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Capão da Canoa/RS oficializa e incentiva a exploração de cavalos

10 de fevereiro de 2012
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carroça Capão
Foto: Tarsila Pereira/Correio do Povo

A Prefeitura Municipal de Capão da Canoa, através de sua Secretaria de Cidadania, Trabalho e Ação Comunitária, cadastrou nesta semana 40 carroceiros locais para a limpeza da área urbana. O alto nível dos condomínios em Capão, concorrida praia do Litoral gaúcho, não impede a manutenção de velhos hábitos e castas, uma espécie de ‘elevador de serviço/elevador social’ que vale para toda a cidade, e termina no lombo de um quadrúpede. Em meio aos prédios chiques, lotados de gente fina, elegante e sincera, circulam sob o Sol abrasivo do verão demolidas carroças puxadas por cavalos igualmente demolidos.

Toda madame fru-fru e bronzeada, com unhas manicuradas, agora tem à disposição o Tele-Carroça, para tirar do alcance de sua vista tudo aquilo que está sobrando. Obviamente falta dinheiro para chamar uma caçamba de entulho, um tiozinho que faz frete com caminhãozinho, ou simplesmente levar até a lixeira mais próxima. Como os cavalos nasceram para cumprir pena de trabalhos forçados – alô, pessoal do ‘karma’! – por que não fazê-lo, não é mesmo?

Resíduos sólidos e restos de podas agora serão transportados ‘ecologicamente’ até o Parque de Máquinas da Prefeitura. Taí uma boa maneira de contentar a todos, e poupar os funcionários humanos do trabalho. Verão é para curtir.

Cada carroça recebe um número de identificação e uma plaqueta com os dizeres ‘Carroceiro Cidadão – Amigo do Meio Ambiente’, além do telefone do tele-carroça. A meta da Administração de Capão da Canoa é cadastrar 100 dos mais de 200 VTA – veículos de tração animal – que já circulam pela cidade, recolhendo materiais da frente dos veranistas e jogando na periferia.

Quem vem descendo o Litoral Norte gaúcho pela estrada que beira o mar, sempre se espanta com o lixo no acostamento, prenunciando Capão da Canoa.

Enfim. Todos passarão a receber uma ‘bolsa-cavalo’ no valor de R$ 100 mensais para o trato do animal. Acho que só alguém muito ingênuo acredita que qualquer R$ 1 repassado ‘para o cavalo’ terá esse fim. Basta conversar com qualquer pessoa que eventualmente tenha ido veranear em Capão, e que consiga perceber os cavalos em meio ao trânsito – a maioria sofre de cegueira seletiva, para saber qual a realidade dos cavalinhos de carroça. Minha última ida àquela praia rendeu um texto, ‘Férias no Litoral?!’, que pode ser lido em http://veganpelotas.blogspot.com/2009/01/frias-no-litoral.html.

Durante a alta temporada, o de lixo produzido em Capão chega a 73 toneladas por dia, mais do que o dobro do restante do ano. Interessante que ninguém ali é analfabeto ou chegou ontem de Marte. Todos já leram na Veja ou na Superinteressante sobre lixo, reciclagem, sustentabilidade, aquecimento global, ‘mancha de plástico no Pacífico’, protocolo de Kyoto, Greenpeace, Código Florestal, tartaruguinhas andando em direção ao mar, etc, mas quando chega na hora da vida ao vivo, a coisa muda. E para varrer a própria sujeira abusiva deixada em um local de veraneio, exploram-se até a morte os esquálidos cavalos que não têm direito nem de pedir pausa para beber água. Quando algum é abandonado para morrer – longe das quadras luxuosas – aí a mídia carniceira dá destaque, e alguns poucos abnegados ajudam o animal. De volta ao dia-a-dia, até mesmo as políticas públicas vêem no animal não-humano um motor grátis, um Morlock, alguém que deve a vida aos de cima.

Nascer eqüino é um castigo e tanto aqui no Rio Grande do Sul, onde o cavalo é considerado o melhor amigo do gaúcho.

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