Histórias Cruzadas – veja o filme, leia a vida!


“Os animais são inocentes sofredores de um inferno de nossa fabricação.”
Jeffrey Masson¹ (2001:284)

O filme “Histórias Cruzadas” discorre sobre a vida das mulheres negras que cuidavam dos lares e das crianças brancas das famílias do Mississipi (sul dos Estados Unidos), nas décadas de 50 e 60. Indicado ao Oscar 2012 em três categorias, o filme retrata as relações desiguais e injustas entre brancos e negros. Pela cor da pele uma hierarquia se estabelecia, demarcando espaços, direitos e deveres; impondo, assim, o jugo da imoral “superioridade racial”. Com a mente de hoje assistimos, com estranhamento, à naturalidade com que os brancos se impunham aos negros, tendo, para isso, o respaldo legal, cultural e religioso.

Jefrey Masson e Susan McCarthy (2001), no livro “Quando os elefantes choram”, contam inúmeras histórias, todas elas repletas de evidências de que os animais também amam, odeiam, sentem ciúmes, raiva, solidão, compaixão e medo. Os autores, ele psicanalista e ela bióloga, realizaram pesquisas e entrevistas com muitos cientistas que trabalham em reservas ecológicas, zoológicos, laboratórios; e também com treinadores de animais de muitas espécies. Ao final, perguntam sobre as implicações dessas constatações e por quais motivos elas são desprezadas pela maioria dos cientistas, como um objeto indigno de estudo sério, ou como sendo resultado de um antropomorfismo (tendência de atribuirmos características humanas aos outros animais). Devemos mudar nosso relacionamento com eles? Temos obrigações? Como ficam os testes e experimentos com animais? Questionam eles.

As histórias se entrecruzam: das empregadas negras e dos animais. Nos dois casos ninguém queria saber o que pensavam e nem como se sentiam. Há um afastamento de quem está na posição de estabelecido ou privilegiado. É preciso pensar e se comportar como se o outro (o negro, a mulher, o pobre, o animal) não fosse “um igual” e assim justificar o tratamento diferenciado. Transformar o outro em um “outsider”, por meio de práticas, hábitos, cultura e leis, é uma estratégia que nos deixa um pouco menos desconcertados. Por conseguinte, retirar do nosso campo de visão qualquer manifestação ou discurso que venha nos lembrar que eles, assim como nós, sentem dor, tristeza profunda ou choram. Os autores refletem que “parece ser que se algo não sente dor da maneira que um ser humano sente, é permissível fazer mal a ela”. Mesmo sabendo que isso não seja necessariamente verdadeiro, completam que “a ilusão das diferenças se mantém em razão do medo de que, ao ver similaridade, uma obrigação será criada para se conceder respeito e talvez, até mesmo, igualdade” (p.273). Recuperam e trazem para o texto um trecho escrito pelo inglês Jeremy Bentham (1789), que também cruza essas histórias:

“Pode chegar o dia em que o resto do reino animal poderá adquirir esses direitos que nunca lhe poderiam ter sido negados, exceto pela mão da tirania. Os franceses já descobriram que a cor negra da pele não é razão para um ser humano ser abandonado sem reparação pelo capricho do atormentador. Um dia poderá vir a ser reconhecido que o número de pernas, a quantidade de pelos na pele, são razões igualmente insuficientes para abandonar um ser sensível ao mesmo destino. O que há, além disso, no sentido de traçar a linha que não se deve ultrapassar? Por acaso é a faculdade da razão, ou, talvez, a faculdade do discurso? No entanto, um cavalo ou cão já crescido são, sem possibilidade de comparação, animais mais racionais, assim como mais “conversáveis” do que um bebê de um dia, ou uma semana, ou mesmo um mês de idade. Mas suponha que o caso fosse de outra forma, o que isso iria avaliar? A questão não é: eles podem raciocinar? Nem, eles podem falar? Mas, sim: Eles podem sofrer?”

Sabemos que a história da luta dos negros, pela igualdade e dignidade, foi sendo escrita à custa de mortes, preconceitos e humilhações; de homens, mulheres e crianças. Entretanto, a luta pelo Direito Animal tem suas particularidades, pois, o ofendido, não pode, ele mesmo, narrar a sua história ou fazer uma “revolução”. Constitui, assim, a parte vulnerável, indefesa e calada; daí ser, covardemente, dominada e explorada.

Respaldada no passado, atrevo-me a vislumbrar um futuro não distante, em que a liberdade dos animais representará, de fato, uma conquista do próprio ser – homem ou mulher – como humano. Histórias cruzadas de seres sencientes. Não um choque; uma evolução!


¹Masson, Jeffrey M. e MacCarthy, Susan. Quando os elefantes choram: a vida emocional dos animais. São Paulo: Geração Editorial, 2001.


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