O coelho que já não pula mais


Por Aleluia Heringer Lisboa Teixeira

Lá estão eles novamente invadindo meus pensamentos. Por detrás das grades de uma das centenas de celas de um galpão industrial lançam um olhar cinza e sem alegria. Apesar de se apresentarem nessas condições, eles são, paradoxalmente, o foco das atenções e ocupam todo o caderno Agropecuário do jornal Estado de Minas, do dia 18 de abril deste ano. Com o título “Coelhos vedetes da Páscoa”, é anunciado que “o preço do coelho vivo chega a triplicar nesta semana”.

No Mercado Central, em Belo Horizonte, um animal custa, normalmente, cerca de R$10. De hoje até domingo, esse valor pode saltar para até R$30. Festa para os pequenos produtores, responsáveis por grande parte das vendas dos coelhinhos de companhia nas lojas de animais.

Apossaram-se do coelho e o transformaram em mercadoria. Dentre as vantagens de se investir nesse “negócio”, está a possibilidade do “confinamento”, ou seja, acomodar muitos animais no mínimo de espaço. “Uma população grande pode ser criada em espaço pequeno e com necessidade de poucos funcionários”.

Coelhos apertados em pequenas gaiolas, sem a mínima condição de correr ou pular. Essa é uma imagem bem diferente daquela que cantava quando criança: “o coelhinho pula, sim pula, sim pula”. Quem pula agora é o lucro financeiro daqueles que investem nesse “negócio”.

O produto ou a mercadoria “coelho” vem dividido em subprodutos. Vivo ou morto, aproveita-se tudo.

O mercado de coelhos vai bem além do nicho voltado para a negociação dos animais vivos (de companhia). A produção e a venda da carne e pele voltam a despontar como alternativa de negócio rentável e com forte potencial.

Como “animal de companhia”, o coelhinho é o “fofinho”, inspiração para inúmeros bichinhos de pelúcia. Este é um dos motivos apontados na reportagem para a pouca tradição do brasileiro em comer a carne de coelho: “a maioria das pessoas tem dó de consumi-la”. Nesse ponto fica em evidência outra forma de classificar os animais, agora como “animal de carne”.

Segundo o criador de coelhos, Maurício Alves Moreira, os animais são criados em galpões, confinados em gaiolas suspensas. Com 80 dias de vida vão para o abate, com peso médio de 2,3 quilos. Chamo a atenção aqui para o fato de que um coelho saudável pode viver entre 5 e 10 anos. Comercializamos só a cabeça, coração, fígado e rim’’, afirma Moreira, proprietário do Sítio Fonte Galega, que conta com um abatedouro e toda a produção é vendida para frigoríficos do Mercado Central, em Belo Horizonte.

“Até o fim do ano quero abater 1 mil animais por mês e entrar também nas vendas dos supermercados’’, diz Moreira. O quilo do coelho é vendido pelo valor médio de R$14 aos frigoríficos. A pele do animal é congelada e comercializada para uma produtora de casacos. Cada unidade é vendida por R$2”.

Na sequência do ciclo que aproveita tudo do coelho, entra em cena Aloíse Lima, comerciante de peles de coelho há 25 anos e que, mensalmente, compra cerca de 2.000 unidades de fornecedores de Minas e São Paulo. Seus produtos incluem casacos, bolsas e cachecóis, e são vendidos em lojas de bairros sofisticados da capital e em shoppings, como o Diamond Mall.

Entre os seus clientes, grifes de peso, como Alphorria e Basic Blue. A comerciante fala da dificuldade em conseguir mão de obra qualificada para trabalhar a “mercadoria”: “a pele precisa ser cortada com estilete, no ar; não podemos apoiar na mesa. Se isso acontece, cortamos o pelo”.

A reportagem não trata de outra grande “utilidade” dos coelhos para os “humanos”, que consiste em usá-los em testes que medem a ação nociva dos ingredientes químicos, encontrados em produtos de limpeza e cosméticos. Tais ingredientes são aplicados diretamente nos olhos dos animais conscientes. Por ironia, seus olhos grandes facilitam a observação dos resultados.

Para evitar que arranquem seus próprios olhos (automutilação), os coelhos são imobilizados em suportes, de onde somente as suas cabeças se projetam. É comum seus olhos serem mantidos abertos permanentemente através de clipes de metal que seguram suas pálpebras. Durante o período do teste, os animais sofrem dor extrema uma vez que não estão anestesiados. A sessão de tortura não para por aí. Embora 72 horas geralmente sejam suficientes para a obtenção de resultados, a prova pode durar até 18 dias. Muitas vezes, usam-se os dois olhos de um mesmo coelho para diminuir custos. As reações observadas incluem processos inflamatórios das pálpebras e íris, úlceras, hemorragias ou mesmo cegueira. No final do teste os animais são mortos para que sejam averiguados, internamente, demais efeitos das substâncias experimentadas.

É o fim! Termino aqui estarrecida com tantos “exemplos” de humanidade e entendendo porque “a natureza geme com dores de parto”.

Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da Criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante”. Albert Schweitzer (Prêmio Nobel da Paz – 1958)


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