Holocausto vegetal: era pra rir?


No telefone, me perguntaram: “você viu que o Léo Lins fez um documentário falando sobre a morte dos vegetais, para debochar com o vegetarianismo?”. Minha primeira resposta foi: quem?

“Léo Lins, um dos integrantes do programa ‘Agora é tarde’, do Danilo Gentilli.”

Cheguei a assisti-lo em uma sessão de stand-up, mas até lá ele foi insignificante, tanto que o nome passou completamente despercebido. Fui para o google e, depois, para o youtube,  onde pude assistir ao documentário, se é que pode ser considerado um, intitulado “holocausto vegetal”.

Se você é vegetariano, é bastante provável que já tenha ouvido o termo “holocausto animal”, frequentemente usado em campanhas de conscientização e grupos ativistas que debatem assuntos como veganismo e crueldade com animais. A inversão de palavras – animal para vegetal – já foi usada outras vezes, em blogs a favor do consumo de carne e até em comunidades de redes sociais, como o quase pré-histórico Orkut.

Léo Lins fez uma sátira bem mambembe de documentários que mostram abates de animais, em tom de vídeo-reportagem com falas surreais, como essa: “a crueldade humana não tem limites. Você já ouviu falar da cenoura baby? Arrancadas do seio da mãe natureza na sua tenra infância, as mini cenouras, com apenas semanas de vida, são devoradas sem o menor remorso. Uma verdadeira pedofilia vegetal.”

Sem ter argumentos que rendam boas piadas, o vídeo chega a pecar na edição. Ao fazer menção a um trabalhador que garante seu sustento por conta do consumo de vegetais, na feira ele é um senhor de cabelos brancos, porém, na cena seguinte, em uma cozinha, ele é um jovem de cavanhaque, óculos escuros e facão em punho, que pica cebolas sem dó nem piedade. Nítida referência vinda dos açougueiros e de quem sobrevive da carnificina. Isso nos mostra que, até na suposta brincadeira, a realidade é cruel.

Sempre que vejo críticas – ou tentativas malfeitas como essa, sobre o vegetarianismo, me recordo imediatamente que isso só acontece porque, hoje, já somos muitos. Fazemos barulho, crescemos, aparecemos e, consequentemente, incomodamos. E, com a apelação do humor, tão avassaladora quanto o número de artistas que tentam fazer graça onde só há falta de bom senso, cada vez mais vamos nos deparar com passagens banais como o “holocausto vegetal”.

Se esconder atrás da liberdade de expressão, da licença poética e da comédia democrática, onde tudo é válido, nada mais é que falta de criatividade.

Para assistir ao Léo Lins novamente, sem pré-conceitos bem definidos, eu digo: agora é tarde.

 

 

 


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