Material didático de apoio (parte II)


Para apresentar os direitos animais e seu fundamento ético, o modo de vida vegano no ensino médio, divido o material didático em dois blocos.

O primeiro bloco é composto pelos filmes Matrix, A Ilha e Show de Truman e os documentários A Carne é Fraca, Não Matarás, Terráqueos e A Life Connected, além das edições da revista dos vegetarianos e artigos não-acadêmicos. Esse bloco é especificamente uma introdução a problemática dos direitos animais, portanto, utilizo-o na 1ª série do ensino médio, mas também na 2ª e 3ª séries, quando essas não foram minhas salas na 1ª série. Esse bloco aparentemente fechado não me impede de indicar constantemente obras de teóricos nacionais e estrangeiros da causa animalista.

O segundo bloco é composto por obras e artigos acadêmicos de teóricos dos direitos animais e obras filosóficas clássicas. Esse bloco é direcionado às turmas que estão iniciando um segundo ano de aulas comigo, pode ser 2ª ou 3ª séries.  Partindo do pressuposto, teórico, de que já tem uma base sobre a temática, o material utilizado nesse segundo bloco exige maior concentração e persistência no embate com os textos. Segue a divisão desse segundo bloco em bimestres.

No primeiro bimestre procuro apresentá-los um método de leitura e interpretação de textos filosóficos através tanto da lógica formal quanto da lógica dialética. O que se busca nesse bimestre é dar a base para o restante do ano, na leitura dos textos que virão. A proposta é que os alunos aprendam ao confrontar com um autor procurar na sua obra seus conceitos centrais; a quem ou qual tradição ele dirigi suas críticas; a qual teoria, tradição ou autor ele se filia; suas próprias concepções e propostas, e os alcances e limites de seu trabalho1.

No segundo bimestre, esperasse que as alunas coloquem em prática o método de leitura e interpretação de textos filosóficos introduzidos no bimestre anterior. Procuro a cada aula apresentar um ou dois (dos doze principais) critérios formais para que possamos afirmar que um raciocínio é ético e na sequência os conteúdos dessas formas. Para tal utilizo os textos “Sobre o Raciocínio Ético” dividido em sete partes de autoria de Luciano Carlos Cunha. Já no início do bimestre divido a sala em oito grupos para apresentarem um seminário no final deste. Cada grupo apresentará uma das oito partes que compõem o ensaio “Está tão na cara que é difícil de enxergar” do mestre Luciano Cunha já citado.

Já no terceiro bimestre, faço (ou pelo menos tento) uma leitura comentada do escrito “Resposta à pergunta: Que é ‘esclarecimento’?” do filósofo alemão Immanuel Kant. Aos alunos fica a questão: como esse texto kantiano pode ajudar a pensar os direitos animais e, seu fundamento ético, o modo de vida vegano? No encalço da resposta é fundamental a leitura do artigo “Ética na Alimentação: o fim da inocência” da eticista Sônia T. Felipe.  Também posso trabalhar (ou tentar) a conferência proferida por J-P Sartre no Club Maintnant em Paris intitulada “O Existencialismo é um Humanismo” em 1946, ficando a cargo dos alunos a leitura complementar da conferência proferida por Sonia Felipe no restaurante Vegethus em São Paulo em 2010, intitulada “A desanimalização do consumo humano: desafios da ética vegana” ou o seguinte artigo da mesma autora “Direitos animais: desdobramentos das pregas morais”; para responder a questão que ainda permanece: como esse acertar de contas de Sartre com os cristãos e os marxistas pode ajudar a pensar os direitos animais e, seu fundamento ético, o modo de vida vegano? Uma terceira opção seria uma leitura comentada da segunda e terceira seções da Fundamentação da Metafísica dos Costumes de Kant e aos alunos à leitura do trabalho crítico “Redefinindo a Comunidade Moral” também da eticista Sônia T. Felipe. Diferentemente das duas primeiras opções, essa terceira não busca elementos conceituais comparativos, mas uma demonstração racional e ética da urgente necessidade de expansão do círculo da comunidade moral fechado no reino dos fins, nos iguais.

No quarto bimestre, faço uma leitura comentada da primeira parte da trilogia “Somatofobia” de Sônia Felipe, e para as alunas que tem interesse peço a leitura das duas outras partes do texto e uma resenha. Uma outra proposta para se trabalhar nesse bimestre é uma leitura comparada de um trecho etológico da “Apologia de Raymond Sebond” de Montaigne com a obra Quando os Elefantes Choram de Jeffrey M. Masson e Susan McCarthy.
Nesse segundo bloco de material didático de apoio (na verdade nem um pouco didáticos), é fundamental a constante consulta à magnífica obra Direitos dos Animais: Fundamentação e Novas Perspectivas do professor Daniel B. Lourenço. Todo educador vegano deveria adotar essa obra, a mais completa introdução aos direitos animais em língua portuguesa, como leitura de cabeceira.

É bom que fique claro, em especial para quem não é do campo educacional (me refiro a quem não atua nesse campo), que tudo o que foi dito acima é uma proposta teórica de ação e trabalho pedagógicos (com toda a arbitrariedade que possa vir embutido).  Dentro da sala de aula, não digo dentro da escola, mas de uma única sala de aula onde temos aproximadamente 40 microcosmos, 40 indivíduos com suas particularidades, uns com muito, outros com pouco capital cultural, dentro dessa sala, mesmo com toda essa diversidade, consigo levar a cabo tudo o que relatei acima e na primeira parte deste texto2; em outra não consigo trabalhar 50% da proposta. Em uma sala cheia dou aula para cinco, em outra para vinte cinco, nunca para uma sala completa (com todos prestando atenção, um grande mito na educação pseudo-democrática), talvez por ser humanamente impossível (dentro das condições que me encontro, mesmo sendo considerado uma espécie de herói nos termos de Althusser), a não ser que eu me engane como muitos docentes fazem acreditando que falam para todos quando na verdade estão (deprimentemente) falando para as paredes. Essa é a triste realidade do ensino público brasileiro, mas é dentro desse descaso de boa parte dos alunos (o que psicanaliticamente tem sua razão de ser) que os direitos animais e o modo de vida vegano começam a despontar como conteúdo formal a ser desenvolvido.

É por isso que o engajamento político numa educação vegana formal exige disposição e coragem. O educador vegano deve ter consciência ao adotar o conteúdo programático animalista contido no material didático que apresentei que “qualquer texto de filosofia” como bem disse Luciano Cunha “é direcionado para quem já decidiu previamente que vai dar ouvidos à razão. Do contrário, não faz o menor sentido ler um texto de filosofia”.

Muitos docentes que querem adotar o veganismo em sala de aula dizem “como você consegue trabalhar isso que diz trabalhar se a juventude não dá a mínima para as aulas?”. Realmente é difícil dialogar com quem não “decidiu previamente dar ouvidos à razão”, são relutantes; percebi nos últimos anos que minhas aulas falam mais aos poucos damacenos. Às alunas relutantes fica a possibilidade de reflexão ulterior plantada pela didática da provocação. Voltando à questão “como consigo?” Simples, dando aula para quem quer aula. Não falo para seres inanimados, pois esses não podem mudar a triste realidade dos animais não-humanos, já que se encontram no mesmo estado de coisas que ainda se encontram os animais não-humanos.

O educador vegano não deve perder uma boa noite de sono por não conseguir passar o conteúdo programático para todos os alunos. Só se ensina a quem quer aprender. O objetivo da educação vegana, via esse conteúdo programático do segundo bloco de material didático, não é impor o veganismo de cima para baixo, autoritariamente, nem obrigar o discente a tornar-se ativista dos direitos animais, mas despertar para uma nova consciência, “para ver e mudar nosso mundo”; é resgatar um tão importante componente da animalidade, a empatia; e não menos, desenvolver o raciocínio ético. O objetivo da educação vegana é dissolver nosso status secular de “superanimal” expressado nesse gélido aforismo, mas verdadeiro, como toda mensagem que traz a verdade embutida:

“A besta que existe em nós quer ser enganada; a moral é mentira necessária, para não sermos por ela dilacerados. Sem os erros que se acham nas suposições da moral, o homem teria permanecido animal. Mas assim ele se tomou por algo mais elevado, impondo-se leis mais severas. Por isso ele tem ódio aos estágios que ficaram mais próximos da animalidade: de onde se pode explicar o antigo desprezo pelo escravo, como sendo um não-humano, uma coisa”3.

Tarefa fácil da educação vegana?  Des-superanimalizar o humano? Acredito que não.

Mas ninguém acredita que educar seja fácil. Pelo menos em sã consciência, não. Todo processo de inculcação e incorporação de um habitus é longo e cotidiano. Quando se trata de educação vegana formal o trabalho é mais árduo ainda, mas o primeiro passo já demos, e como disse Thoreau, se é bem feito fica para posteridade.

Notas

1.    Agradeço à professora Sônia T. Felipe pelo método de leitura e interpretação de textos filosóficos.
2.    Cf. https://www.anda.jor.br/2010/12/13/material-didatico-de-apoio/ onde está o primeiro bloco do material didático de apoio.
3.    NIETZSCHE, F. Humano, demasiado humano. Um livro para espíritos livres. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 49.


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