Costa Concordia: "danos ambientais podem ser irreparáveis", diz biólogo


Costa Concordia naufragou no dia 13 de janeiro (Foto: AFP)

Conhecido por suas águas cristalinas e pela diversidade da vida marinha e dos corais, a região próxima à ilha de Giglio, na costa italiana da Toscana, vive momentos de aflição. Além das perdas humanas já registradas, o meio ambiente local já sofre impacto pelo naufrágio do Costa Concordia, no último dia 13. As consequências ainda não podem ser medidas e talvez levem anos para serem constatadas. Mas o ecossistema corre o risco de ser alterado gravemente.

Para além da emergência de possíveis vazamentos de combustível, os materiais contaminantes e a quantidade de lixo e entulhos do cruzeiro ameaçam a sobrevivência das espécies marinhas e de outros animais que dependem destes. A contaminação que já existe no local, que ainda não foi mensurada, pode ter efeito cumulativo sobre toda a fauna local.

Para o diretor do Programa Marinho da Conservação Internacional (CI) no Brasil, Guilherme Dutra, os corais estão entre os organismos mais sensíveis aos impactos ambientais. Segundo ele, é difícil avaliar o tamanho do dano ambiental causado pelo Costa Concordia porque há vários fatores que são determinantes para a análise, como a quantidade de poluentes que estavam no navio, o movimento das correntes marítimas e a velocidade dos ventos.

No fundo do mar (que neste caso é raso), os efeitos do acidente são imediatos. O biólogo e instrutor de mergulhos em naufrágios Maurício Carvalho explica que há dois tipos de fauna marinha: a bentônica (organismos que vivem no fundo) e a composta pelo plâncton (os que ficam à deriva dos movimentos oceânicos) e pelo nécton (aqueles com capacidade natatória). “Quando ocorre um naufrágio, os primeiros afetados são os seres vivos bentônicos, pois seu habitat é imediatamente destruído. Os demais seres também são prejudicados, especialmente em função dos componentes contaminantes que estão no navio (como a tinta do casco, os óleos lubrificantes e de refrigeração das máquinas e motores e o material de revestimento da embarcação)”, aponta.

Com o habitat modificado, há possibilidade de desaparecimento de espécies. “Apesar de se falar bastante na preocupação com o combustível do navio, a própria construção possui elementos que causam impactos ambientais, como o chumbo e o cobre da estrutura”, alerta.

Embora o governo italiano esteja tomando cuidados para minimizar os estragos alguns danos podem não ser recuperados totalmente. “Se o impacto for crítico, o tempo de recuperação é lento. Algumas colônias de corais, por exemplo, demoram centenas de anos para se recuperar”, esclarece Dutra.

Devido ao combustível ser um óleo pesado, o resultado de um vazamento pode equivaler a um derramamento de petróleo. “Mas a mancha de óleo diesel, como passa por tratamento, tem um efeito de toxidade ainda maior que o óleo cru”, ressalta Dutra. Parte do óleo que entra em contato com o mar chega ao fundo e pode causar a mortandade da base da vida marinha; a outra, flutuante, acaba alastrando-se por quilômetros de distância, conforme as condições do mar e do tempo.

“As barreiras de contenção são importantes para que o óleo superficial não se espalhe, porém, para funcionar, o mar precisa estar tranquilo. Com a movimentação das ondas, o efeito das barreiras fica comprometido”, assinala Dutra.

Carvalho cita o caso do impacto ambiental causado na costa do Alasca, que continua a apresentar problemas ambientais resultantes dos resíduos do derrame de um navio petroleiro em 1989. A recuperação é lenta e, mesmo assim, não é totalmente garantida.

Remoção do combustível

Segundo informações das agências internacionais, a extração do combustível pesado dos 15 tanques (equivalente a 2,3 t) do cruzeiro naufragado, que põe em risco o ecossistema da área, prejudicando a fauna e flora marinha e comprometendo o restante da cadeia alimentar que vive ou passa pelo local, será feita mediante perfuração no casco e posterior bombeamento do líquido para cisternas externas, enquanto através de uma segunda abertura o tanque será preenchido com água do mar para evitar o vazio que provocaria novos movimentos no barco.

A preocupação é maior neste momento com o combustível em função da quantidade (os tanques estavam cheios quando ocorreu o naufrágio) e o consequente potencial de desastre. A embarcação de 290 m de comprimento permanece sobre um banco de rochas submarinas, mas as equipes de resgate temem que ela deslize e caia de forma abrupta em águas muito mais profundas.

Uma mancha de 300 m por 200 m de hidrocarboneto já é vista no litoral de Giglio. Apesar de não haver confirmação se ela é decorrente do vazamento de combustível, materiais de contenção já estão sendo utilizados ao redor do cruzeiro. Esta é uma maneira de mitigar que os impactos sejam ainda maiores.

“Por mais que a remoção do combustível ocorra dentro do previsto, a fauna e flora do local já sofrem com o contato de contaminantes. A retirada busca minimizar os danos já que o volume de combustível do Costa Concordia é muito grande e, sem a remoção, o perigo de o desastre ser maior aumenta”, destaca Carvalho.

Naufrágio do Costa Concordia

O cruzeiro Costa Concordia naufragou na sexta-feira, dia 13 de janeiro, após colidir em uma rocha nas proximidades da ilha de Giglio, na costa italiana da Toscana. Mais de 4,2 mil pessoas estavam a bordo. Até terça, dia 24, 16 mortes haviam sido confirmadas. Ainda há desaparecidos, e prosseguem os trabalhos de busca. O Itamaraty informou que 57 brasileiros estavam a bordo do navio, mas nenhum deles está entre as pessoas não encontradas.

O navio, que tem 290 metros de comprimento e 114,5 mil toneladas, margeava a ilha de Giglio quando houve a colisão. Houve pânico e reclamações de despreparo da tripulação. O comandante do Costa Concordia, Francesco Schettino, foi acusado de ter abandonado o navio. Ele disse que estava no comando, mas um áudio divulgado para a imprensa, em que há uma discussão entre ele e a Guarda Costeira, indica que o capitão já estava na costa no momento do resgate.

Com informações do Terra


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