Desabafo das capivaras


Flávio Lamas
cmpda.flavio@hotmail.com

Até uns dois anos atrás, vivíamos tranquilas, andando para todos os lados e muita gente que passava até nos achava simpáticas, pelo jeito meio desengonçado, meio bonachão. Na verdade, somos tranquilas, não incomodamos ninguém, vivemos nossa vidinha pacata há milhares de anos. E nem precisamos de muita coisa: basta ter água e capim para formarmos um pequeno bando, procriar e viver em paz.

Tudo ia muito bem até que chegaram uns homens agitados. Olharam, ficaram nos observando, com cara muita séria. Alguns deles fizeram um cercado grande, com folhas de zinco e estacas de madeira. Outros confeccionaram uma gaiola de tela, com uma passagem no meio. Muito esquisito e por isso ficamos longe olhando, desconfiadas. Mas até que esses homens pareciam bonzinhos, porque colocaram comida lá dentro pra nós. Era restos de verduras e legumes, uma delícia.

O estranho é que eles colocavam a comida e iam embora. Devagar fomos perdendo o medo e entramos. No primeiro dia comemos e não aconteceu nada. Depois de um tempo veio a surpresa: estávamos lá dentro e, sem esperar, uma porta fechou. Fomos trancadas. Foi um desespero. Eles nos enganaram! Confiamos neles e acabamos presas dentro daquele cercadão, limitando nosso espaço e restringindo nossa vida.

Mas assim mesmo as coisas iam bem. Éramos umas 30 no começo. Algumas brigavam e se matavam. Outras morreram naturalmente. Agora somos pouco mais de 10. O que mudou foi nas últimas semanas. Parece que está um zum zum zum enorme na cidade. Dizem que estamos com uma bactéria perigosa para os seres humanos, por causa de carrapatos. Oras, nós sempre tivemos carrapato, como qualquer animal da natureza. Esses bichinhos são complicados mesmo! Incomodam, mas basta ficarmos deitadas ao sol para os passarinhos virem bicá-los e comê-los. É um jeito natural de resolver esse problema.

Acontece que o buchicho na cidade está demais. Já vieram muitas pessoas aqui tirar fotografias. E também cinegrafistas de televisão. Não temos TV por aqui, mas parece que somos muito comentadas e aparecemos em vários canais. Andam dizendo que provocamos a morte de três pessoas. Se é verdade, não sabemos e ninguém pode ter certeza. Até hoje não fomos examinadas por nenhum veterinário. Quando temos uma doença, não é bom tirar um pouco de sangue e fazer exame? Ué, ninguém fez!

Disseram que a Prefeitura quer nos ver mortas. Os funcionários municipais que nos prenderam não deviam ter cuidado de nós nesses dois anos? Pois não cuidaram. Ficamos aqui ao abandono, com o mato crescendo, uma sujeira enorme. Se tivessem jogado carrapaticidade, talvez tudo isso não tivesse acontecido.

Mas também tem gente boa lutando por nós. Não deve ser fácil pra eles enfrentarem as autoridades. Devem sofrer muita pressão. Sabe como é… muitos por falta de consciência e outros por ganância estão acabando com o meio ambiente, derrubando as florestas, exterminando o habitat dos animais. Eles não pensam no futuro. Todas essas ações inconsequentes serão cobradas um dia.

Os nossos defensores estão lutando, mas as armas estão acabando. Já fizeram protestos, deram queixa na polícia, entraram com processo na justiça. Mas parece que na Prefeitura os técnicos e os políticos não se sensibilizam. Fazem-se de surdos e já avisaram que estão decididos a nos matar. O nosso destino está por um fio e só pedimos aos humanos que se lembrem que nós – como eles — também somos passageiros neste planeta!


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