Saber cair, saber levantar


Quem fala demais pouco realiza. Basta observar para constatar que os mais propensos a emitir críticas são os que nada fazem. Para ser alvo de críticas e dedos apontados na sua cara, basta fazer algo. Tente fazer o bem, e veja quem realmente permanece ao seu lado.

Nesses dois anos e alguns meses de dedicação à causa animal, aprendi muita coisa sobre o comportamento humano.

Nos bastidores dessa importante e árdua tarefa de um contato contínuo com a sofrida realidade vivida pelos animais, caímos e levantamos diariamente. E é entre a dor e a ação que está esse lugar difícil: de onde nos brota uma força. De onde somos obrigados a renascer mais fortes para fazer o que precisa ser feito.

Gostaria que a união (união de verdade, aquela baseada na cooperação e na reciprocidade) fosse um valor mais cultivado entre os humanos.

A decepção que as pessoas vão deixando pelo caminho é algo com que devemos aprender a conviver. Indolência e falta de disciplina interior são as duas palavras que melhor definem a falsa “vontade de ajudar” das pessoas.

Se a minha fome é grande, não adianta me oferecer um livro de poesia. Se eu preciso de ajuda para não me afogar, palavras serão inúteis. Se for preciso erguer as mangas para ajudar alguém a carregar menos peso, não adianta olhar para o outro lado e fazer de conta que não está vendo.

Aprendi a derrubar minhas próprias convicções e a enxergar as pessoas além do que elas dizem ser. Veganas ou não veganas, o que importa acima de tudo é o caráter, a boa índole. É com isso que chegamos a outros patamares e nos tornamos seres ainda melhores. Ser um vegano sem escrúpulos também não tem valor algum – nem para os animais, nem para ninguém. Devemos respeito a tudo e a todos: aos animais, às pessoas dignas, à formidável natureza.

As pessoas, em geral, vivem para o que querem ver. No fundo, são movidas por seus próprios interesses e ajudam e fazem o que bem entendem de acordo com a vantagem e o ganho embutidos nas respectivas tarefas com que se comprometem.

Se eu me disponibilizo a ajudar, oferecendo meus talentos, meu tempo, minha dedicação, estou dizendo ao mundo que me chame. Então eu sou chamado e, na primeira oportunidade, abandono a tarefa para que fui chamado, descambando meu tempo para coisas mais importantes como ver televisão, ir para baladas e beber no boteco da esquina. É desta profundidade que é feita a “vontade de ajudar” da maioria dos humanos.

As pessoas querem ajudar até que surja o convite para a próxima festa ou a dor no joelho ou o famoso chulé do vizinho. Quando queremos um motivo, qualquer desculpa serve mesmo.

Ao se comprometer com uma tarefa – seja essa tarefa varrer o chão, escrever um texto ou lavar uma louça – devemos isso a nós mesmos. Ao se comprometer você distribui os tijolos de uma construção, você assume uma parte.

Pessoas pouco maduras têm problemas com a regularidade, com a auto-motivação – porque no fundo não têm a menor ideia do que estão fazendo, e ao final das contas acabam por prejudicar em vez de ajudar.

E a consequência disso são poucos carregando muitas toneladas. Fazer o bem é algo que precisa ser espalhado. Mas para colher o bem, é preciso plantá-lo. E para plantá-lo são necessários braços. Ideias, teorias e achismos poéticos todos têm de sobra, o que falta é atitude e mão na massa.

A cultura do trabalho voluntário no Brasil é ainda muito retrógrada. Fazer o bem com a naturalidade de quem ajuda alguém que precisa de socorro ou de quem doa o que já lhe transborda ainda é algo muito pouco cultivado neste país. Será que estamos criando uma juventude idiota, acostumada a pensar que a vida é estudar cartilhas e entrar na faculdade para depois fazer um estágio e arrumar um emprego e nada mais? Em que escola se ensina sobre a importância da união de forças? Onde é que nos ensinam a não sermos tão dispersos?

Mas eis que o contraponto vem com sua grandeza suave e nos salva novamente do abismo. Mesmo que às vezes não digamos nada, mesmo cansados, nós nos sentimos muito gratos por dentro. Por alguma ação que nos tenham feito, por algum solidário gesto, por uma palavra sincera na hora certa ou por uma força que nos levanta. Pelo que parece um milagre. Disso também são feitos nossos dias: de pequenas vitórias e de alguns sorrisos. De mãos que nos são dadas quando mais precisamos.

Felizmente para tudo existem as exceções – às quais agora eu devo toda minha gratidão. Às pessoas que corajosamente agem e que sabem da importância de sua presença. Não me refiro às que carregam os tijolos quando querem, mas às que sabem o quanto dói carregar tanto peso todos os dias, sem folga, sem pausa para descanso do corpo e da mente. A essas pessoas eu devo minha profunda admiração e respeito.

Nosso tempo é curto, muito curto para carregarmos tantos tijolos sozinhos. É tempo de unir esforços, talentos e sermos sinceros – assumindo para nossas vidas apenas o que realmente podemos realizar e dando cada passo de uma vez – com dignidade e consistência.

Se quer ajudar, então prepare toda sua alma, e esteja alerta, porque o chamado virá. Do contrário, peço encarecidamente que não atrapalhe quem se dispõe a fazer o bem. De falsas promessas o mundo já está cheio e de reclamações e palavras desprovidas de ações, também.


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