Vanguarda Abolicionista - Marcio de Almeida Bueno

Navios-currais dão orgulho ou 'Ficar preso em um elevador por um mês'

navio curral

Como se já não bastasse a pecuária em si, arrancando à força a valiosa matéria-prima dos animais – e da natureza, para aqueles que separam esses assuntos em gavetas diferentes, ainda há o caso dos clientes exigentes, aqueles que querem atendimento VIP. Então o Rio Grande do Sul quadruplicou a exportação de ‘gado em pé’. Vejamos que este é um eufemismo, entre muitos que nos ludibriam no dia-a-dia, e significa gado transportado vivo, em navios-currais, naqueles porões apertados, abafados e VIPs da maneira que podemos imaginar. Ou assistir no YouTube, quando der coragem.

Em Rio Grande, o porto recebeu o navio Kenoz, que buscou 8 mil ‘cabeças’ – alô eufemismo- e leva agora para Turquia e Jordânia. Antes, o turismo da morte tinha como destino o Líbano, que só aceita animais ‘inteiros’. Desta vez, são animais gordos e já castrados, prontinhos para o abate, que valem – sim, tudo na vida tem seu preço, baby – R$ 2,80 o quilo. Do outro lado do planeta, o pessoal fica esperando já com babador, segurando garfo e faca, como nos cartuns, e salivando pelos futuros churrascos. O chato é que ainda estão vivos, mugindo e cagando, mas quanto a isso o povo de Alá dá um jeito rapidinho.

O fato é que para ter o prazer de curtir a mastigação do começo até o final, desde olhar para um boi gaúcho, vindo do outro lado do mundo, até a puxada de descarga final, tem que encomendar o telegado vivo – ou dar a isso uma justificativa mágica, como ‘abate religioso halal’. A outra razão é o preço mais baixo, que compensa a vaigem de quase um mês. Então são dezenas de decks com as baias dos animais, que vão passar pela experiência de ‘ficar preso em um elevador’ por cerca de um mês, até chegar no Oriente Médio que segue salivando. Os bois que morrem no meio do caminho são sangrados e jogados no mar. Exceto no Estreito de Gibraltar, onde é proibido, então são mantidos no navio até chegar no seu ‘destino’. Um total de 2% dos animais embarcados empacota antes de ter a oportunidade de cagar e ter sua garganta cortada por uma cimitarra. E o cheiro de amônia, resultante dessa mistura de stress, milhares de animais fazendo ‘número 1’ e ‘número 2’, morte, sangue, pressão, tensão e enjôo, obriga todos a usarem máscara de proteção.

Então cabe aos animais nascerem para que uma planilha de Excel seja preenchida corretamente, e eles vão se prestar até mesmo a serem carga viva em tortuosas viagens intercontinentais, calor e frio e balanço e morte. A morte aqui e agora, ou lá longe, após um êxodo forçado, enchendo de bosta os portos, enchendo as páginas dos jornais domesticados – gado em pé, mas sentado em frente ao Word, e enchendo os bolsos de alguns poucos escolhidos por Alá.

Enquanto isso, os olhos piscam de quem está ali apenas por sua carcaça, vivo o tempo suficiente para a viagem final, o fluxo de sangue que une o RS aos 1001 desertos. A perda de peso – que também entra na planilha – de quem está suportando uma mostra da panela onde vai ser cozido, logo mais, pois há um mercado ávido de vida, com milhões de bocas salivando, e que exigem os caprichos de ver os estrangeiros de quatro patas antes do arroto final, vivos ou já meio zumbis. Não importa se houve dor, se haverá dor, se o confinamento maior é das idéias ou dos não-humanos escolhidos como comestíveis, entre tantos à disposição. Cabe ao homem dar os telefonemas certos, as ordens certas, espremer o gado vivo em um moedor de carne em formato de navio, que entrega lá longe o pré-churrasquinho pelo qual tanto salivam. E todos terão orgulho da exportação de morte, abençoada pelos deuses concorrentes, de continentes diferentes.

1 COMENTÁRIO

  1. Muito bom, o incrível é que halal é uma prescrição religiosa que existe pra tornar o abate mais humano, só que foi inventado muito séculos atrá e é hj integrado e adaptado ao capitalismo. E sabem qd os muçulmanos mais comem carne? Durante o Ramadan, qd precisam jejuar de dia. Novamente adaptando aos dias de hj, transformam um jejum espiritual num pretexto pra jantares repletos de sangue e morte.

  2. Faça a evolução, Prezado Marcio ainda bem que contamos com estas divulgações, é impossível não experimentar nenhum sentimento de indignidade, as sementes estão sendo plantadas e tenho certeza que cada vez será maior o alcance da ANDA. Mudando aquela velha opinião formada sobre tudo. Parabéns a todos os Obreiros da ANDA.

  3. E os pecuaristas rindo à toa, de orelha a orelha…e como são fortes na política nacional e a classe veterinária rindo à toa tb, é uma festa, quanto mais bois mais empregos pra eles…

  4. Fico imaginando como esses seres inocentes passam mal confinados nos poroes dos navios, eles tb sentem enjoos, sentem medo, enfim passam mal como no’s. Num passado, nao muito distante, humanos tb passaram por essas crueldades nos navios chamados de “Navios Negreiros” e a maioria dos “brancos” achava isso muito natural. Felizmente estamos neste mundo so’ de passagem, nada e’ para sempre, nem o sofrimento. (Marlene)

  5. “maria lucia parreira (20 de outubro de 2011, 20:05), disse:
    meu DEUS, que absurdo, que religião é essa, do capeta?”

    É a mesma coisa de religião que a sua e todas as outras: as que põe o ser humano em um patamar divino, “a imagem e semelhença de deus”, que teve todos os outros seres criados para sua satisfação… Alá, Jesus, Maome, Exu caveira… Todos a mesma coisa

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