Animalismo libertário


Muitas são as tradições de aprisionamento dos animais eleitos pelos humanos para estima, companhia, guarda, entretenimento, provimento de supérfluos, decoração, alimentação e experimentação. Nenhuma dessas formas de tratamento cruel aos animais pode ser justificada do ponto de vista da ética animalista.

Privar qualquer animal da liberdade que constitui seu éthos desde o nascimento é abominável, ainda que seja legal. Nem tudo que é legal está sustentado na ética. A ética animalista defende a liberdade de todos os animais e os considera tão dignos dessa liberdade quanto o somos, nós, os humanos.

Nenhum animal nasce preso. Pelo contrário, o útero é o derradeiro momento do confinamento completo de todos os mamíferos, e o ovo, de todos os ovíparos. Útero e ovo servem exclusivamente para proteger o animal e o prover dos nutrientes que precisa para finalizar a etapa do desenvolvimento que precede seu trágico nascimento na condição de indivíduo. Essa condição é trágica, pois, para obtê-la, quer dizer, para ter a dignidade de ser “um” e gozar da autonomia prática que essa natureza do viver como indivíduo assegura, o animal precisa passar pelo momento no qual justamente todo provimento de seu organismo lhe é cortado.

Se não houvesse a ruptura do cordão umbilical ou da casca do ovo, o nascimento não poderia representar para o novo ser a oportunidade de se desenhar como “um”. Ele continuaria colado ao organismo que lhe deu origem, plasmado materialmente a esse organismo, vivendo na dependência absoluta do provimento que a matriz assegurasse. Mas os animais não nascem para ficarem colados às progenitoras. Também não nascem para ficarem plasmados às cascas dos ovos nos quais suas primeiras células estavam guardadas.

Todos os animais – o próprio termo já o indica claramente – nascem para o movimento, são seres animados. É condição de todo ser animado tornar-se autônomo. Estar atrelado ao provedor é sinal de dependência. Dependência é sinal de autoinsuficiência. Ofensiva a qualquer animal, pois seu espírito o torna suficiente. O animal leva consigo esse banco de dados que é seu espírito, para ser usado na busca do autoprovimento. Dotado de espírito, ele se basta. Ainda que adore estar ao lado de outro, a quem se afeiçoa, ama, e por quem se apaixona.

O éthos animal o destina à autonomia prática, do momento em diante no qual o cordão que o liga à fonte de provimento é cortado. Daí para frente, a pura liberdade física será a condição trágica da existência animal. Por um lado, pode mover-se no ambiente natural e social para buscar o provimento que sustenta sua vida. Por outro, caso não encontre tal provimento, sofre os efeitos da privação. Esse é o preço da liberdade. O animal pode sair do lugar onde o nascimento o apresentou à vida. Mas isso pode lhe custar experiências de privação. Entretanto, a liberdade é risco. Nenhum animal abre mão desse risco em troca de uma jaula na qual há comida. Todo animal quer a comida e abomina a jaula. A prisão, a trela, a grade, a barra de ferro, o caixote, a baia, o curral, a jaula e a gaiola são ameaças ao éthos animal de qualquer espécie.

Para ser animal, o indivíduo já saiu do último confinamento, imposto pela necessidade de receber suprimentos com garantia até concluir sua gestação. Liberto pelo corte do cordão umbilical, ou pela ruptura da casca do ovo, mamíferos e ovíparos começam sua trajetória em direção ao aprimoramento de seus organismos para se tornarem, finalmente, o indivíduo singular de sua própria espécie. Suas experiências em busca do provimento os tornarão únicos. A tragédia da privação os torna vulneráveis. Somos todos animais. Somos iguais. Essa igualdade é libertária.

Nenhum de nós admite ser aprisionado em troca de suprimento garantido. A bem da verdade, não precisamos ser supridos, a menos que estejamos em condições vulneráveis, enfraquecidos e necessitando de ajuda. Esses períodos são exceções. Para essas exceções, não precisamos construir celas de aprisionamento, embora muitas instalações de tratamento de humanos vulneráveis se pareçam bastante com elas.

Se não é necessário aprisionar humanos para lhes fornecer suprimentos ou tratamento quando adoecem e, se quando estamos saudáveis não se justifica que nos aprisionem para nos fornecer suprimentos regularmente, pois somos capazes de ir à luta, realizar nosso éthos e buscar o próprio suprimento usando o espírito específico e os recursos mentais de nossa espécie para isso, também não há como justificar aprisionar animais em zoos, alegando que são “bem tratados”, “têm provimento assegurado” ou coisa que o valha. Os zoos preservam o corpo do animal, Á custa da atrofia do seu éthos, do seu espírito específico e singular.

Cada animal, seguindo o espírito específico, caso seja deixado livre para expressar o seu éthos, dá conta do autoprovimento e do provimento dos seus rebentos. Não há como justificar a manutenção de zoos, aquários, parques de diversão e similares, nos quais os animais são violados em sua liberdade, em seu éthos, para que humanos entediados tenham alguns minutos de contemplação de algo que sequer é expressão da natureza. Esses animais são uma mostra do quanto o humano pode atrofiar o espírito dos indivíduos de todas as espécies ao confiná-los para servirem de distração ao nada respeitoso público.

A única forma de recompor a violação praticada é a justiça restitutiva que implica em devolver os animais hoje confinados ao ambiente próprio de suas respectivas espécies e em abolir todas as formas do confinamento que não sejam para restabelecer a saúde do animal com vistas a poder devolvê-lo à vida que sua natureza lhe ofertou ao nascer e que a cobiça humana lhe surrupiou ao confiná-lo seja lá para qual finalidade for.


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