos em suas campanhas e objetivos? Ou esse fardo pesado  de ser “escravo do prazer em compartilhar coisa negativa” é restrito apenas àqueles que estão a denunciar os crimes, ainda enormemente invisíveis, que são cometidos contra os animais tais como aquele da perna temperada na foto lá no topo?

Mas temos de lembrar que o depoimento reacionário não foi de todo errado (como vimos acima), mas ainda assim bem equivocado. E qual a razão para afirmar que o depoimento que julguei como reacionário foi bem equivocado? A razão é que existe um grande abismo entre sentir prazer e se sentir dignificado por querer o bem e lutar por isso, ainda que isto dependa do inevitável contraste entre “bem e mal”, e que dependa de presenciar o mal e expor isso tal como ocorre na realidade, em contraste com sentir prazer em querer o que é ruim (o pior) para quem sofre, por simples egoísmo e descaso pelo outro, algo muito próximo da sociopatia ou psicopatia.

Para deixar isso bem claro, sugiro o seguinte experimento mental:

Uma vaca está prestes a ser assassinada. No local do crime, temos três tipos de pessoas (poderiam ter outros tipos, mas vou indicar apenas esses três). (1) os que estão a salivar, ansiosos que a vaca seja logo assassinada, desmembrada e assada para que possam sentir o prazer de comê-la, independente das alternativas existentes de alimentação e cientes do mal que isso significa para a vaca e ignorando isso por puro egoísmo; (2) outros que por clara ignorância inocente e repetição cega de costumes aguardam o mesmo destino da vaca (alguns até com desconforto pelo fato de a vaca ser assassinada, mas mesmo assim muito dependentes do paladar); e (3) aqueles que estão em agonia, querendo salvar a vaca, talvez sentindo um tipo de prazer em poder fazer isso por saber que os interesses da vaca são tão relevantes quantos os seus próprios interesses em não ter sua vida abreviada nem de serem submetidos ao sofrimento de ter seu corpo cortado por lâminas afiadas. Talvez o tipo (3) não venha a ter sucesso dessa vez, mas eles farão registros fotográficos da cena hedionda, e sentirão um tipo de prazer (possivelmente um tipo de prazer derivado de um dever moral ou missão) em saber que poderão mudar a forma de outras pessoas pensarem sobre a inocência e vulnerabilidade alheia mostrando isso publicamente. Poderão, quem sabe, mudar o destino de outros inocentes expondo o crime através das imagens captadas, textos educativos e com o uso de outras táticas. Os do primeiro grupo (os egoístas) vão acusá-los de sádicos por fazerem uso de imagens terríveis e darem sentido às suas vidas por meio desses recursos controversos. Mas quem seriam os sádicos de verdade?

* Agradeço à Adelina Maria Schu Zabka e ao Emanuel Zabka pelas críticas e sugestões.

Referências:

[1] https://www.anda.jor.br/10/12/2012/o-uso-de-estrategias-ad-hominem-para-continuar-a-se-desrespeitar-os-animais-nao-humanos

[2] http://fortheabolitionofveganism.blogspot.ch/

[3] http://www.dpvatsegurodotransito.com.br/noticia2.aspx

[4] http://www.olharanimal.net/olharanimal/luciano-cunha/1603-porque-temos-o-dever-de-dar-igual-consideracao-aos-animais-nao-humanos-e-as-implicacoes-praticas-desse-dever

[5] Gikovate, Flávio. A liberdade possível. São Paulo: MG Editores Associados, 2006.

1 COMENTÁRIO

  1. No seu texto recomendado você dá a entender que é errado comer animais sendo possível viver sem comê-los, o que torna a onivoria em geral um espécie de crime moral. Pois bem, o caso é que há inúmeros animais onívoros, mas eles não tem capacidade de escolher entre “praticar assassinato” ou fazer um rango vegano, e com essa desculpa, estariam perdoados. No entanto, um vegano não pensaria duas vezes em apontar um pai que deixasse seu filho pescar um peixe como errado, pois ele estaria deixando que seu filho cometesse um crime moral. Sendo assim, os veganos também evitariam a morte de uma lagartixa na boca de seus cães, e assim seria de pensar que todo animal onívoro deveria receber ração vegana, (e talvez os carnívoros idem, com suplementos sintéticos), do mesmo modo que toda criança deveria comer comida vegetal, como todo adulto. No fim, parece que é uma obrigação do homem vegano fazer com que mesmo a menor das criaturas do mar torne-se vegana, para que não seja preciso mais nenhuma interrupção de direitos e interesses.

    Enfim, o raciocínio é absurdo e não fecha. E onde está o erro? Na palavra assassinar. Assassinar é diferente de matar. Quando um cachorro mastiga uma lagartixa viva ele não a está assassinando, tal qual quando um pescador pesca um peixe. Dessa maneira, também é possível matar um homem sem assassiná-lo. Mas esta minúcia eu não esmiuçar aqui. Escrevo só para deixar registrado, quem sabe para algum futuro artigo teu Juliano, já que gostas tanto de escrever.

    • Em primeiro lugar parabéns ao Juliano pelo texto!

      Respondendo à Leigh:

      Olá, Leigh!

      O Juliano já tem um texto sobre esse tópico publicado aqui mesmo na ANDA: http://www.anda.jor.br/o-inferno

      Eu também tenho um artigo sobre esse tema. Se quiser ver, encontra aqui: http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7399/1/101-133.pdf

      Recentemente saiu uma edição especial sobre esse tema, com vários artigos de vários autores. Pode ser baixada aqui: http://www.anda.jor.br/19/07/2013/edicao-especial-sobre-o-sofrimento-na-natureza

      Acho que você vai se surpreender, porque vamos defender que temos, sim, de nos preocupar com os danos que os animais sofrem que não são produto de ações humanas (não só predação, mas principalmente morte por inanição e parasitismo, que são a maior causa de morte de animais, mesmo comparando com todos os usos que os humanos fazem).

      Eu não sei bem qual a diferença que você dá em relação a matar e assassinar (embora eu imagine que vocês esteja a se basear nas intenções ou necessidade de quem mata), então não vou comentar o seu argumento. Vou falar apenas de uma distinção que precisa ser feita, pois geralmente é cometida uma confusão nas críticas à preocupação com o sofrimento na natureza. Uma coisa é dizer que os animais que causam dano aos outros, ou as doenças, ou os processos naturais, não podem ser culpados porque não tem capacidade para escolher de outra maneira (não são agentes morais). Isso todo mundo concorda. Outra coisa, é dizer que, por causa disso, então o dano causado por eles não tem valor negativo (não é uma coisa ruim) porque é produto de agentes amorais. É aí que está o engano. Danos tem sempre valor negativo para suas vítimas, independentemente de onde venham. E, como ninguém está obrigando os próprios animais, as doenças, os parasitas, a socorrerem suas vítimas e sim, os agentes morais que poderiam fazer algo para diminuir esse dano (como já se faz vacinando os animais silvestres contra raiva, por exemplo), então a objeção não se sustenta. Uma coisa é saber se um agente deve ser responsabilizado. Outra coisa é saber se quem tem condições de ser responsabilizado deve prevenir os danos causados por quem não tem condições de ser responsabilizado. Como você mesmo aponta no caso do dano causado por agentes amorais humanos (crianças, por exemplo), acho que a resposta é sim, e isso mostra que devemos levar a sério os danos que os animais sofrem de causas naturais.

      Um abraço!

      • Luciano, acredito que diante de um sofrimento animal desnecessário que obviamente podemos interromper, ficar parado é patológico. Partindo desse ponto comum e de bom senso, qual seria a ação ideal de uma pessoa que pensa como você diante da predação que acontece naturalmente no mundo selvagem?

  2. Pessoal, obrigado pelo interesse, por se disporem a ler o texto e pelos comentários.

    Paula, agradeço se puder apontar onde percebe a falta de nexo e onde e quais falácias que notou. Daí, assim, poderei concordar ou não contigo e explicar minha posição sobre o que entendeu x o que eu pretendi dizer.

    marcos felipe e Karyni, grato pelas palavras. Entre tantas coisas, quis cutucar alguns assuntos que não domino, mas que, em virtude de certas referências que tenho e que dou importância, julgo pertinentes.

    Leigh Dada, obrigado pelo teu comentário que trouxe uma grande quantidade de assuntos embutidos. Muito bom poder falar brevemente sobre esses assuntos aqui também. Vou apontar ligeiramente (ou tentar fazer isso de forma breve) algumas questões. Não vou tocar na palavra “vegano”, pois talvez o veganismo não alcance certos desdobramentos que envolvem o pensamento anti-especista duma forma mais abrangente e impraticável nos dias de hoje:

    Eu penso que talvez não seja “errado”, como você disse que eu dei a entender, comer animais. Eu digo que sou contra a exploração e assassinato de vulneráveis (e aqui poderia detalhar melhor mas não vou agora). Realmente acredito que hoje/agora em boa parte do planeta nós podemos viver sem comer os animais e, de certo modo, somos a prova disso pelo mundo todo. Retornando sobre ser errado ou não comer animais, vamos supor que um animal que viveu uma boa vida com os cuidados e garantias que mereça. Esse animal teve o destino de morrer do coração, por exemplo, e alguém resolve comê-lo após a morte, sem tabus. Eu não percebo isso como algo errado, pois não representa qualquer dano ao animal (não estou aqui considerando qualquer danos indiretos). Talvez seria problemático por outro sentido possível em consequência disso (ladeira escorregadia), como o caso de assim se criar o gosto e hábito de se comer animais e daí descambar para a exploração e assassinato.

    Também, quando fala de onivoria e “crime moral”, precisamos desembaralhar isso. Temos que separar aqueles (agentes morais) que podem ser responsabilizados por uma decisão (seja a decisão uma ação ou omissão) e que além de um “crime moral” também e principalmente estarão causando um dano irreparável à vítima, daqueles que podem ser considerados moralmente, independente da fonte/origem do dano (nós e os animais) – independente se a origem do dano é um agente moral (eu, tu), um agente não moral (o cachorro) ou uma força da natureza (raio, enchente, incêndio etc).

    Então, podemos notar que embora o cão não possa ser responsabilizado moralmente por comer a lagartixa (ou como você diz: ele não assassinou, mas matou) isso não torna o ato neutro, pois a lagartixa foi danada, e para ela não faz diferença se foi “morta” ou “assassinada”. É ruim, é um dano igual.

    Para uma criança, considerando o fato do sofrimento e de sua vida abreviada, não faz diferença se foi atingida por um tiro a queima roupa por parte de alguém capaz de discernimento ou se foi engolida por uma sucuri (talvez sofra mais pelo terror desse dano natural de ser engolida por uma sucuri).

    Também, embora na crença do pescador o ato dele seja algo meramente costumeiro e inocente, isso não torna o ato do pescador neutro, pois o peixe foi danado. Para o peixe, não importa a fonte do dano ou se podemos ou não responsabilizar o agente moralmente. O que importa é ser o tipo de ser que pode ser prejudicado ou beneficiado.

    Então, temos que separar “aqueles (agentes morais) que podem ser responsabilizados por uma decisão (seja a decisão uma ação ou omissão) e que além de um “crime moral” também e principalmente estarão causando um dano irreparável à vítima, daqueles que podem ser considerados moralmente, independente da fonte/origem do dano (nós e os animais) – independente se a origem do dano é um agente moral (eu, tu), um agente não moral (o cachorro) ou uma força da natureza (raio, enchente, incêndio etc)”.

    Por fim, ainda que você traga isso durante todo o comentário, no final do comentário toca mais diretamente na temática dos “Danos Naturais”, já bem desenvolvida teoricamente e que o colunista Luciano Carlos Cunha, aqui da ANDA, tem um papel fundamental, para além de outros que ele é protagonista (boa parte da minha argumentação aqui tem a influência das leituras que faço dele e de outros autores). Quando diz que seria uma obrigação do homem vegano tornar vegana até mesmo a menor criatura do mar, creio que seria mais apropriado nos questionarmos até que ponto seres semelhantes deveriam ou mereceriam ser considerados igualmente, considerando as semelhanças e as diferenças. Num nível prático, isso é impossível, como citou. Não temos como fazer isso hoje. Mas da impossibilidade prática não podemos derivar para não notarmos o problema moral. Existe um problema moral, uma vez que nossas decisões tem peso não somente pela ação, mas também pela omissão.

    Se for do teu interesse, coloque na lista de leitura as referências abaixo que contemplam a tua intervenção:

    Edição especial sobre o sofrimento na natureza (Luciano Carlos Cunha)
    http://www.anda.jor.br/19/07/2013/edicao-especial-sobre-o-sofrimento-na-natureza

    O inferno (Juliano Zabka)
    http://www.anda.jor.br/26/04/2013/o-inferno

    El sufrimiento de los animales en la naturaleza: número especial de la revista Ágora, en la calle:http://masalladelaespecie.wordpress.com/2013/05/30/el-sufrimiento-de-los-animales-en-la-naturaleza-numero-especial-de-la-revista-agora-en-la-calle/
    01. INTRODUCCIÓN (Oscar Horta – Universidade de Santiago de Compostela):
    http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7390/1/9-14.pdf
    02. GOD, ANIMALS AND ZOMBIES (Joseph J. Lynch – California Polytechnic State University):
    http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7391/1/15-27.pdf
    03. SOBRE O BEM DE TUDO E DE TODOS: A CONJUNÇÃO IMPOSSÍVEL ENTRE
    AMBIENTALISMO E LIBERTAÇÃO ANIMAL (Cátia Faria – Univesitat Pompeu Fabra):
    http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7392/1/29-43.pdf
    04. EL SUFRIMIENTO ANIMAL Y LA EXTINCIÓN (Angel Longueira Monelos – Universidad de Santiago de Compostela):
    http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7394/1/45-58.pdf
    05. LA CUESTIÓN DEL MAL NATURAL: BASES EVOLUTIVAS DE LA PREVALENCIA DEL DESVALOR (Oscar Horta –
    Universidade de Santiago de Compostela):
    http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7395/1/59-77.pdf
    06. DE LOBOS Y OVEJAS. ¿LES DEBEMOS ALGO A LOS ANIMALES SALVAJES? (Mikel Torres Aldave – Universidad del
    País Vasco / Euskal Herriko Unibertsitatea):
    http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7397/3/79-100.pdf
    07. O PRINCÍPIO DA BENEFICÊNCIA E OS ANIMAIS NÃO-HUMANOS: UMA DISCUSSÃO SOBRE O PROBLEMA DA
    PREDAÇÃO E OUTROS DANOS NATURAIS (Luciano Carlos Cunha – Universidade Federal de Santa Catarina):
    http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7399/1/101-133.pdf
    08. EL ARGUMENTO DE LA DEPREDACIÓN (Charles K. Fink – University of Miami – Dade):
    http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7400/1/137-148.pdf
    09. The Predation Argument (Charles K. Fink – Miami-Dade College):
    http://digitalcommons.calpoly.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1041&context=bts
    10. SOBRE DANOS NATURAIS (Luciano Carlos Cunha):
    http://masalladelaespecie.files.wordpress.com/2011/01/luciano-carlos-cunha-sobre-danos-naturais.pdf
    11. Reprogramar os Predadores (David Pearce):
    http://www.abolitionist.com/reprogramming/portugues/index.html
    12. Disvalue in nature and intervention (Oscar Horta – University of Santiago de Compostela):
    http://masalladelaespecie.files.wordpress.com/2011/09/disvaluenatureintervention.pdf
    13. Alan Dawrst (Devemos intervir na predação?):
    http://pensata.olharanimal.net/painel/138-devemos-intervir-na-predacao/328-alan-dawrst
    14. David Pearce (Devemos intervir na predação?):
    http://pensata.olharanimal.net/painel/138-devemos-intervir-na-predacao/336-david-pearce
    15. Porque eu não sou ecologista (David Olivier):
    http://www.cahiers-antispecistes.org/spip.php?article300
    16. Contra o apartheid das espécies: Sobre a predação e a oposição entre ecologia e liberação animal (Yves Bonnardel):
    http://www.cahiers-antispecistes.org/spip.php?article293
    17. A predação, símbolo da Natureza (Yves Bonnardel):
    http://www.cahiers-antispecistes.org/spip.php?article298
    18. A natureza não escolhe (David Olivier):
    http://www.cahiers-antispecistes.org/spip.php?article388
    19. Quem vai ao vento não perde o assento (Yves Bonnardel):
    http://www.cahiers-antispecistes.org/spip.php?article299
    20. Para acabar com a idéia de Natureza, e reatarmos com a ética e a política (Yves Bonnardel):
    http://tahin-party.org/acabar-ideia-natureza.html
    21. O que é o especismo? (David Olivier):
    http://www.cahiers-antispecistes.org/spip.php?article295

    • Juliano,

      a questão se estende porque não há distinção da parte dos colegas do que é moral e do que não é. Quando falamos em moralidade, estamos falando de certo ou errado, bem ou mal.

      É simples. Mal não é sinônimo de sofrimento. Quando um cão mata um peixe, isso não é assassinato, nem mal. Ocorreu ali um sofrimento no ser vivo peixe, mas não foi instilado nenhum mal, assim como dar um peixe morto para o cachorro comer não é nenhum bem, se ele não estiver passando fome.

      Todos os dias, a todo segundo, milhares de peixes devoram e são devorados, e nenhum mal e nenhum bem é praticado decorrente desse ciclo. E nenhum homem tem a responsabilidade, como ser moral, de interromper esse ciclo de sofrimento, assim como nenhum homem tem o direito de interrompê-lo, ainda que tivesse meios de intervir. (Isso sem falar do ciclo propriamente humano de sofrimento, que é ainda maior, dada a complexidade da mente humana e sua capacidade de experienciar o sofrimento em suas mais variadas miríades.)

      Uma chinesa se corta com um alicate ao fazer as unhas. Nenhum ser humano tem o dever de aplacar seu sofrimento. É muito de bom grado e bom tom que as pessoas que possam vir a entrar em contato com essa dor tenham a disponibilidade de aplacá-la, mas todos os demais seres humanos que não tomam contato com essa dor não podem ser acusados de omissos.

      Parece-me que o texto O Inferno, de sua autoria, recomendado em link acima nos diz de onde começou todo o problema. Uma cobra, quase que com total certeza, mantida em cativeiro, busca se alimentar de um roedor branco, provável fruto de criação de cobaias, quando seu provável companheiro de jaula, talvez até mesmo seu par, “luta”, até onde podemos observar, para livrar o outro roedor da predação da cobra. Os seres humanos estão do lado de fora desse espetáculo particular e os observadores criadores de animais não veem problema algum, enquanto defensores de animais se reviram frente à cena. Nenhum sofrimento animal desnecessário deveria ocorrer, mas como a cobra precisa de alimento, pois foi retirada da sua condição normal de se suprir, o dilema se instala. Temos compromisso com todas as vidas animais, então o que podemos fazer? Deixar a cobra morrer? Deixar os ratos morrerem? Introduzi-la de volta à natureza e deixar com que a cena aconteça sozinha, sem nossos olhos para ver e lamentar?

      É um dilema causado por conceitos errados, e não porque haja realmente alguma coisa errada.

      • Olá, Leigh Dada

        Colo aqui a mesma resposta que dei ao seu comentário no texto “O Inferno”, já que o argumento que você endereça aqui é o mesmo: a idéia de que, para algo ser um mal, tem de ser causado por um agente moral.

        Esse argumento parte da premissa de que o domínio axiológico (bem/mal, melhor/pior) depende do domínio moral. Não é verdade. O oposto é verdade: nossas decisões morais é que dependem de nossas avaliações axiológicas.

        Não há nenhuma confusão por parte do Juliano em classificar como mal o sofrimento, independentemente de este ter sido causado por um agente moral ou por um processo natural.

        Você que está a confundir o domínio axiológico (avaliação sobre bom/ruim, melhor/pior) com o domínio normativo (das razões para agir). Estás a assumir que, para um estado de coisas ter valor negativo, ele precisa ter origem nas decisões de agentes morais. Mas, isso não é verdade. Do fato de um estado de coisas não ter origem nas ações de um agente moral isso não diz nada sobre o seu conteúdo de valor (se é bom ou ruim, melhor ou pior).

        O sofrimento continua a ser uma experiência negativa (e, portanto, gera razões para ser aliviado) independentemente de a origem do sofrimento ser as ações de um agente moral ou processos naturais. O mesmo vale para a morte: nos casos onde ela é um mal, o é independentemente de que fator a causa. Nos casos onde é um bem, também.

        Não há nada de absurdo nisso. Todo mundo pensa assim o tempo todo. Ninguém diz, por exemplo, “que absurdo dizer que o câncer é um mal, já que não foi causado por agentes morais”. Absurdo é pensar que o câncer não é um mal só porque não teve origem nas ações de agentes morais. O câncer (e qualquer outra coisa que seja um mal) continua a ser um mal (e um mal grave), independentemente de qual a sua origem. Não faz o menor sentido dizer que a pessoa que contraiu câncer não está mal só porque o câncer não foi tem origem nas ações de agentes morais.

        O que me parece ser “indefensável do ponto de vista intelectual”, para usar suas palavras, é a tese de que o sofrimento não é um mal se não for causado por um agente moral. Quer dizer então que não faz o menor sentido dizer que o homem elefante estava numa situação ruim, que padecia de um mal, já que a neurofibromatose é fruto de um processo natural? Isso sim me parece totalmente absurdo.

        Eis porque é absurdo: se os males só se tornassem males quando fossem causados por nossas ações, ficaria muito difícil distinguir quais de nossas ações causam males e quais causam um bem. No dia-a-dia, orientamos nossas decisões práticas de acordo com saber se elas causam mal ou bem. Mas, se é assim, então obviamente as propriedades valorativas dos estados de coisas (se são bons ou ruins, melhores ou piores) não dependem de nossas ações. Aliás, é o contrário: nossas razões para agir é que dependem da avaliação sobre o valor dos estados de coisas. Consideramos errado causar sofrimento porque já sabemos de antemão que o sofrimento é um mal, e é um mal por ser o tipo de experiência que é, independentemente de o causarmos ou não.

        A mesma coisa vale para o assassinato. Só é possível classificar o assassinato como moralmente errado porque há situações onde a morte é um mal para a vítima. A avaliação axiológica é anterior à avaliação moral. A avaliação moral é que depende, ou totalmente (nas visões consequencialistas), ou em parte (nas visões deontológicas ou de virtudes) da avaliação axiológica. Mas, a avaliação axiológica (bom/ruim, melhor/pior) não depende da avaliação moral. Faz todo sentido avaliar se um estado de coisas é bom/ruim, melhor/pior sem ter poder algum de influenciar nesse estado de coisas. Mas, não é o caso do sofrimento dos animais na natureza. Poderíamos fazer muito para ajudá-los.

        Não é o Juliano que “classifica o sofrimento como mal”, como se ele tivesse inventado isso. O sofrimento é um mal. Pense no caso mais extremo de sofrimento que você já padeceu em vida, e me diga se você, naquele momento, não avaliou aquela experiência como negativa.

        Enfim, você que não está a separar mal as “questões de base”, para usar suas palavras.

  3. Hum, tenho que comentar: ao ver fotos e videos de diversos animais sendo torturados, hj mesmo assisti sobre a industria (maldita) de pele, sempre pensei, angustiada enquanto assistia o filme: o que este coitado ativista fez de sua vida a pont de ter que presenciar, filmar, gravar a morte do animal para mostrar para nós que também os amamos, o que acontece atrás dos muros da exploração dos animais! Ao chorar, penso também neste ativista que se empregou, conviveu, viveu, escolheu o momento e imagens certas para mostrar ao mundo o que o ser humano é capaz de fazer. Raramente assisto estes filmes pois fico muito revoltada em seguida, e sei do sacrifício de que o fez, e nem imagino que eles devem estar sentindo naquele momento junto ao animal que grita.

    • Oi, elaine figueira! Seu comentário rende uma boa análise e pesquisa sobre o que essas pessoas tem que enfrentar nessas situações pra lá de complicadas e carregadas de sérios dilemas.

  4. A foto do pernil suíno assado encheu minha boca d’água! Aí eu fiquei pensando. Imaginem que pessoas pudessem doar seus corpos para a alimentação humana. Após a devida análise sanitária, não haveria problema de qualidade. Cortes como a perna, a coxa (pernil) e o quadril (alcatra, picanha e maminha) podem render boas refeições. O problema é que dizem que a carne humana é meio doce. Precisaria ser bem temperada. Em um planeta com tanta gente passando fome, evitaríamos o desperdício e teríamos uma fonte de proteínas e vitaminas de alta qualidade. Creio que poderia haver alguma resistência ao consumo de vitelos…

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