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Especialista defende necessidade de contagem de espécies

22 de agosto de 2011
7 min. de leitura
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O sol desponta nesta região montanhosa remota, em que fileiras perfeitas de pés de café cobrem várias encostas. O sol dos trópicos impregna a natureza com cor, revelando o que restou da floresta tropical nativa espalhada entre os cafezais. Porém, do outro lado desta paisagem rural bucólica, problemas podem surgir.

Um inseto africano, conhecido como broca-do-café, vem ameaçando as plantações da região. Os fazendeiros locais o chamam de ‘la broca’.

Gretchen Daily, é uma das pioneiras no esforço para proteger o meio ambiente. Foto: Reprodução/ IG

Nas primeiras horas da manhã, Gretchen Daily, professora de biologia da Universidade de Stanford, já está no trabalho de estudar este ecossistema complexo. Envolvidos pelo agradável canto dos pássaros, Daily e sua equipe estão conduzindo experimentos que demonstram a conexão essencial entre vida selvagem e vegetação. Dados preliminares de novos estudos sugerem que o consumo de insetos como a broca-do-café por pássaros e morcegos nativos contribui de maneira significativa com a produção de café.

Desde 1991, Daily, 46 anos, realizou diversas viagens a esta região da Costa Rica para conduzir um de seus estudos mais abrangentes sobre o nível populacional dos trópicos, a fim de monitorar alterações ecológicas de longo prazo.

“Nós estamos avaliando, de forma muito específica, em termos biofísicos e monetários, em dólar, quanto vale conservar a floresta e a vida selvagem que nela habita”, afirma ela.

Nos últimos anos, o enfoque de sua pesquisa passou a ser global. O esforço mundial crescente, em que a cientista é uma das pioneiras, tem por objetivo proteger o meio ambiente por meio da quantificação do capital natural – os bens e serviços da natureza, fundamentais para vida humana – e incorporar esses benefícios aos cálculos de empresas e governos. Seu trabalho obteve atenção internacional e lhe conferiu alguns dos mais cobiçados prêmios ambientais do mundo.

Em parte, o interesse da cientista pelo capital natural surgiu de uma pesquisa realizada na Costa Rica. Ela ficou fascinada com a inovadora iniciativa do governo conhecida como ‘pagamento por serviços ambientais’. O programa, iniciado nos anos 1990, consistia em pagar aos proprietários de terra para que mantivessem a mata nativa, sem cortá-la. A iniciativa contribuiu para uma redução significativa das taxas de desmatamento do país.

O programa costarriquenho serviu de inspiração para a cientista fundar, em colaboração com outras pessoas, o programa Natural Capital Project, em 2006.

O NatCap, como é conhecido nos Estados Unidos, é uma empresa de capital de risco liderada pela Universidade de Stanford, Universidade de Minnesota e duas das maiores organizações de conservação, a Nature Conservancy e a World Wildlife Fund. O objetivo do programa é modificar os métodos tradicionais de conservação ao incluir o valor dos ‘serviços ambientais’ para empresas, comunidade e nas decisões governamentais. Esses benefícios da natureza – como proteção contra enchentes, polinização de culturas e armazenamento de carbono – não fazem parte da tradicional equação econômica.

“Atualmente, não é possível estabelecer o preço da maioria dos serviços ambientais que apreciamos, como ar e água limpos”, afirmou Stephen Polasky, professor de economia ecológica e ambiental da Universidade de Minnesota.

Para Stephen, como as avaliações econômicas geralmente ignoram a natureza, o resultado pode ser a destruição dos ecossistemas sobre os quais a economia se apoia.

“Nosso sistema econômico valoriza a terra por duas razões principais”, afirmou Adam Davis, parceiro da Ecosystem Investment Partners, empresa que gerencia as propriedades de alta prioridade para a conservação. “Uma delas é a edificação e a outra o que se pode retirar da terra”.

“Neste momento, a floresta vale dinheiro se suas árvores forem cortadas”, afirmou Davis. “Nós medimos o valor em metro quadrado de tábua ou em toneladas de pasta de papel vendidas a uma fábrica de papel”. Segundo Davis, está faltando um impulso econômico de compensação para medir o valor de deixar intactos uma floresta ou outro ecossistema.

Desde cedo, Daily reconheceu que novas ferramentas seriam necessárias para quantificar os serviços da natureza. “Nós iniciamos desenvolvendo o programa chamado InVEST (sigla em inglês para avaliação integrada de serviços e compromissos com o ecossistema) com o intuito de descrever e avaliar os bens e serviços da natureza que são essenciais para os seres humanos”, afirmou.

O software – disponível para download gratuito – permite comparar vários cenários ecológicos. Qual é o custo real de drenar uma área de terra úmida ou retirar manguezais da linha costeira? A InVEST dá forma às compensações e ajuda os responsáveis pelas decisões a entender melhor as implicações de suas escolhas.

“O nosso sonho não é tentar capturar todo o valor dos serviços da natureza, porque isso é muito difícil”, afirma Daily. “Nosso objetivo é começar realizando progressos no processo de tomada de decisões, ao incluir ao menos alguns valores da natureza na equação econômica”.

O programa Natural Capital Project agora também opera na América Latina, África, Ásia, na região do Pacífico e na América do norte. Na China, a NatCap está trabalhando com o governo em um programa ambicioso com o intuito de proteger o capital natural.

Após o desmatamento ter causado inundações em uma vasta área em 1998, a governo concedeu US$ 100 milhões para transformar grandes áreas de terra fértil em florestas e campos. O governo está ampliando este bom resultado ajudando a desenvolver e testar o software do InVEST para implementar uma nova rede de áreas preservadas, projetada para atingir 25 por cento do país. As reservas contribuirão com o controle de enchentes, a irrigação, o abastecimento de água, a produção de energia hidroelétrica, além da estabilização da biodiversidade e do clima.

Em uma área do programa NatCap no Hawaí, a Escola Kamehameha, a maior proprietária privada de terras do estado, usou o InVEST para avaliar o uso futuro da terra em uma área de 10.520 hectares no litoral norte da ilha de Oahu. No passado, a propriedade era usada para aquicultura, produção agrícola e habitação. Após examinar as alternativas exibidas pelo InVEST, a Escola Kamehameha selecionou uma combinação variada de floresta e agricultura com o objetivo de melhorar a qualidade da água, capturar carbono e produzir receita.

Há cerca de sete meses, a Google.org, braço filantrópico da Google.com, revelou uma nova e eficiente ferramenta que permite, em escala global, realizar monitoramentos e medições de alterações ecológicas na terra.

Chamada de Google Earth Engine, possui uma coleção enorme de imagens de satélites da superfície terrestre. Agora, o programa NatCap está mudando o software do InVEST para a plataforma do Google Earth Engine.

“Neste momento, quando realizamos um projeto do NatCap ou usamos o InVEST, nós enviamos às pessoas para um país ou estado, e elas passam semanas acumulando dados e os colocando no formato apropriado”, afirmou Peter Kareiva, vice-presidente e cientista-chefe da Nature Conservancy. Segundo o especialista, o Google Earth Engine irá acelerar muito o processo de análise.

Segundo Luis Solorzano, diretor de programas de ciência ambiental da Fundação Gordon e Betty Moore, que trabalhou no Google Earth Engine, a nova ferramenta pode descrever tendências, permitindo aos cientistas prever características como fertilidade do solo, erosão e desmatamento. “É o tipo de ferramenta que os responsáveis por políticas precisam para tomar decisões bem informadas”, afirmou Solorzano.

Como o conceito de capital natural é antropocêntrico, as pessoas às vezes perguntam para Daily se, ao quantificar os serviços ambientais, corre-se o risco de ignorar o valor intrínseco da natureza ou de deixar passar despercebidos aspectos do mundo natural difíceis de serem avaliados, como benefícios estéticos e espirituais.

Ela reconhece que certos bens da natureza representam um desafio para a quantificação. “A beleza da abordagem do capital natural está no fato de ela deixar aspectos vastos e imensuráveis da natureza em seu próprio domínio, à medida que se foca, de forma bastante prática, nos benefícios ao meio ambiente que nós podemos e devemos incorporar nas nossas decisões”.

O estado precário do meio ambiente global preocupa Daily desde a adolescência, quando ela morou com a família na antiga Alemanha Ocidental.

Daily presenciou o poder destrutivo da chuva ácida nas florestas do país.

“Eu me dei conta de que queria ser cientista”, afirmou. Essa fascinação inicial pela natureza levou ao entusiasmo pela Costa Rica e isso, por sua vez, preparou o caminho para a liderança internacional na área do capital natural.

O trabalho de Daily assumiu uma urgência particular com a publicação da Avaliação dos Ecossistemas do Milênio, desenvolvida com o apoio da ONU. O relatório descobriu que mudanças recentes e rápidas, causadas pelos seres humanos, produziram uma “perda substancial e amplamente irreversível” na diversidade da vida na Terra e que dois terços dos ecossistemas do mundo estão definhando.

“A perda de biodiversidade da Terra é permanente”, afirma Daily. “Temos sido testemunhas dela. Nós precisamos transmitir, com evidências convincentes, o valor da natureza e o custo de perdê-la. É impressionante pensar que, até que o próximo asteroide atinja o planeta, é a humanidade que está decidindo o rumo futuro de toda a vida conhecida”.

Fonte: Último Segundo

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