Participantes dissecam carneiros durante programa “Solitários”, exibido pelo SBT


Por Fernanda Franco  (da Redação)

Carneiros foram mortos e tiveram seus corpos pendurados para realização do programa "Solitários" (Imagem: Reprodução/SBT)

Às 23h15min desta quarta-feira (9) foi ao ar mais um polêmico episódio do programa “Solitários”, criado originalmente nos EUA, e exibido no Brasil pelo SBT, em formato adaptado.

Uma das provas do programa iniciou ao som da conhecida trilha usada no filme “Psicose”, enquanto os participantes eram inseridos em salas com um cadáver de carneiro pendurado. Isso significa que nove carneiros foram mortos para a realização dessa prova de absoluto mau gosto. O desafio proposto a cada participante era arrancar com as próprias mãos 3 kg das carcaças suspensas.

Uma das participantes ficou indignada com a prova e se recusou a cumpri-la. “Que judiação, que maldade”, afirmou Stephanie, mineira de 25 anos, com a voz embargada de horror ao ver o corpo do animal pendurado no meio da cabine. “Que cruel fazer uma prova dessa com o bichinho, tadinho”, disse a participante, muito emocionada. Ela começou a chorar e se negou a fazer a prova: “não quero fazer essa prova, eu não acho certo colocar um animal morto pendurado aqui pra gente tirar a carcaça dele…”, revoltou-se Stephanie. “Acho isso muito desumano”, completou a participante.

Stephanie fica em estado de choque diante do corpo do animal pendurado (Imagem: Reprodução/SBT)

A personagem Val, responsável pela apresentação e condução do programa, provoca a participante dizendo que não entende sua indignação com relação à prova. Stephanie responde, então: “isso é um absurdo: deixar um animal assim é muito cruel, ainda mais com a cabecinha virada para trás”.

Com exceção de Stephanie, todos cumpriram a prova com poucas dificuldades.

Em determinado momento do programa, Val perguntou à participante 1 (Stephanie) se ela usava couro. A participante ficou confusa, dizendo que sim, que usava artigos de couro, mas que não era obrigada a ver a realidade brutal por trás do que ela veste.

Apesar de afirmar usar couro, Stephanie declarou ao final da prova que é vegetariana e que não consome carne há algum tempo.

Já o participante André, 41 anos, vegetariano, não teve grandes dificuldades para cumprir o desafio e sentiu-se injustiçado ao saber que uma outra participante recusou-se a fazer a prova. Além de não se recusar a fazer a prova, André reprovou agressivamente a atitude de Stephanie, alegando que todos deveriam fazer o que é solicitado – independentemente do que fosse. O comportamento de André mostra que seu vegetarianismo não está ligado à compaixão pelos animais e que o prêmio de 50 mil reais, dado ao vencedor do programa, é o fator mais importante dentre os seus princípios.

Ao final da prova, foi servido a cada participante um bife supostamente feito a partir da carne obtida na prova do carneiro. Quem não quisesse comer a carne poderia optar por uma barra de cereal.

Além de Stephanie e André, recusou-se a comer o bife a participante Tatiana, de 28 anos. Apesar de adorar comer carne, Tatiana sentiu nojo do prato oferecido. Ao ser questionada por que se recusava a comer a carne, já que fazia isso todos os dias, a participante foi acusada de incoerência pela apresentadora Val. A jovem designer de moda ficou confusa e emitiu a seguinte resposta: “eu não sou contra comer carne vermelha, mas sim contra maltratar os bichinhos”, demonstrando não ter a mínima compreensão do que estava dizendo, já que a carne que ela adora comer todos os dias é feita a partir da tortura e do assassinato de seres inocentes.

Participantes expôem suas incoerências durante programa. À esquerda, André; à direita Tatiana (Imagem: Reprodução/SBT)

Retrato da sociedade

Ao mesmo tempo que o programa utiliza recursos cruéis e desnecessários com a evidente intenção de ganhar audiência, acidentalmente acaba por trazer à tona uma incongruência vivida por grande parte da nossa sociedade.

O quadro apresentado, em especial o dilema vivido por Stephanie e a contraditória postura de Tatiana, revela um triste retrato que é o fenômeno produzido pela indústria da exploração de animais, a que chamamos de dissociação.

Essa dissociação consiste em consumir o produto do sofrimento e da exploração de animais, sem conseguir associar os horrores vividos por eles para a obtenção desses mesmos bens de consumo.

Essa dissociação é fruto do condicionamento da mente humana a uma espécie de esquecimento, provocado, por sua vez, pelo distanciamento da cruel realidade a que são submetidos os animais torturados e mortos por essa mesma indústria.

Com o apoio de uma grande mídia voltada para as futilidades e não para formação de humanos dignos, e de uma lei pouco funcional no que se refere aos direitos animais, a indústria da exploração de animais segue com o extermínio de vidas inocentes, oferecendo os seus produtos cruéis a um público cego pelo condicionamento.

Muitas pessoas sentem afeição e compaixão por cães ou gatos, e no entanto consomem carne, leite ou ovos – todos produtos obtidos a partir do sofrimento de outras espécies de animais. Neste fato reside a prova da dissociação ou especismo: devemos compaixão apenas a algumas espécies e às outras, devemos apenas a nossa indiferença, passividade e crueldade.

Todos os animais são dotados de senciência, ou seja, todos sentem e sofrem da mesma forma que nós, humanos.

O programa “Solitários”, ainda que com uma intenção sensacionalista, funcionou como um espelho, expondo uma grande verdade a todos que quisessem ver: nossa sociedade vive de mentiras, tem atitudes incoerentes com seus discursos e está muito longe de ser pacífica e compassiva para com todos os seres vivos que habitam este planeta.

Mas não é preciso matar animais para fazer esse tipo de provocação. Existem formas mais inteligentes e éticas de ensinar as pessoas a verem a si mesmas – ou mesmo, de angariar audiência.

Para assistir ao vídeo do programa, acesse aqui.


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