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'CVA não é pet shop' diz diretora de Vigilância à Saúde do Recife

17 de janeiro de 2012
7 min. de leitura
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Diretor detido na sexta (13) mostrou dependências do CVA. (Foto: Katherine Coutinho / G1)

A Secretaria de Saúde do Recife (PE) reafirmou, em entrevista coletiva na sede do Centro de Vigilância Animal (CVA), em Peixinhos, nesta segunda-feira (16), a confiança no trabalho que vem sendo desenvolvido pelo diretor Amaro Souza, autuado em flagrante por crimes contra a administração ambiental e maus-tratos, na sexta-feira (13). O próprio diretor guiou a imprensa para conhecer as dependências do CVA, durante a coletiva.
A diretora de Vigilância em Saúde do Recife, Adeílza Ferraz, fez questão de ressaltar a integridade e competência de Souza. “Ele [Amaro Souza] vai ficar no cargo até quando ele quiser. É preciso lembrar às pessoas que aqui não é um pet shop, a função do Centro é evitar que as pessoas adoeçam”, diz Adeílza. “Nós temos foco também no bem estar dos animais, mas aqui não é local para animais saudáveis. Os que estão no CVA são por ordem judicial, estão sub judice”, explica Souza.
A acusação de maus-tratos foi considerada infundada pelos gestores do CVA de Peixinhos, reclamando da posição adotada pela delegada. “No dia, não foram constatados maus-tratos. Além disso, o perito nomeado foi um zootecnista, tinha que ser um médico veterinário”, afirma o gerente do Programa de Saúde Ambiental do Recife, Otoniel Barros. “Por lei, jamais um zootecnista poderia ter sido denominado um perito para um caso como esse. É um posto que deve ser exercido, exclusivamente, por médicos veterinários”, alerta Késia Alcântara, representante do Conselho de Medicina Veterinária de Pernambuco.
Segundo a delegada responsável pelo caso, Nelly Queiroz, duas pessoas foram nomeadas peritas. “Eu nomeei dois peritos. Toda perícia tem que ter dois peritos. Um foi um médico veterinário da Apevisa [Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária] e o outro foi um zootecnista do Parque dos Dois Irmãos. São dois inspetores com competência para dar o laudo”, explica.
A delegada adiantou também que entrou com um pedido para o Ministério Público de Pernambuco suspender as eutanásias no CVA em Peixinhos. “Pedi que enviasse médicos veterinários da Universidade Federal de Pernambuco para ver que animais podem ser recuperados. Foi pedido também ao MPPE que se faça uma audiência pública para estudar o que pode ser feito no sentido de melhorar”, acrescenta.
Cães ficam em canis para observação. (Foto: Katherine Coutinho / G1)

O caso está sendo analisado pela Secretaria de Saúde da Prefeitura do Recife, que estuda o que pode ser feito. “Hoje [segunda], devemos nos reunir com eles”, explica Barros. “Nós fomos surpreendidos com essa ação, ainda mais de uma delegacia [Delegacia de Polícia do Meio Ambiente] que é nossa parceira. Temos diversos ofícios deles pedindo por ajuda nossa, tivemos cerca de 44 ações no ano passado em conjunto com eles, que têm total acesso ao CVA”, conta Souza.
A convivência de alguns animais saudáveis com os doentes foi explicada pela questão da decisão judicial, que manda os animais para lá. “Nós recebemos 26 animais de um mesmo tutor, sendo que sete foram a óbito. Três deles foram por causa de um pit bull, desse mesmo grupo, que atacou três dos outros. Os outros quatro foram por doenças infectocontagiosas. Se eles pegaram aqui ou vieram com elas é difícil saber”, exemplifica Souza, ressaltando que foi mandado um ofício ao juiz explicando que eles não tinham condições de cuidar daqueles animais.
Quanto aos animais mortos enviados para a perícia, foi constatado que eles não tinham raiva e estavam saudáveis. Barros explicou que o exame de raiva não tem como ser feito em animais vivos. “Ainda bem que eles não tinham raiva, mas isso não quer dizer que matamos indiscriminadamente. Mandamos animais que morreram atropelados, foram encontrados mortos, os tutores ligaram para a gente informando a morte súbita, além dos eutanasiados”, lembra Barros.
Novo estábulo está em construção. (Foto: Katherine Coutinho / G1)

Reforma

Os gestores do CVA concordam que o local precisa de reformas, que vêm sendo feitas nos últimos tempos. “A burocracia faz parte do setor público. Nós já começamos a reconstrução do estábulo, tivemos que jogar tudo abaixo”, conta Souza. A parte onde ficam os gatos também passa por reformas. Os gatis de alvenaria, onde ficam os gatos, foram derrubados e foram comprados novos, mais fáceis de limpar.
Local dos gatos também passa por reformas. (Foto: Katherine Coutinho / G1)

Atualmente, o CVA de Peixinhos abriga seis burros, sete cavalos, além de 12 gatos e 66 cães. “Temos também uma clínica que atende a população, fazendo cirurgias de castração e atendendo animais doentes”, explica Souza. Todos os dias, às 7h, são distribuídas cercas de 20 fichas para atendimento veterinário gratuito. As cirurgias de castração, que também são gratuitas, podem ser agendadas pelos telefones (81) 3355.7725/7722, já que o animais precisam passar por avaliação antes da operação.
O Conselho Gestor, que é formado por representantes também da sociedade civil como organizações não-governamentais de proteção aos animais, vem acompanhando de perto as ações. “Não tem realmente condições de um centro de zoonoses cuidar de animais saudáveis. Nós vemos que eles têm vontade de mudar, mas tem muito ainda a ser feito”, explica Luiz Leoni, integrante do Conselho.
Adoções

Um grupo de voluntários vem transformando também a realidade dos cães do CVA de Peixinhos. Eles dão banho, carinho e atenção aos animais, que são deixados por serem agressivos no Centro. “Muitos dizem que nos unimos ao inimigo, mas não é isso. Nosso objetivo é resgatar esses animais. Quando encontramos um que pode ser reabilitado, ressocializado, separamos e cuidamos, levando depois para a feira de adoção”, conta Marta Dubeux, voluntária da ONG Movimento de Defesa Animal de Pernambuco.
Doroti Linck é uma das protetoras voluntárias. (Foto: Katherine Coutinho / G

A parceria com o CVA já salvou cerca de 50 cães, que foram adotados em feiras organizadas pelos voluntários. No próximo domingo (22), uma passeata contra a violência contra animais partirá do 3º Jardim, em Boa Viagem, Zona Sul do Recife, e vai até o 1º Jardim. “No final, teremos uma feira para adoção de animais. Eles só precisam de carinho”, explica Marta Dubeux.
A taquigrafa aposentada Doroti Linck é uma das protetoras voluntárias, que vai quase que diariamente ao CVA cuidar dos animais que podem ir para adoção. Ela mesma adotou uma cadelinha que foi queimada. “Ela já tinha ido a duas feiras e ninguém quis, é uma maldade deixa-la aqui no CVA”, diz Doroti.
Cão abandonado em frente ao CVA nesta segunda. (Foto: Katherine Coutinho / G1)

Abandono
Na manhã desta segunda-feira, uma mulher não-identificada abandonou um cachorro, amarrado em uma corrente, em frente ao CVA, que só pode aceitar animais ‘agressivos’ com comprovação, ou seja, mordidas e encaminhamento do tutor para tratamento antirrábico. “Infelizmente, isso é comum por aqui. Eu avisei a ela que estava sendo filmada, mas ela não quis nem saber”, conta o segurança Henrique Leitão.
Como o CVA não pode abrigar animais saudáveis, uma das protetoras voluntárias levou o animal para casa. “Nós temos cerca de 43 mil cães abandonados na Região Metropolitana do Recife. Em São Paulo, são 100 mil. Quando você vê a proporção com a população, percebe o quanto aqui esse índice é alto”, comenta Marta. “Nós temos um problema sério de abandono de animais, de raça mesmo, aqui na RMR”, concorda Leoni.
Fonte: G1

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