Aleluia Heringer - Plataforma Terráqueos

À beira do fogão

IMagem: Reprodução

O dia em que meu filho chegou e disse: “se eu me conheço, jamais volto a comer carne…”, foi o marco inicial de um processo com repercussões profundas na minha forma de ser e “estar” no mundo. Ele, na época com 18 anos, assistira a um vídeo sobre abate de porcos. Ali mesmo, à beira do fogão, expressei o meu espanto, iniciando uma série de questionamentos, próprios de uma mãe preocupada: “… mas, por qual motivo?… E a proteína = carne, e o cálcio = leite? (essa é clássica!); isso não é exagero? Apressei-me, então, em expor meus estranhamentos quanto àquela “postura radical”.

Ao narrar pequenos detalhes do que assistira, meu filho convenceu-me, imediatamente, de que algo estava errado. Nessa época tínhamos o Pug, um poodle que conviveu conosco por 15 anos, que facilitou compreender que, assim como ele, os outros animais (vaca, boi, porco, galinha, macaco etc.) também sentem medo, dor, prezam pela liberdade e lutam pela própria sobrevivência. Esse foi então o primeiro conceito-chave que aprendi, ainda ali, à beira do fogão: os animais são seres sencientes. Feita essa conexão, foi fácil entender outro conceito-chave: especismo. Nossa forma de pensar, muito bem sedimentada pela nossa educação, religião e cultura, está formatada para colocar o animal humano em uma escala superior a todas as outras espécies. Agimos, legitimados por essas instituições, como se fôssemos portadores de uma senha, que para nós, humanos, torna tudo permitido, lícito e possível de fazer aos animais não-humanos.

Com a apropriação desses dois conceitos fundamentais, a compreensão e o engajamento nessa grande causa constituíram-se, então, em uma conduta desafiadora. Ao contrário daqueles que iniciam uma caminhada com tempo e destino certos, não sabia para onde estava indo, não tinha bagagem, roteiro e nem sabia se teria ou não acompanhantes. Essa tomada de decisão, que se iniciou com a recusa de ingerir qualquer coisa de origem animal, chamou não só a atenção dos familiares e amigos, como atraiu inúmeros questionamentos de ordem social, cultural, nutricional, religiosa, ética e moral, educacional, dentre outros. Não tinha resposta para tudo, mas cada pergunta se transformava em desafio e incentivo para estudos, leituras e conversas à beira do fogão. A privação de alguns alimentos fortaleceu a minha vontade de buscar alternativas, provar alimentos novos e fazer novas combinações. Digo sempre, que ao contrário do meu filho que se tornou vegano da noite para o dia, no meu caso, as mudanças vieram na proporção que aumentava o meu conhecimento sobre os diversos assuntos que envolviam a questão.

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Tenho consciência plena de que sou apenas uma poeira de areia numa imensa praia, ou mesmo, uma pequena estrela na imensidão do céu. Não importa se a minha atitude hoje não irá provocar mudanças no destino dos bilhões de animais mortos anualmente pela indústria ou que são torturados nos laboratórios de pesquisas. Retomo aqui o que diz o sociólogo alemão Norbert Elias¹ (1994, p.48), que nenhuma pessoa isolada, “por maior que seja sua estatura, poderosa a sua vontade, penetrante a sua inteligência (…), pode transformar sua sociedade, de um só golpe”. Mas também é desse autor, estudioso dos processos históricos na longa duração, a ideia de que a preparação do terreno para as mudanças estruturais são oriundas das pequenas tensões e das “pressões exercidas por pessoas vivas sobre pessoas vivas” aqui e acolá, no pequeno e no miúdo das relações. Ou seja, é no continuum de seres humanos interdependentes, que nós, como uma sociedade de indivíduos, caminhamos.

¹ELIAS, Norbert. A Sociedade dos Indivíduos: Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed.,1994.

14 COMENTÁRIOS

  1. Muito interessante entender melhor sobre como começou sua caminhada no veganismo. Parabéns por essa atitude, e que você continue exercendo um impacto positivo no mundo em que todos nós vivemos.

  2. Belíssimo texto! Sabe o que me fez lembrar? Uma passagem do documentário “Derrida”, da Amy Kofman:

    Enquanto mostrava sua casa abarrotada de livros e papelada, perguntaram se Derrida havia lido tudo aquilo, e ele respondeu mais ou menos assim: Não! Só li um livro (acho que Ser e Tempo), mas li muito bem rs

    É claro que ele leu muito, provavelmente bem mais do que deveria, mas a mensagem é clara: a leitura que faz diferença é aquela a qual damos um destino edificante.

    Provavelmente nunca passou pela cabeça do Elias que seus livros pudessem servir de poderoso insight para DDAs, mas com certeza ele desejou que seus escritos encontrassem leitores imaginativos, capazes de redescrever suas ideias de novas e poderosas maneiras. Acho que você fez isso, conseguiu produzir um belíssimo comentário de apenas três linhas do livro rs

  3. Maravilhoso seu texto, Aleluia. O que não pude abordar no meu último texto, o papel da família nestas questões, você abordou com propriedade e sentimento. Forte abraço, colega.

  4. Vitor, tem alguns autores que falam das relações entre os humanos e que podemos,com uma mente não especista, aplicar aos animais também.
    Andresa, a família é fundamental. Tenho sobrinhos que se inclinaram para abolição do consumo de carne mas que não tiveram apoio dos pais. Acabaram largando e agora estão na mesmice do MacDonald´s etc. A vida deles poderia tomar outro rumo.
    Adaléa e Rebeca – vamos tentando!

  5. Oi, Aleluia, alguns autores?? Inúmeros autores! A nossa capacidade de redescrever pensamentos e atitudes em termos não-especistas é infindável rs

  6. Reitero o comentário: belíssimo texto! Aproveito para lhe dizer que, nesse último Natal, pensei no presépio e “vi” que ali estavam os animais em torno do Menino Jesus e estavam VIVOS, e não servidos em bandejas, como alimento (como se ilustra normalmente nas festividades natalinas). Lembrei-me de você e orei.

  7. Sandra: nunca parei para pensar nessa participação “viva” do animal no nascimento de Jesus. Você como poeta poderia retratar essa cena.
    Leon: é isso mesmo. Em março ele completa 26 anos e realmente “se conhece” pois nunca, desde então, comeu qualquer alimento de origem animal.

  8. O Texto de Aleluia é interessante pois mostra o instante de mutação em prol dos animais, pelo qual passou a escritora Aleluia. Digo mutação, porqe é um corte com o satus quo. É claro que numa sociedade escravista dos animais, existirão muitos problemas a serem levantados, resolvidos, equacionados e reequacionados. Isto porque é muito fácil ser onívoro/carnivorista (todas as festas, todos os natais, todas as comemorações seguem este formato). Já os que desejam se veganos tem que inventar seu caminho.
    Eu diria que ser carnivorista hoje, é uma tradição; ser vegano hoje, é uma intenção, é a construção diária de um modo de viver, é uma boa intenção que caminha em um campo minado, do qual, se caímos, nos levantamos novamente, tentando nova postura. O terreno está todo contaminado de sofrimento animal. O vegano, aquele que se decide assim, sabe que a cada momento se encontrará com uma mina, uma escolha, a necessidade de um melhoramento, mas é assim que encontramos o mundo, é a partir dele e não de algo imaginário que devemos partir. Há muito que se trabalhar, principalmente a oferta de produtos veganos, a rotulação destes produtos, a criação de um selo à imagem dos”sem açucar”, “sem gordura trans”: “sem animais”.
    Meu abraço a você Aleluia, seu texto é belo, direto e correto. Gostei demais e ainda nos levantou algumas idéias que desencadearam essa presente discussão.

  9. Ótimo texto!!! Sinto-me desafiada a fazer novas leituras para conhecer mais sobre o veganismo. Quem sabe assim conseguirei fazer parte do grupo de pessoas que respeitam, plenamente, os direitos dos animais.

  10. Luia, uma das virtudes que admiro no ser humano é a persistência. É dela que sobressaem atitudes que mudaram o mundo. Estou engatinhando nesta linha, mas com muito interesse e vontade. Não sei se chegarei a algum lugar, mas posso afirmar que se antes não conseguia, hoje muito mais que antes, não mais consigo “saborear” carne como os meus pares. É minha esperança vencer os obstáculos para radicalizar a mesma de minha vida. Obrigada pelas lições, elas nos ajudam muito. Beijo grande!

  11. Rejane e Margareth: o mais importante é estar sensível para ouvir e aprender sobre o assunto. Tenho aprendido muito com o pessoal que tem uma caminhada maior. Também procurei conhecer o meu tempo e dar cada passo com convicção. Com abertura conseguiremos enxergar essa realidade que fomos, de várias formas, impedidas de conhecer. Agradeço pela interlocução.

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