Estou escrevendo sobre o sofrimento das fêmeas de outras espécies, exploradas para consumo humano. Então, os pés-de-galinha, aos quais o título dessa coluna se refere, não são aquelas ruguinhas que se formam ao redor dos olhos quando sorrimos… ou quando, para ser franca e direta, simplesmente, envelhecemos um pouquinho mais. São os pés das galinhas, mesmo!

Escrevi nas duas últimas colunas sobre o dever moral não apenas de não praticar o mal contra os animais, mas de reverter imediatamente a situação na qual o fazemos, recompondo as condições de vida para os animais violentados, a fim de que eles possam voltar a viver de acordo com o que sua natureza específica lhes concedeu ao nascerem na espécie na qual nasceram. Assim, antes de entrar em detalhes, quero dizer que o bem de cada animal é algo de grande valor para ele enquanto indivíduo, não apenas enquanto espécie. O sofrimento não é vivido pela espécie animal, e sim pelo indivíduo particular. Por isso, agir moralmente em relação aos animais requer a abolição completa de todos os costumes, aos quais nos mal-acostumamos, que causam dor, sofrimento, privação ou amputação de quaisquer elementos em suas vidas, dos ambientais aos emocionais, dos físicos aos nutricionais.

Falei na coluna, “O sono das galinhas”, da tortura infligida a elas no sistema industrial de produção de ovos, mas destaquei, por uma questão de limite do texto, apenas a privação de repouso que elas sofrem no confinamento completo. Para botarem ovos sem parar, as galinhas recebem luz artificial por até 22 horas por dia. Um tormento para o cérebro, porque não há descanso nem sono possíveis com o estímulo luminoso sobre os olhos indo direto para a hipófise. Hoje quero falar das atrocidades sofridas por elas, das feridas causadas em seus corpos em razão desse tipo de confinamento ao qual são condenadas.

Não bastasse isso, elas recebem alimentação aditivada, inapropriada para seu bem-estar, mas eficiente para acelerar o disparo hormonal que leva à produção de ovos sem parar. Sem poderem dormir, o estresse é contrabalançado com mais comida. Sabemos por experiência própria, que quanto mais se come mais se excreta. Então, imaginemos o que seria nossa vida, se tivéssemos que viver num edifício construído com o único propósito de não permitir que fugíssemos dele, e, se isso não bastasse, para cada um de nós fosse destinado apenas o espaço que o corpo ocupa sem estender qualquer membro, digamos, o espaço que ocupamos quando estamos sentados num banco ou numa cadeira. Não teríamos espaço para alongar as pernas, nem os braços. E, para se ter uma ideia ainda mais precisa, imaginemos que essa única posição que nos concederiam adotar, tivesse que ser mantida, por, digamos, uns 15 anos seguidos, findos os quais seríamos enviados para um abatedouro para que nos cortassem o pescoço e nos tirassem a pele, ou partissem em pedaços, vendidos a seres que adorassem comer essa carne.

Mas, voltemos aos galpões de confinamento das galinhas usadas para produção industrial de ovos. Elas recebem exatamente esse tanto de espaço para alojarem seus corpos. E ali são alojadas milhares de galinhas, no mesmo edifício, por dois ou três anos, o que equivale a uns 12 ou 15 anos de vida humana. Aos milhares, elas vivem assim, se a isso se pode chamar de vida. Comida é o que não falta. Luz nos olhos também não. É mais ou menos como se fôssemos condenados a ficarmos sentados numa fileira de humanos, cada um em sua cadeira, sem podermos esticar as pernas, abrir os braços ou caminhar, ainda que todos os movimentos fossem possíveis para nossos membros. O que nos seria amputado não seria o membro, mas o movimento, a liberdade física de ir e vir, de mover-se de acordo com o padrão da espécie na qual nascemos.

Bem, escrevi acima que comida não falta nesse sistema. Também o que não falta num lugar desses é excremento. Então, imaginemos que na condição de confinamento, nos dão comida de monte. Mas, dado que nos tiraram a liberdade de ir e vir, tudo o que comemos temos que descarregar ali mesmo, no lugar onde nos puseram sentados. Agora alguém pode questionar: se elas não podem sair para “ir ao banheiro”, e se essa quantidade de comida é mesmo imensa, para que ovulem sem parar, em poucos dias estariam afogadas na matéria expelida, não?

Isso não pode acontecer! Se elas se afogassem nos próprios excrementos o sistema de produção de ovos teria perdas imensas. Para evitar um dano desses, lá estão os profissionais habilitados para encontrarem soluções exequíveis. E foi assim que esses profissionais resolveram o problema da ameaça de afogamento das galinhas exploradas pela indústria dos ovos, em seus próprios excrementos. O espaço minúsculo das instalações nas quais as galinhas são forçadas a viverem têm uma solução simples: elas são colocadas sobre um piso vazado, tipo grade metálica. Sim. Ali podem ficar paradinhas o dia todo, por uns dois a três anos “apenas”, comendo de monte e excretando um monte, sem se afogarem nesse mar de resíduos. Os excrementos simplesmente deslizam pela grade para um nível abaixo delas.

Milhares de indivíduos comendo, bebendo água e excretando ao mesmo tempo, em galpões abarrotados, nos quais os excrementos não são tirados a não ser raramente, forma gás amônia, altamente nocivo para a saúde dos pulmões, não apenas das galinhas, mas igualmente dos trabalhadores que aparecem de vez em quando para catarem os ovos que elas põem. Com uma diferença: os operadores desse sistema maléfico não ficam sentados em seus postos por 10 a 15 anos, o equivalente humano ao tempo de vida das aves condenadas ao confinamento. Elas, ao contrário deles, não podem sair lá fora para respirarem um ar limpo.

Para finalizar esse ponto doloroso, vou agora falar de uma fonte de sofrimento a mais: por terem de se firmar sobre buracos da grade sobre a qual depositam seus corpos, nos pés das galinhas formam-se feridas. É como se nos obrigassem a sentar naquele espaço exíguo, sobre grades de metal cortante, forçando o peso do corpo incidir em certos pontos da pele e da carne, pois o modelo é o de grade, através da qual nossos excrementos devem passar para um nível abaixo do nosso corpo.

Passaríamos o dia (e a noite não dormida!) tentando encontrar um ponto de equilíbrio, um só ponto, que fosse, onde o peso do corpo pudesse ser alocado sem causar dor. Bem, em se tratando de uma base gradeada, isso seria humanamente impossível. Com as galinhas ocorre o mesmo. Elas buscam encontrar um ponto de apoio sobre esses espaços vazados, machucando-se cada vez mais, porque seus pés não são constituídos com uma base, ou seja lá o que pudesse servir de plataforma. Elas só têm dedos, cartilagens, um tipo de tecido anatomicamente inapropriado para oferecer conforto quando o peso do corpo é colocado sobre metais gradeados.

Sobre a pele machucada e não cicatrizada, novas feridas se formam. Tratamento veterinário não lhes é oferecido, porque a hora de um veterinário custa muito mais do que os ovos que uma galinha pode botar por essa hora. Não compensa para o produtor cuidar das feridas desses pés sofridos. O que acontece então? Sem receber tratamento, a ave busca mover os pés feridos o mínimo possível, porque cada movimento implica dor na pele lacerada. Mas, os tecidos lesados continuam vivos, e cumprem sua missão de renovar-se, multiplicar-se até fechar o ferimento. O que acontece quando nos cortamos? O tecido volta a crescer, não é mesmo? Pois isso é o que acontece ao tecido dos pés da galinha. Agora, imobilizada para não sentir dor e não lesar novos tecidos, a galinha fica ali, “curando” suas feridas nos pés.

Ocorre que, após dias nessa posição, quando seus pés estão tão feridos que não há mais qualquer movimento possível sem que uma dor lancinante ocorra, os tecidos voltam a crescer, envolvendo o metal sobre o qual o pé está fixado. Com a pele reconstituída junto com a grade de metal, o animal não pode mais tirar o pé do lugar. Sem poder mais tirar o pé do ponto onde a pele cresceu envolvendo a grade, a galinha mal pode esticar-se para alcançar a comida e a água que lhe são servidas no comedouro à sua frente. Dor, amputação do movimento, fome, infecção, e morte por inanição e desidratação. Essas são algumas das experiências pelas quais galinhas no sistema de produção industrial de ovos passam. E achamos que comer ovos e alimentos feitos a partir deles é defensável, porque não “matamos” a galinha. Bem, não matamos no ato, torturamos longamente antes de enviá-la para a degola. Se a galinha fosse poupada da morte em reconhecimento pelos ovos que foi forçada a “pôr”, ela comeria algo em torno de meia tonelada de milho no tempo restante de vida. Quem custearia essa meia tonelada de comida para que ela pudesse simplesmente viver, envelhecer e morrer em paz? Não há sistema de produção de ovos que seja eticamente defensável. Alguém realmente ainda se sente no direito de comer ovos?

19 COMENTÁRIOS

  1. Qualquer sistema industrial de criação de animais para consumo é cruel, incluindo aí os que não matam os bichos, mas os torturam com práticas que causam dores e incômodos constantes. Quem quiser mais informações a que tipo de situações os bichos são submetidos (além das que foram descritas acima), pode assistir aos vídeos “A Carne é Fraca” e “Terráqueos”, que podem ser encontrados no Youtube. O melhor seria mesmo que todos fôssemos veganos, mas, como estamos longe dessa realidade, segue a dica para os que ainda comem ovo: sugiro que comprem ovos caipiras de produtores confiáveis (como nem sempre esse tipo de produção é certificado, é melhor checar se o produtor é mesmo confiável). O ovo caipira é obtido de galinhas criadas em sistema extensivo (sem gaiola), e elas podem ciscar e fazer ninhos, além de serem alimentadas com produtos exclusivamente vegetais (complementando o texto acima: as galinhas de granja muitas vezes comem uma ração que leva restos de aves triturados – o resto daquilo que não serve para consumo humano, como ossos e pele). Namastê!

  2. Andrea,
    a sugestão de comer ovos caipiras parece logo à primeira vista uma boa solução para resolver o problema do sofrimento das galinhas e da falta de ética humana, mas, sinto muito, não é.

    Mesmo as galinhas “caipiras”, quando cessa a produção hormonal, são degoladas, porque não há produtor que as possa manter vivas quando não “servem para mais nada”…

    Elas servem para uma coisa maravilhosa, que é a experiência de estar na vida e cuidar de si de modo consciente. Mas, essa experiência não dá ao produtor “orgânico” lucro algum. Produtores de animais, sem exceção, visam todos um único fim: obter lucro com sua produção. Os orgânicos não são diferentes nesse quesito. Eles também querem obter lucros explorando os animais. Isso, por si só, já é algo moralmente indefensável: que alguém obtenha lucro escravizando seres vivos.

    Por outro lado, se os nutrientes presentes em ovos podem ser obtidos diretamente de fontes vegetais, por que acostumar nosso organismo a obtê-los dos ovos? Não há razão alguma para se defender isso.
    Finalmente, os nutrientes presentes em quaisquer ovos, destinam-se a uma finalidade só, que não é a de satisfazer o apetite humano: permitir o desenvolvimento do embrião para que um novo indivíduo daquela espécie possa nascer.
    Deixemos os ovos às aves. Temos mais do que precisamos para nos mantermos saudáveis.
    E, por fim, cuidado com a ilusão dos “ovos caipiras”. Esse rótulo, nos supermercados, nada mais indica do que a “marca” das galinhas que mais põem ovos. De modo algum, “ovo caipira” comprado em supermercados significa ovo de galinha feliz.
    E, insisto, ainda que fossem, ovos não são para nutrir humanos, são para nutrir embriões das espécies às quais eles pertencem.
    um abraço
    sonia t.

  3. Parabéns, Sônia, pelos textos sempre claros e certeiros!

    A insensibilidade das fêmeas humanas é a grande força da escravidão animal. Mulheres que se fingem cegas para não ver tanto sangue derramado de outras fêmeas. Basta o despertar das mulheres e jovens, e já teremos um novo mundo vegano!

    É o que sinto, quando vejo que a resistência ao veganismo já começa se enfraquecer. O respeito e a curiosidade pela opção vegana já começa a substituir as indesejáveis brincadeirinhas irônicas feitas pelos seres amigos, mas com coração de pedra.

  4. A única galinha ‘caipira’ feliz que não será explorada e cujos ovos serão (super) bem utilizados (já que farão justamente o que foram feitas para fazer: alimentar um pintinho) será a minha, quando eu tiver, que, com fé em Deus, só morrerá de velhice.
    P.S.: [/É só porque eu preciso alimentar meu ego.] Eu amo os animais e gostaria de ter, alguns deles, é claro, só para saber como é a convivência de cada um dos animais. Imagino que assim fique ainda mais dificil para um dia eu voltar a comer carne. (Afinal, não conseguimos nos imaginar fazendo um ensopado de cão ou moqueca de gato, certo?)

  5. Muito obrigada pelo artigo impecável, Sonia! É de um valor inestimável sua contribuição para a conscientização sobre as crueldades praticadas por esta indústria nefasta. Que o holocausto tenha seu fim. Um abraço e parabéns sempre pelos textos irretocáveis.

  6. Querida SÔNIA T. FELIPE,do modo como vc fala,só vejo um meio para abastecer a população de humanos no planeta TERRA,seria um controle populacional radical,esterilizando as pessoas férteis e para acelerar o programa dizimando vidas humanas com câmaras de gás e com a energia atômica,e sugiro aos veganos que sejam os primeiros à se apresentarem como voluntários,por serem tão preocupados com outras formas de vida,deixando assim de poluírem os rios com os excrementos de suas fezes e urinas vegetais,que também produzem uma amonia terrivel,com um enorme mau cheiro,e ai sim sobraria espaço para os que ficarem nesse mundo cruel,viverem com mais consciência ambiental,e tomarem cuidado também com os vegetais consumidos,pq a bactéria E-COLI,se hospeda nos vegetais,o que acham da sugestão quem será o primeiro?

  7. Edson,
    você merece o que escreve! Deve também merecer o que come! Me deixa fora de sua proposta facista!
    Tô noutra, mas você não teria capacidade para me entender, então já desisto de lhe explicar. Esqueça o que escrevo, não servirá jamais para o tipo de existência que você quer ter.

  8. Algo precisa ser feito, nessas criações COVARDES de galinhas!!!
    Acho meio surreal pensar que não podemos nunca mais consumir ovos…
    Então, nunca mais poderemos comer bolo?
    O que tem que ser feito, repito, é uma FISCALIZAÇÃO E UM CONTROLE RADICAL, no modo de como esas galinhas estão sendo criadas e vivendo nessas gaiolas horrorosas!!!
    Só de eler esse texto, me arrepio…
    MUITA MALDADE!!!

  9. Oi Sandra,
    São só algumas obras para resolver o seu problema.

    Cozinha Vegetariana – Bolos, de Caroline Bergerot (custa apenas R$ 9,00);
    Cozinhando sem Crueldade, de Ana Maria Curcelli;
    Lar Vegetariano, de Paulo e Ivonete Nakashima;
    Viver Vegetariano, de Laura Packer;
    Vegetarianismo: sustentando a vida, de Laura Packer;
    Lugar de Médico é na Cozinha, do Dr. Alberto Gonzalez Peribanez.

    Faça outros pratos que a recente tradição (e cultura) da morte diz precisar de ovos, além dos bolos é claro.

  10. O super inteligente comentário do senhor edson demonstra infelizmente a postura agressiva das pessoas que acham que podem comer aquilo que bem entendem e ninguém tem nada a ver com isso,realmente; sem comentários…todos que possuem alguma sensibilidade a respeito do problema devem se imbuir de imensa compaixão por essa sociedade de dragas comilonas que encaram seus sistemas digestivos como se fossem poços de ignorância ,apenas para satisfazerem seus apetites por prazeres ignóbeis ,que Deus tenha piedade dos seres humanos.

  11. Fui hipócrita e insensível por mais de 45 anos e só tornei-me vegetariana após uma separação litigiosa de um marido violento. Foi desta maneira que finalmente tornei-me vegetariana anos atrás pois percebi que se o meu próprio sofrimento era insuportável, o sofrimento dos animais é totalmente inadmissível. Quem me transformou em vegana foi a Professora Paula Brugger, de SC, pois enviei um e-mail a ela pedindo informação sobre o que eu poderia beber em lugar do leite de soja e ela respondeu minha mensagem ! A Professora Paula informou-me que havia leite feito de arroz fabricado na Itália, da marca La Finestra Sul Cielo que podemos comprar aqui no Brasil. Agora temos também leite feito de arroz ou de aveia da marca Jasmine, importado da Alemanha. Tornei-me vegana no ano passado e sinto-me muito bem. A única coisa que me impede de ser feliz é o fato de ver o quanto os animais sofrem. Enquanto não houver uma mudança radical nos hábitos da sociedade como um todo o mundo não terá paz, porque a lei do carma jamais falha e não devemos fazer a outro indivíduo (seja ele animal não humano ou animal humano) o que não desejamos a nós mesmos.

  12. wanda,
    você não precisa pagar o olho da cara por esses leites importados! Você pode fazer em casa, baratíssimo, os leites de arroz, de aveia, de soja não transgênica, de amêndoas, de castanhas, de semente de abóbora, de semente de gergelim, de semente de linhaça, de semente de girassol, até de inhame pode fazer o leite!