Olhar Literário - Laerte Levai

Uma escritora vegana

Dois anos depois do surgimento da ANDA e da presente coluna, que se propõe a lançar olhares sobre temas literários e congêneres relacionados aos direitos dos animais, é hora de...

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06/04/2011 às 14:48
Por Redação

Dois anos depois do surgimento da ANDA e da presente coluna, que se propõe a lançar olhares sobre temas literários e congêneres relacionados aos direitos dos animais, é hora de falar um pouco de “Humana Festa”, da premiada escritora Regina Rheda, livro esse que foi editado pela Record em 2008.  Trata-se do romance mais significativo que se lançou no Brasil a respeito da temática vegana, essencial para a compreensão da própria causa animalista.  A distância do tempo tem sempre a vantagem de permitir, ao analista, maior serenidade na reflexão. Talvez tenha sido por isso que me demorei tanto nessa resenha. Mas a conclusão a que chego, depois de conhecer um pouco da obra de Regina Rheda, mostra-se inquestionável: ela é, seguramente, uma das maiores expressões literárias da moderna literatura brasileira.

O professor de literatura comparada Earl E. Fitz, que leciona na Vanderbilt University/EUA, não exagerou ao colocar Regina Rheda como herdeira legítima do talento de escritores da estirpe de um Machado de Assis, de um Carlos Drummond ou de uma Clarice Lispector. Segundo ele, uma das características da então estreante autora de “Arca sem Noé – Histórias do Edifício Copan”, é o delicioso humor irônico, a sua visão particular de um Brasil imerso em um mundo globalizado. Neste primeiro livro, que logrou obter um cobiçado Prêmio Jabuti, em 1995, Regina Rheda fala, sob um contexto alegórico, da miséria humana que transbordava da torre de babel paulistana chamada Edifício Copan. Os contos que compõe essa singular obra, dentre eles “O mau vizinho” e “A menina dos gatos”, não apenas aplacam a saudade que se possa ter do dramaturgo Nélson Rodrigues, mas deixam os leitores, assim por dizer, um tanto quanto extasiados.

Depois da promissora estréia, Regina Rheda escreveu “Livro que vende”, “Pau de arara classe turística” e “Amor sem-vergonha”, depreendendo-se de sua literatura toques acentuadamente realistas e uma impressionante análise psicológica das personagens que cria. Isso sem falar no estilo de escrever que ela elegeu para si, bem simples, leve e espontâneo, do jeito que a vida deve ser e do modo como as pessoas são em meio às situações e vicissitudes cotidianas. O jornalista Bernardo Ajzenberg, da Folha, acertou ao afirmar que a linguagem de Rheda foge de clichês e carrega em descrições saborosas, sem nunca perder, é claro, o bom humor. Sobre “First World Third Class”, publicado por Regina Rheda nos EUA, Daphne Patai elogiou o engenho, a ironia, a paixão política e a sensibilidade cosmopolita da autora.

Não faz muito tempo, aqui no Brasil, que muita gente ligada à proteção animal conhecia Regina Rheda apenas por sua tradução do livro do filósofo Tom Regan, “Jaulas Vazias”, ou, mais recentemente, pela sua exclusividade em nos apresentar, em português, as reflexões críticas de Gary Francione.   Até que surgiu, enfim, o romance “Humana Festa”. A partir deste momento o público leitor – adepto da filosofia vegana e ativista pelos direitos animais, sobretudo – passou a contar com uma escritora que fala a sua língua, que traduz os seus anseios, que compartilha as suas aflições, que lhes apresenta idéias, que se solidariza, que se rebela, que grita, que ri, que chora. Basta passear pelas páginas de “Humana Festa” para se identificar com o idealismo de Megan e Sybil, para torcer o nariz diante do fazendeiro Bezerra Leitão, para se apiedar do destino de “Mortandela” ou para aplaudir a transformação de Diogo e sua coragem de romper com a tradição paterna.

A festa de Rheda é uma metáfora da própria natureza humana. Dessa gente que só pensa na carne no prato, desses empresários que só visam ao lucro, desses homens que só se preocupam com o prazer de sua cobrinha d´água, dessa multidão cega, surda e muda diante do sofrimento daqueles outros seres vivos, enfim, é uma dolorosa e ao mesmo tempo cômica metáfora de um mundo injusto e perverso. Temas fundamentais não passaram despercebidos na narrativa da autora: de um lado a indústria da exploração animal, os campos de concentração zootécnicos, a matança sempre insinuada, os divertimentos humanos cruéis, o devaneio científico que propõe a fabricação de carne de laboratório, a habitual tentativa de estigmatização/ridicularização da filosofia vegana etc.; de outro lado, a ética, a conscientização ambiental, a postura compassiva, a alimentação natural, o feminismo, a teoria dos direitos animais, o abolicionismo, dentre outros assuntos pra lá de intrigantes.  Não vou adiantar mais nada desse livro senão tiro o prazer da leitura àqueles que ainda não o conhecem. Fica aqui, portanto, apenas um breve aperitivo vegan…

Só mais duas palavrinhas, antes de encerrar, a respeito do estilo literário de Regina Rheda. Ela é uma escritora reflexiva, inspirada, maravilhosamente sutil e soberana no ofício de escrever. Basta passar os olhos por seus textos para chegar à mesma conclusão a que chegaram os jurados do Jabuti 1995. Uma escritora inquieta, que transita do norte para o sul e do sul para o norte, com fluência e otimismo, carregando na sua bagagem de viajante belas memórias e aprendizados. Uma escritora sempre atenta, que olha também para o leste, que se vira para o oeste, que sorri para a vida e respira as mesmas utopias que se impregnaram no peito daqueles que um dia, jovens de tudo, ousaram sonhar. E Regina Rheda ainda sonha. Se é pela arte, que seja. Se é pela militância, que seja. Se é pela literatura, que seja. Se é por um mundo melhor para todos, plantas, gente ou animais, que seja… Afinal, como teria dito aquele célebre poeta português que adorava contemplar o Tejo ao entardecer, tudo vale a pena quando a alma não é pequena.