Escrita Libertária - Robson Fernando de Souza

Falácia de redução ao radical

Introdução e definição

É frequente ver ideias filosóficas dotadas de coerência e senso ético e ações sustentáveis sob o ponto de vista científico sendo preteridas pela maioria das pessoas simplesmente porque elas acham tal ideia ou ação algo “radical”. Comete-se nisso uma falácia lógica que, apesar de ser usada tão corriqueiramente e há tanto tempo – pelo menos, presumo, desde a época do Iluminismo –, ainda não foi oficialmente incorporada aos catálogos de vícios a serem evitados em argumentações.

É o que eu chamo de falácia de redução ao radical ou redução ao extremismo ou Reductio ad Extremum. É semelhante à falácia do apelo ao ridículo, no que tange a desdenhar argumentos sem refutá-los racionalmente, e consiste na seguinte estrutura lógica:

X é radical.
Logo, X é necessariamente falso/errado/absurdo.

Que pode variar sob as formas de:

Eu considero X radical.
Logo, X deve ser falso/errado/absurdo.

X não é radical.
Logo, X está certo.

X é radical.
Y não é radical.
Logo, Y é superior a X.

Considere-se para esta falácia a seguinte definição de radical, conforme o Dicionário Aurélio: “que não é moderado, que prega o radicalismo ou age com radicalismo, ou que revela radicalismo, inflexibilidade; radicalista”.

Nem tudo que é radical é absurdo

Embora a sociedade atual preze, em seu paradigma social, por ignorar e desdenhar ideias consideradas radicais, tendentes à inflexibilidade, nem tudo aquilo que tem aspectos de radicalismo é necessariamente absurdo. Aliás, várias ideias que essa mesma sociedade pensa, segue ou vive são de fato radicais e inflexíveis, e nem por isso são automaticamente consideradas absurdas, falsas e erradas. São os casos de:

a) Os Direitos Humanos: Poucas pessoas hoje em dia nas sociedades ocidentais cogitariam flexibilizar os Direitos Humanos para qualquer propósito. Para centenas de milhões de pessoas, é impensável abrir mão de direitos como os à vida e à liberdade, o de não sofrer tortura e o de não ser submetido à escravidão. Toda essa população não aceitaria desistir voluntariamente de quaisquer desses direitos, nem que fosse para garantir a segurança da coletividade. Assim sendo, pode-se considerar os Direitos Humanos algo defendido com radicalismo mesmo por aqueles que se dizem politicamente moderados.

b) A democracia: Nas sociedades regidas pela democracia liberal, é extremamente difícil um candidato majoritário que defenda a suspensão da democracia e do Estado de Direito e a implantação de um Estado policial autoritário ser eleito pela maioria dos cidadãos. Democracia, ainda que defendida sob formas diferentes a variar da representativa à propriamente direta, é algo que geralmente não se pensa em abrir mão, de se flexibilizar em nome de um suposto “bem maior”. Portanto, também podemos ver a defesa da democracia no senso comum como uma defesa radical e fechada a retrocessos.

c) Oposição à dominação estrangeira: Seja antimilitarista ou simpatizante da existência de forças armadas, quase ninguém aceitaria de bom grado ver seu país sendo militarmente invadido e subjugado por um país agressor. Mesmo nas democracias ocidentais, é bastante difundida a ideia de que uma hipotética dominação estrangeira traria opressão e supressão de direitos e deveria ser inegociavelmente combatida, mesmo que isso custasse a vida de militares e civis armados. E nem por isso tal pensamento é desdenhado por essas sociedades como radical, pelo contrário.

Há outras ideias radicais que também são dotadas de uma coerência perceptível à maioria das pessoas, mas por sua vez são desdenhadas por não dizerem respeito diretamente à vida delas. São correntes filosóficas baseadas na empatia sincera e praticamente incondicional, como o vegano-abolicionismo e a Ecologia Profunda. Neste artigo, porém, me restrinjo a falar da aplicação da Reductio ad Extremum à negação da lógica do veganismo e da salutaridade do vegetarianismo estrito.

Vegano-abolicionismo, vegetarianismo estrito e a redução ao radical

Deixa-se muito a entender, na argumentação de carnistas, que o veganismo e o abolicionismo animal são radicais e, por isso, não são dignos de aceitação. Fala-se bastante que “o ideal é o equilíbrio” e que tudo aquilo que esteja longe do centro deve ser evitado. Essa falácia de redução ao radical também é usada para rejeitar a sustentabilidade fisiológico-nutricional do vegetarianismo estrito.

Começo pelo caso da alimentação sem derivados animais. Entre leigos e nutricionistas carnistas (que não tiveram uma formação decente em Nutrição Vegetariana e Vegana), é dominante a ideia de que se deve evitar tanto o extremo de comer apenas carnes como o de não ingerir nada de origem animal. O motivo seria de que não fazem bem à saúde.

Porém o vegetarianismo estrito, conforme relatórios como o da American Dietetic Association e o elaborado em conjunto entre a ADA e a Dietitians of Canada e a página do Physicians Committee for Responsible Medicine, é saudável para todas as faixas etárias e tão possível quanto o próprio onivorismo nas sociedades modernas, mesmo negando incondicionalmente a ingestão de alimentos de origem animal.

Refutar a sua sustentabilidade fisiológica vai muito além de meramente preteri-lo por ser radical em comparação ao onivorismo ou julgá-lo “radical, logo errado” mediante evidências anedóticas desfavoráveis. Exige sim a superação metodológica das pesquisas favoráveis à alimentação sem animais e a exibição de provas científicas peer reviewed de que ela representaria intrinsecamente uma ameaça à saúde humana e, logo, não seria segura para algumas ou nenhuma faixa etária.

Em relação ao veganismo e ao abolicionismo animal, a redução ao radical consiste basicamente em negar a lógica de ambos, por terem algumas diferenças muito fortes em relação ao paradigma moral hoje dominante, baseado no antropocentrismo e na dicotomia “humanos X outros animais”, e por reivindicar inegociavelmente a abolição da exploração animal – em oposição ao moderado bem-estarismo, o qual aceita um meio termo entre a escravidão explicitamente cruel de animais e a libertação dos mesmos.

Curiosamente, o vegano-abolicionismo é preterido como radical mesmo tendo bases filosóficas muito semelhantes às utilizadas pelos abolicionistas humanos dos séculos 18, 19 e 20 e pelos defensores dos Direitos Humanos, havendo como grande diferença apenas o parâmetro majoritário de consideração moral – no caso dos Direitos Humanos, as diversas semelhanças entre todos os seres humanos e, no dos Direitos Animais, a senciência.

Portanto, é um contrassenso esnobar o abolicionismo animal e a práxis vegana como sendo radicalistas ao mesmo tempo em que se defende incondicionalmente que todos os seres humanos devam possuir os mesmos direitos fundamentais. Fica evidente o caráter seletivo da falácia de redução ao radical nesse sentido: para seus usuários, as radicalidades que os beneficiam diretamente podem e devem ser aceitas, mas aquelas que beneficiam profundamente não a eles próprios, mas sim a outros seres, não devem. Isso torna a estrutura lógica do Argumentum ad Extremum indefensável pelas vias da razão.

Considerações finais

Com este artigo, espero acrescentar ao conhecimento público mais uma falácia lógica, muito usada mais ainda não catalogada nos tratados de Lógica Argumentativa. Desmascarar esse vício argumentativo será muito útil para o fortalecimento da defesa de ideias que, mesmo não tendo apontadas em si falhas, incoerências e absurdos éticos, acabam esnobadas no senso comum por seu caráter radical, por sua proposta de afetar profundamente os valores da sociedade e fazê-la abandonar por completo formas socioculturalmente arraigadas de opressão.

Não nego aqui, porém, que há ideologias radicais, especialmente no campo político, que realmente possuem um caráter nocivo, no que tange a suprimir direitos, promover desigualdades, ameaçar a integridade física de pessoas inocentes e incitar a violência como práxis.

Mas elas devem ser desacreditadas na base da dialética, da exposição de suas falhas lógicas e factuais e disparates ético-morais. Preteri-las como “radicais, logo inválidas” não vai fazer frente à ameaça que representam ao bem comum, mas sim acabam reforçando em seus pensadores e seguidores crenças como “Este povo ainda é tolo demais para compreender os desígnios do nosso Deus” (no caso de religiosos fundamentalistas) ou “A sociedade ainda é alienada demais para entender que só haverá justiça social quando os ricos forem exterminados e for instaurado um governo de inspiração stalinista” (num caso hipotético de extrema-esquerda autoritária).

Em outras palavras, sejam autoritárias ou libertárias, opressoras ou antiopressoras, as ideologias e práticas dotadas de radicalidade devem ser julgadas com as faculdades da razão, não com a falácia de redução ao radical. Tratadas da forma devida, poderão ou ser denunciadas como abusivas e perigosas ou nos revelar a real necessidade de mudar muitos dos valores hoje tratados como normais.

3 COMENTÁRIOS

  1. Eu não acredito que exista uma força não-humana — talvez Deusx, a razão pura ou a razão transcendental — que nos obrigue a ser mais ou menos solidários, a ter mais ou menos consideração.

    Boas ideias como o veganismo, o direito natural ou o utilitarismo são grandes forças imaginativas que precisam ser arguidas e defendidas, mas a forma como isso acontece é fruto do que estivermos dispostos a aceitar, e não de uma tipologia do que deve ser para qualquer um em todos os tempos.

    Dito isso, me parece que toda essa conversa sobre tipos de falácia pode ser, dependendo do caso, uma boa ideia, mas não mais que isso.

    • Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Robson por trazer à tona a discussão das posições morais com base na lógica. Penso que é assim mesmo que essa questão (ou qualquer outra) deve ser discutida.

      Em segundo lugar, meu comentário é uma resposta ao comentário do Vitor.

      Eu não vou me estender muito na resposta porque já publiquei dois textos aqui no ANDA mesmo, sobre esse ponto específico. Lá eu discuto mais detalhadamente essa questão: http://www.anda.jor.br/04/08/2011/sobre-a-importancia-da-razao-na-etica e http://www.anda.jor.br/03/01/2011/explicando-por-que-o-egoismo-nao-e-etico.

      Vitor, tem três pontos importantes que são perdidos de vista no seu argumento contra a existência de objetividade na ética. Por “objetividade da ética”, eu quero dizer “existirem critérios objetivos, independentemente do que pensamos, de época, ou de cultura, que demonstrem que uma posição moral é mais plausível ou menos plausível que as alternativas”. Em outras palavras, por “objetividade da ética”, eu quero dizer é que é falsa essa conversa de “em ética é tudo muito relativo”, e que determinadas posições morais, como o especismo, o egoísmo, o racismo, o machismo, a homofobia, etc. não conseguem oferecer realmente qualquer bom argumento (formalmente válido, e sólido, muito menos cogente), enquanto que as posições contrárias conseguem. Pelo que eu entendi, o seu argumento visa negar essa possibilidade.

      Um ponto crucial para entender o que você quis defender com seu argumento é o que quis dizer com o termo “obrigue” na frase “obrigue a ser mais ou menos solidários, a ter mais ou menos consideração. É possível que você tenha se referido a negação da existência de obrigação causal: ou seja, afirmou que não existe um argumento que faça qualquer um que pense nele e concorde com sua solidez (não consiga refutá-lo), a automaticamente passar a agir na prática de acordo com a conclusão do argumento. É possível que você tenha se negado, por outro lado, a existência de obrigação moral. Ou seja, talvez tenha afirmado que não existe um argumento que demonstre que uma posição moral é melhor do que outra. No exemplo que você deu, o que entendi é que você afirma, mais especificamente, que não existem argumentos para demonstrar que é melhor ser solidário do que ser egoísta. Uma terceira possibilidade é você pensar que uma coisa depende da outra: talvez você queira dizer que não podemos falar de certo/errado objetivos porque não existem argumentos que obriguem causalmente (que tenham força coercitiva) alguém a agir de acordo com eles.

      Eu concordo apenas com a primeira possibilidade, mas não com o resto do argumento. Concordo que, por mais sólido que for um argumento, isso em nada garante que alguém que pense nele (e inclusive concorde com ele) vá agir, na prática, de acordo com ele. Mas, isso é válido para raciocínio em qualquer área, não só na ética. O fato de alguém concordar que 3+3= 6 não garante que ele haja, na prática, de acordo com essa idéia. E o fato de 3+3 ser realmente 6 não garante que todo mundo vá concordar com isso. Demonstrar e persuadir são coisas bem diferentes. Mas, por que isso deveria ser importante para responder a outra questão (sobre se há ou não verdade objetiva em ética)? Assim como a objetividade da matemática ou da física não depende de se conseguir convencer todo mundo a aceitar a conclusão correta, também não depende disso a objetividade da ética. O que quero dizer dizer é que, por exemplo, o egoísmo e o especismo continuariam sendo errados, mesmo que todas as pessoas do mundo pensassem que ele é certo, e mesmo que todas as pessoas do mundo reconhecessem que são coisas erradas e se, sentissem, ainda assim, coagidas por sentimentos a serem na prática, egoístas ou especistas. A objetividade da ética, depende, ao invés, unicamente da solidez dos argumentos que podem ser oferecidos a favor das diferentes posições morais.

      Penso, então, que é essa possibilidade que você esteja negando, quando você diz que não há uma “razão pura ou transcendental”. Pelo que entendi, você está negando que exista verdade objetiva em ética que seja independente do que pensamos que sejam essas verdades. E, pelo que entendi, você nega essa objetividade não apenas com relação à ética, mas com relação à própria lógica (como quando diz que a conversa sobre falácias é apenas uma boa idéia mas não mais do que isso). Enfim, é tudo isso que você parece afirmar (desculpe-me se o interpretei errado) que eu nego naqueles dois artigos. Penso que seja impossível dar um argumento contra a lógica porque qualquer argumento que se dê contra a lógica tem de partir da própria lógica (assume-se a implicitamente a validade da lógica na hora de se dar o argumento, sendo um argumento que visa negar tal validade em qualquer argumento possível). E penso que seja falsa a negação da verdade objetiva em ética justamente porque algumas posições morais são baseadas em falácias (são auto-refutantes ou incoerentes, por exemplo) ou apresentam argumentos com premissas falsas (sejam factualmente falsas, sejam baseadas em princípios morais que são, eles mesmos, auto-refutantes ou incoerentes, ou ainda, baseados numa característica irrelevante para a questão que está em jogo – como por exemplo, a espécie da vítima para a questão do dano em morrer). Eu não quero entrar aqui em exemplos sobre como isso é possível, mas naqueles dois textos que eu linkei tem exemplos com relação ao egoísmo e ao especismo. Naqueles textos, ofereço razões para se pensar que, pelo contrário, é possível de se oferecer inúmeros argumentos contra o egoísmo sem se cair em petição de princípio (sem assumir de antemão que o egoísmo está errado).

      Por fim, o ponto principal é que, se o que você pretende com seu argumento é refutar a objetividade da ética apelando à negação da objetividade da lógica, então seu argumento é auto-refutante. Isso porque ele nega que exista verdade independentemente de época e dos desejos dos seres racionais, quando ao mesmo tempo, pretende ser um argumento cuja verdade seja independente de época e dos desejos dos seres racionais. Afinal de contas, você espera que o que você falou seja verdadeiro, independentemente da época em que estivermos, e do que a gente pense sobre isso. Se não espera isso, então ninguém precisaria dar bola para o que você fala. E é exatamente isso o que acontece com todo argumento relativista: é auto-refutante porque só pode ser verdadeiro se for falso. Ou seja, se um argumento em defesa do relativismo pretende ser verdadeiro independentemente de época, cultura ou o que pensam os seres racionais, então ele nega o que pretende afirmar (de que argumentos desse tipo são impossíveis). Se um argumento em defesa do relativismo, ao invés, pretende ser ele mesmo, relativo, então ninguém precisa dar bola pro que tal argumento fala, haja vista que sua verdade, segundo ele próprio, depende de darmos bola pra ele ou não. É isso o que acontece quando se quer fazer uma crítica à razão como um todo partindo de argumento nenhum. Ou seja, ao se argumentar com vistas a negar que argumentos objetivos são impossíveis o que se está a fazer é esquecer ou esconder que aquele argumento, naquele momento, visa ser verdadeiro objetivamente. Isso porque ele tem que partir de algum lugar que não esteja sob dúvida naquele momento, para poder criticar os outros argumentos. É por isso que oferecer um argumento para dizer que a lógica é relativa (ou, que não passa de uma “boa idéia”, mas não mais do que isso) é auto-refutante.

      Aliás, se a objetividade da ética fosse impossível, como poderíamos concluir que o veganismo, o utilitarismo ou os direitos naturais são coisas boas e que devem ser defendidas, e não o contrário? Penso que só faz sentido dizer isso se pensamos que essas posições morais possuem as melhores razões a seu favor, e não as posições contrárias. Se alguém diz que, por exemplo, defende o veganismo, mas pensa ao mesmo tempo que escolher defender o veganismo ou, ao invés, a exploração dos animais é só uma questão de “gosto pessoal”, e que ambas as posições são igualmente boas, então parece enxergar a moralidade como um joguinho de tirar a sorte na moeda para decidir o que fazer na prática.

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