Aqui vai uma dica do Curupira para os amigos vegetarianos que não criam animais por razões éticas ou por falta de espaço, para produzir esterco utilizado tradicionalmente na agricultura orgânico.

(Foto: Divulgação)

Este artigo não procura desencorajar vegetarianos e vegans na promoção de alimentos orgânicos, pois o cultivo por meios químicos é prejudicial à Terra, aos animais e à nossa saúde. Existem, porém, passos que vão além da cultura orgânica tradicional, mais compatíveis com os conceitos vegetarianos.

Na foto aparece o composto feito apenas com grama cortada e poda de árvores trituradas em um picador tradicional. Pode-se enriquecer mais o composto triturando leguminosas como feijão guandu, feijão-de-porco ricos em nitrogênio. Quanto mais espécies de plantas trituradas mais completo fica o composto.

Cultivo Vegan

As pilhas de composto e os canteiros na fazenda de Will Bonsall indicam que ele se dedica à agricultura orgânica. Porém, uma observação mais cuidadosa revela não apenas a falta de sacas de fertilizantes químicos, mas também a ausência de qualquer adubo animal. Nos últimos 20 anos, Bonsall tem se dedicado ao cultivo vegan, um termo (e método) desconhecido até para muitos vegetarianos. Bonsall avançou ainda mais no cultivo orgânico evitando o uso de subprodutos de origem animal. Por que os agricultores orgânicos utilizam fertilizantes de origem animal, como estrume e subprodutos do abatedouro? Esses produtos têm valor fertilizante, pois contêm nutrientes essenciais como nitrogênio, fósforo e potássio, e a matéria orgânica do estrume ajuda a melhorar a estrutura do solo. Esse tipo de fertilizante sempre esteve disponível nas comunidades rurais a custo baixo ou zero, e agricultores que também criam animais têm seu próprio esterco em abundância. Horticultores e agricultores orgânicos consideram a decomposição de produtos animais um componente natural do processo orgânico. Embora agricultores orgânicos sejam encorajados a obter estrume em “fazendas orgânicas”, isso não é requisito para obter o certificado de produtor orgânico. Os horticultores, às vezes, conseguem obter adubo orgânico quando residem em áreas rurais, mas muitos compram adubo de animais criados em confinamento não orgânico. O aumento explosivo da criação de gado em confinamento tem provocado um aumento paralelo de dejetos de origem animal e esse excesso constitui um grande problema. Nos Estados Unidos, o gado produz 105 toneladas de estrume por segundo e o nitrogênio desses dejetos é convertido em amônia e nitratos que se infiltram na água de superfície e subterrânea, contaminando poços, rios e cursos d’água.

“O fazendeiro que cria animais em confinamento tem uma quantidade enorme de estrume da qual precisa se livrar e ele deveria arcar com todos os custos relacionados à poluição do solo, da água e do ar”, diz Scheps. “Se essas despesas forem pesadas, talvez ele se dedique a algo menos prejudicial para o meio ambiente como, por exemplo, cultivar couve” afirma.  E o que dizer do estrume da vaca que vive em um estábulo tradicional? Para que uma fazenda de gado leiteiro seja comercialmente viável, precisa manter muitos animais em um espaço limitado e, portanto, terá problemas com o estrume. Embora as condições não sejam tão ruins como no confinamento, as vacas leiteiras são forçadas a manter os ciclos de gravidez / lactação e os bezerros machos são geralmente vendidos aos produtores de carne de vitela logo após o nascimento. Quando não são mais consideradas produtivas, a maioria das vacas leiteiras é abatida para que sua carne e couro sejam aproveitados. Quando usamos estrume dessas fazendas, ajudamos a explorar os animais.

(Foto: Divulgação)

Para acelerar a fermentação pode-se colocar cana-de-açucar picada, caldo de cana ou simplesmente água sem cloro, como aparece na foto acima. Aqui no Curupira usamos um gabarito de tela para facilitar a mistura do composto, pois sem ele o monte acaba ficando uma pirâmide. Mas não é regra, é apenas uma dica para facilitar o trabalho. Precisa-se apenas de um gabarito para empilhar vários compostos. O gabarito mede 1m de diâmetro por 1m de altura: medida padrão recomendada para facilitar a compostagem.

Veja o vídeo do uso do gabarito de tela .

Mas, como obter nitrogênio?

A primeira pergunta que muitos fazem quando querem fazer horticultura sem produtos animais é “Como podemos compensar a falta de estrume?” Isso corresponde a perguntar a um vegetariano como ele obtém proteínas em quantidade suficiente. Fazer a pergunta “como compensar” significa inferir que os produtos animais como comida ou fertilizante são o que há de melhor. Os vegetarianos sabem que são muitas as razões pelas quais a alimentação baseada em vegetais é superior à alimentação a base de carne e, para os vegans, os motivos éticos são óbvios. Muitos, porém, desconhecem todos os outros benefícios da adubação usando somente plantas.

Quando o composto estiver escuro, frio e com cheiro de terra, ele está pronto para ser usado. (Foto: Divulgação)

Fertilidade e uso da terra

A fertilidade do solo não vem dos animais, vem das plantas na base da cadeia alimentar. A nutrição humana também não tem origem animal. Quando uma pessoa come carne, obtém nutrientes daquilo que serviu de alimento para o animal. Obter nutrientes dessa forma não só é nocivo à saúde, como também constitui uma maneira ineficiente de utilizar energia e recursos. A carne, por exemplo, não contém nada das fibras que o animal comeu e seu teor de proteína é elevado demais. Da mesma forma, quando o capim é “filtrado” através de uma vaca, quase todo o nitrogênio é perdido pela urina. Se colocarmos o capim destinado a alimentar uma vaca diretamente na pilha de composto, obtemos todo o nitrogênio necessário, além de outros nutrientes que não são encontrados no estrume. Usando o capim, vamos obter mais matéria orgânica do que com o estrume e, portanto, mais fertilizante. Colher a fertilidade na fonte é uma maneira bem mais eficiente de obter nutrientes. Eliot Coleman vem usando adubo orgânico há mais de 40 anos, sendo que nos últimos 15 usou métodos vegans. No início dos anos 90, Coleman recebeu uma verba para pesquisar a produção em escala comercial usando composto vegetal em vez de adubo animal. Através da pesquisa, Coleman determinou o número de hectares de feno necessários para fertilizar um hectare de plantas alimentícias. Descobriu que a relação é de um hectare para produzir o feno por um hectare para produzir alimentos. Isto no Maine, EUA, onde o solo é rochoso e difícil de arar. Se fosse usado adubo animal em vez de capim, o espaço necessário para fertilizar aquele hectare usado para cultivar alimentos precisaria ser quatro vezes maior — considerando o espaço para o pasto e a forragem para os animais. A pastagem excessiva tem levado à erosão e à formação de desertos nos quatro cantos do mundo. E a imensa quantidade de fertilizantes e agrotóxicos — usados na produção de alimentos para os animais — acaba poluindo águas superficiais e subterrâneas. Agricultores orgânicos que dependem das vacas para obter fertilizantes precisam de muito mais terra do que aqueles que usam métodos vegans. À medida que a população aumenta, depender de animais no cultivo vai levar à derrubada de mais florestas — e conseqüente destruição do habitat da fauna — para dar ainda mais lugar a pastos e cultivos para animais. Mais de 25% das florestas tropicais da América Central já foram destruídos para criar pastos para o gado.

Foto abaixo: composto pronto usado direto na horta.

(Foto: Divulgação)
Costumamos passar o composto pronto pelo minhocário, para produzir húmos e facilitar a absorção dos nutrientes pelas plantas. Mas essa passagem pelo minhocário é opcional. (Foto: Divulgação)
(Foto: Reprodução)

Fonte da tabela: Alternativas Ecológicas para Prevenção e Controle de Pragas e Doenças, de Inês Burg e Paulo Mayer – Editora Grafit

Mais razões para adotar métodos vegans!

O interesse de Coleman pelo cultivo vegan não se deve ao vegetarianismo, pois ele não é vegetariano. Seu interesse provém da praticidade de cultivar seu próprio fertilizante e não ter que depender de fontes externas para obter adubo. O estrume de gado confinado muitas vezes tem preço elevado devido aos custos de tratamento, embalagem e transporte. Não deixa de ser irônico que o estrume seja caro, apesar do excesso! Outro motivo para o preço elevado do estrume é a demanda crescente porque o público vê o adubo animal como necessário. Como o interesse em horticultura e agricultura orgânica está aumentando, a demanda por adubo “orgânico” poderá vir a exceder a oferta e afetar os preços atuais.

Solo equilibrado, plantas saudáveis

Muitos agricultores acreditam que aplicar adubo em excesso pode provocar um desequilíbrio no solo, plantas doentes e problemas com predadores. Coleman e Scheps descobriram que adubos vegans não causam os problemas com pragas que afetam as hortas onde empregam adubo orgânico não vegan. “A superalimentação do solo, além de ser um desperdício, pode ser prejudicial” escreveu o agricultor vegan David Phillips, Ph.D. “Colocar uma camada grossa de adubo faz com a planta o mesmo que o excesso de comida faz com o corpo humano — crescimento super estimulado, durante certo tempo, depois o desequilíbrio que causa condições patológicas.” O agricultor pode optar entre controlar ou aprimorar a natureza. As pessoas podem matar ervas daninhas com um herbicida. Entretanto, esse produto químico também destrói os microrganismos encontrados no solo e as plantas ficam mais suscetíveis a doenças. Para aprimorar a natureza, usamos barreiras físicas que evitam ervas daninhas (por ex.: cobertura verde, uso de energia solar), extirpamos as ervas daninhas ou simplesmente convivemos com elas. Mesmo hortas com solo equilibrado podem ter insetos indesejáveis, mas nessas hortas seus predadores naturais acabam aparecendo. Se nada for feito contra os pulgões, eles atrairão as joaninhas que deles se alimentam. E, às vezes, esses insetos podem até se tornar úteis: há um tipo de lagarta que se alimenta das folhas da salsa, porém, mais tarde, a larva se transforma em uma borboleta que poliniza as plantas. As plantas que crescem em solo equilibrado nem sempre estão livres de imperfeições. Quando se trata de aceitar falhas, existe uma questão de ordem econômica. Quem planta sua própria horta não se importa com alguns furinhos na folha de alface, mas quem cultiva para fins comerciais vai considerar essa alface imprópria para venda. Fazer a rotação de culturas, produzir cobertura, evitar monoculturas e produtos químicos, adicionar constantemente matéria orgânica são fatores críticos para uma horta bem equilibrada.

Questões de saúde

O estrume da maioria dos animais domésticos aloja doenças intestinais e parasitárias e pode conter resíduos de antibióticos. Animais ruminantes, às vezes, abrigam a bactéria Escherichia coli 0157:H7 no intestino, que pode ser transmitida às pessoas através das fezes. Mesmo os defensores do estrume concordam que, principalmente o estrume, cru, constitui uma ameaça à saúde e aconselham que seja manuseado com cuidado.

O futuro do método vegan

“Hoje, o principal problema da agricultura vegana”, diz Bonsall, “é a dificuldade em encontrar informações a respeito”. No mundo inteiro, muitos agricultores utilizam os métodos vegans (mesmo sem conhecer o termo!), mas não há comunicação entre eles. O escritor inglês Geoffrey Rudd cunhou o termo “vegan” há quase 50 anos e existem diversos livros sobre o assunto, mas muitos agricultores que usam apenas fertilizantes a base de plantas não conhecem essas obras. Muitos vegetarianos que cultivam sua horta com certeza usam métodos vegans. Entretanto, no mundo inteiro, é impossível encontrar esses produtos nos supermercados, porque as pessoas os cultivam apenas para consumo próprio. Há vinte anos, era difícil encontrar produtos orgânicos, mas agora já os vemos por toda parte, atendendo à maior procura. As coisas boas merecem que se lute por elas. Precisamos colocá-las em prática e também informar a população. Quem sabe, um dia encontraremos couve e pepinos marcados com um “V” de vegan no supermercado.

Fonte: sítio curupira 

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