Síndrome de Estocolmo


Um apego profundo vincula muitos humanos a certos animais. Esse apego geralmente se volta para animais de uma certa espécie. O que acontece a esses animais é de suma importância para aqueles humanos. Mas estes não se vinculam tão fortemente a animais de outras espécies, aos quais tudo pode acontecer, sem que lhes desperte sentimento algum de compaixão, ou mesmo a mínima curiosidade sobre o sofrimento deles.

Humanos, analogamente a todos os animais, têm preferências muito fortes. E, para tornar essa tendência ainda mais acentuada, humanos costumam “cultivar” ou alimentar suas fortes preferências. Quando uma sociedade inteira cultiva o mesmo tipo de preferências, geralmente ela a transmite às novas gerações. Assim, de uma para outra geração, “certas” preferências humanas, mas não outras, são passadas como valores, daí termos o termo “moral”. O especismo eletivo, a preferência humana por certos animais e a indiferença em relação a todos os outros, é um tipo de preferência cultivada pelos humanos. Ele também é uma das características centrais da “moralidade” vigente.

Na trama das interações entre humanos e animais, especialmente quando estes são os chamados “de estimação”, a lógica dessa preferência humana se mostra tão rígida para os humanos que a cultivam, quanto o é para os animais a ela submetidos. O limite do espaço concedido pelo ser humano ao “seu” animal de “estimação” é muito pequeno, comparado com o espaço que o animal teria, caso pudesse viver sua vida em liberdade. O que são quatro paredes, para a vida de um ser cuja natureza essencial é a liberdade de mover-se no ambiente apropriado à sua espécie, para autoprover-se e atender ao bem próprio dela? O que esse tipo de vida representa para sua mente, quando ele não a escolheu, mas foi de certo modo sequestrado até ela?

Os humanos que detêm animais em sua companhia apegam-se muito a eles. E, via de regra, justificam seu apego, explicando que esses animais confinados ao seu espaço também são muito apegados a eles. Não duvido de uma coisa, nem da outra. Acontece, no entanto, que, justamente por sermos dotados de uma mente, temos necessidade contínua de interação. O movimento nos impele a uma dança no espaço compartilhado por outros seres vivos. Precisamos dessa “dança” para manter nossa identidade corpórea. Mas a interação com outro ser vivo vai além do simples movimento. Ela é fonte de prazer. E esse sim, gera o tal do apego, que não deve ser confundido com amor.

Ao termos garantida a presença de outro ser vivo no espaço de nossa casa, quando regressamos da rua, somos tomados de imenso prazer. Ao termos de novo a presença de outro ser vivo que nos supre daquilo que precisamos para nos mantermos vivos ao longo do dia, quando esse ser volta da rua para casa, também sentimos imenso prazer. Por isso, o prazer do confinador e o prazer do confinado podem formar uma trama rígida, da qual nenhum dos dois consegue sair. Foi disso que tanto Aristóteles quanto Hegel trataram, quando elaboraram a teoria da relação senhor-escravo.

Uma relação conforme a descrita acima pode ser mesmo facilmente confundida com “amor”. Na “síndrome de Estocolmo”, termo criado pela psicologia para designar o apego que o sequestrado acaba por desenvolver pelo sequestrador, está clara a rigidez na qual relações absolutamente desiguais, quer dizer, relações nas quais um dos sujeitos detém o poder de decidir, para o bem e para o mal, o que será concedido ao outro, são estabelecidas. Essas são relações de dominação, porque o provimento é exercido absolutamente por um dos polos da relação. O outro, tendo lhe sido tirada a liberdade para fazer escolhas relativas ao próprio provimento, acaba por embotar-se mentalmente e sucumbe ao padrão provimento-dependência estabelecido pelo confinador. Um apego nasce dessa interação. O apego pode afetar ambos os sujeitos, pois, se o elo for quebrado, ambos terão que redefinir sua própria identidade. Sabemos que, na falta do outro, não há como fundar a própria identidade.

Mesmo profundamente “apegados” um ao outro, não há amor nesse tipo de relação. Em primeiro lugar, porque um dos sujeitos da relação é tratado como “objeto” do outro. Isso não quer dizer que o outro o maltrate, não! Ninguém, a não ser o bebê, destrói o seu brinquedo preferido. Mas um bebê o faz por mera curiosidade, porque espera, talvez, que o brinquedo se mova, que fale com ele, que se revele em seus mistérios. Porém adultos costumam ter muito zelo pelas coisas que compram para si, especialmente quando as cobiçaram por longo tempo até poderem adquiri-las. Em segundo lugar, porque o amor genuíno é ‘agape’, não ‘eros’. Enquanto ‘agape’ significa fazer o bem a alguém sem esperar qualquer consolo ou retribuição dele, incluindo o gozo de sua companhia, eros significa querer a presença contínua do outro para obter para si gratificações afetivas, emocionais ou de outra ordem qualquer. Em terceiro lugar, porque um dos dois sujeitos a esse tipo de relação não pôde fazer uma escolha ao ser lançado, enlaçado ou mesmo laçado à presença desse outro. As três palavras contêm um laço.

Muitos animais estão hoje na companhia de humanos, nas condições acima descritas. Raros são os que estão na companhia humana por escolha deles. Mas como saber se o animal está com alguém por escolha dele, quando ele não foi consultado no primeiro ato? Como saber se o animal continua a viver com essa pessoa porque assim o quer, se não podemos lhe perguntar sobre seus desejos mais profundos?

Se fizéssemos um teste, talvez essas questões recebessem respostas bem claras. Podemos pensar na hipótese, obviamente, de uma sociedade com garantia de que nenhum animal, nem humano nem não humano, no processo desse vestibular hipotético, do qual bilhões fariam parte, seria maltratado ou ficaria abandonado.

Imaginemos, então, que os “donos” de cães, por exemplo, os levassem para espaços abertos, naturais, e os soltassem por um dia, com os suprimentos básicos sendo oferecidos a eles. Ao final desse dia em completa liberdade, os “donos” passariam para “buscarem” os “seus” animais amados que também, presumidamente, tanto os amam. Quantos cães buscariam a companhia de seus humanos, ou desejariam a “volta para casa”? Imaginemos um teste desses prorrogado por uns dias, ou mesmo por umas semanas, sem que os animais, nesse intervalo, fossem maltratados. Garantida a comida, a água limpa, eles teriam liberdade para se juntarem aos que lhes fossem simpáticos, e formarem a “matilha de sua preferência”, seguindo sua mente e consciência caninas.

Bem, se alguém tem um animal em sua companhia e acha que esse animal não trocaria as quatro paredes, nas quais é obrigado a viver em confinamento, pela liberdade de mover-se entre os muitos (essa é a palavra grega que deu origem ao termo política) num ambiente natural, onde pode cavar buracos, curtir os cheiros da terra e outros aromas, e estabelecer vínculos sociais genuinamente caninos com outros de sua espécie, suspeito que tal certeza seja apenas resultado da fantasia humana, não da canina.

Volto ao ponto para finalizar. Se, numa interação, apenas uma das duas mentes decide o que é bom para a outra, esta atrofia. ‘Agape’, o amor que quer o bem próprio do outro, jamais quer que esse outro atrofie. Por isso, seria mais honesto se, em vez de dizermos que “amamos” muito os animais (temos ‘agape’), apenas disséssemos que “somos muito apegados a eles” (temos ‘eros’), reconhecendo, assim, que essa dependência que temos deles pode ser uma herança moral forte, mas, quem sabe, não tenha muito respaldo ético. Por fim, gostaria de lembrar que os brancos que mantinham escravizados os africanos, tinham também muito “apego”, senão a eles, mas com certeza aos bens que brotavam de seu trabalho. O mesmo podemos dizer dos homens, brancos e negros, que ainda hoje negam às mulheres e meninas a igualdade que julgam ser deles. Nem todos batem ou estupram-nas. Muitos têm sincero apego por elas, e justamente por isso não querem vê-las fora das quatro paredes, seguindo sua mente feminina genuína. Sem machucarem seus corpos, provendo “tudo” de que elas precisam, esses homens declaram que fazem isso porque as amam muito.


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