Comentário

Devemos salvar baleias de papel, baleias virtuais ou baleias reais?

Comentário por Capitão Paul Watson
Traduzido por Raquel Soldera (do ISSB)

Como co-fundador do Greenpeace, estou um pouco preocupado de que a liderança atual do Greenpeace esteja perdendo a noção da realidade. O Greenpeace não enviará seus navios para o Oceano Antártico para defender as baleias. Em vez disso, eles agora têm um jogo onde as baleias podem ser salvas virtualmente. Por que percorrer todo o caminho remoto, frio e hostil para o litoral da Antártida, quando você pode salvar as baleias na sua sala de estar  jogando o “Greenpeace Salve as Baleias”?

Aliás, se você fizer uma doação para o Greenpeace, o mesmo enviará ao presidente Barack Obama uma baleia de origami em seu nome.

Este é o último apelo do Greenpeace:

“Trinta e cinco anos atrás, o Greenpeace se tornou a primeira organização a enfrentar as frotas de caça comercial de baleias em alto mar”.

Mas o que eles estão fazendo agora é isto:

“Se você doar hoje, a equipe do Greenpeace também vai entregar uma baleia origami com o seu nome à Casa Branca. E nós vamos garantir que todo mundo veja o seu apoio ao compartilhar as imagens das baleias de origami em todo o mundo”.

John Hocevar, Diretor de Campanhas de Oceano do Greenpeace

John Hocevar tinha apenas 4 anos de idade quando Bob Hunter e eu fomos os primeiros a nos colocar entre oito cachalotes fugindo e um arpão soviético. Todas as pessoas que estiveram conosco nesse dia não fazem mais parte do Greenpeace. Então John, podemos dizer que o Greenpeace foi a primeira organização a enfrentar a caça comercial, mas posso dizer que eu e meus companheiros fomos os primeiros a fazer isso e, por isso, porque vimos as baleias morrerem na nossa frente, e porque nós quase morremos naquele dia, nós ainda permanecemos firmemente presos à realidade da caça de baleias.

É por estas razões que eu fico irritado com a banalização do que fizemos, e aquilo que temos feito há três décadas e meia. Para nós as Baleias não são uma abstração!

Um par de anos atrás, John Hocevar também escreveu:

“Estou ansioso para um Dia Mundial dos Oceanos, onde eu possa tomar uma cerveja e relaxar, sabendo que os oceanos estão bem. Espero sinceramente que isso não implique uma viagem no tempo ou uma viagem intergaláctica”.

Não, para John implica em jogos virtuais e baleias de origami.

Agora por que isso me perturba? Porque a Sea Shepherd está enviando três navios e 88 voluntários até o Oceano Antártico, neste exato momento. Estamos aqui agora, esperando os assassinos e prontos para defendermos os inocentes. Nós não estaremos em casa no Natal, não vamos entrar no Ano Novo com os nossos amigos e familiares, e não vamos jogar o videogame ‘’salve as baleias’ caçando baleeiros virtuais em uma tela de computador.

Nós não gastamos dinheiro em massivos apelos de mala direta e não pagamos pessoas para ficarem nas ruas de todas as grandes cidades do mundo pedindo dinheiro. Os fundos da Sea Shepherd são gastos em campanhas, porque eu descobri há muitos anos que existem dois tipos de organizações: aquelas que agem e aquelas que enviam e-mails!

O Greenpeace foi uma organização que agia, em seus navios e no campo, sendo eficaz, salvando as baleias da morte! Agora é uma organização de envio de e-mails, uma organização representativa, nos escritórios, recolhendo o dinheiro, e fazendo baleias de origami!

Enquanto o Greenpeace faz isso, e enquanto John relaxa com sua cerveja, nós somos os caçadores reais de navios baleeiros em tempo real. Este é o sétimo ano que passamos o final do ano defendendo as baleias na parte inferior do planeta. Nossos navios custam dinheiro e não temos o suficiente para andar por aí. Nós lutamos para conseguir combustível para nossos navios e mantimentos para os voluntários. O Greenpeace, por outro lado, tem uma máquina de arrecadação muito eficaz conseguindo dezenas de milhões de dólares para “salvar as baleias”.

E o que eles estão fazendo? Enviando baleias de papel origami para o presidente dos Estados Unidos! Não é o primeiro-ministro do Japão, ou o Imperador do Japão, ou os primeiros-ministros da Islândia, Noruega ou Dinamarca, mas para o presidente de um país que já se opõe à caça comercial de baleias e não se envolve em caça comercial de baleias!

O que está errado com este retrato? A resposta é uma total desconexão com a realidade. Trata-se do Greenpeace aproveitando a oportunidade de conseguir grandes contribuições para uma despesa muito pequena. Por que gastar centenas de milhares de dólares em combustível e provisões, equipamento e despesas, quando você pode alugar alguma casa para enviar mala direta e baleias de papel origami para o Presidente?

Eu posso apenas imaginar o presidente dos Estados Unidos pegando o telefone e dizendo: “Oi Naoto, me desculpe, mas você poderia dar um jeito em seu baleeiros irritantes e seus assassinos de golfinhos nojentos, por favor. Estou ficando absolutamente inundado com estes origamis, e, francamente Sr. Primeiro-Ministro, algo tem que ser feito sobre isso. Sim, eu sei que eu não posso te dizer o que fazer, Naoto, mas o Greenpeace me disse que eu tenho que lhe dizer para parar a matança de baleias e golfinhos, porque eles não gostam da Sea Shepherd dizendo a você o que fazer e bloqueando seus navios, e eles dizem que se eu não convencê-lo a parar a matança, eles vão me mandar mais desses origamis irritantes, e se eles fizerem isso o Al Gore vai me encher o saco por causa de toda essa papelada desperdiçada e eu não preciso disso, Naoto”.

A Sea Shepherd tem uma equipe em Taiji, no Japão, desde o início de setembro, e vamos permanecer ali durante toda a temporada de abate de golfinhos, até o final de março. O Greenpeace nunca colocou os pés em Taiji para se opor à morte de golfinhos, e cita os massacres como “tradicionais”. A Sea Shepherd tem ido nas ilhas Galápagos desde 1999, trabalhando com os guardas para intervir contra a caça e a matança de tubarões. O Greenpeace nunca se envolveu nesta questão. O Greenpeace também não está fazendo nada para salvar as focas ou parar a pesca ilegal. O Greenpeace também não está aqui no Oceano Antártico, onde a matança das baleias pode começar logo na próxima semana. Eles têm navios. Eles têm os recursos, mas eles estão ocupados demais fazendo passeios de angariação de fundos ou pendurando banners em algum lugar.

Eu disse a eles que poderíamos usar a sua ajuda. Eu disse a eles que iríamos cooperar com eles e lhes dar as coordenadas dos baleeiros uma vez que fossem localizados, mas eles se recusam a responder. Eles nem sequer me enviaram uma daquelas baleias origami para me acalmar, o que achei que eles iriam fazer, considerando que eles acreditam que as baleias origami vão convencer o presidente dos Estados Unidos a tomar medidas contra o Japão.

Não, eles não querem que você faça uma doação para financiar um navio e uma tripulação para intervir contra os baleeiros, mas com a sua doação você irá obter uma baleia de papel origami com seu nome, enviada ao presidente dos Estados Unidos.

Tudo o que sei é que estou em um navio no Oceano Austral e o mar está batendo no nosso navio enquanto eu escrevo isso com minha cadeira deslizando para trás e para frente. O vento uiva lá fora e o granizo desliza pelos vãos. Enquanto isso, em algum lugar aqui perto, a frota baleeira japonesa está se dirigindo para o Santuário de Baleias do Oceano Antártico, com a intenção de matar mais de mil baleias.

E onde está John? Relaxando com uma cerveja, provavelmente após a festa de Natal muito custosa do Greenpeace. E no dia de Natal, enquanto ele corta um pedaço de peru e coloca algumas colheres de recheio em seu prato, ele irá sorrir e agradecer por poder estar em casa comemorando com sua família, porque o Greenpeace substituiu os navios reais e a verdadeira paixão por videogames e origami.

Muito bem John! Muito bem mesmo!

10 COMENTÁRIOS

  1. Sinceramente, nao sei o q pensar! Pra mim o Greenpeace era uma organização ATIVA e ia a luta ”CORPO A CORPO”, mas agora nao sei… Meu Deus, nao seria mais facil unir forças: o Greenpeace e a Sea Sheperd se unirem para lutar juntos?
    Não sei o q pensar agora…

  2. Se organizações ambientalistas com a visibilidade do Greenpeace utilizassem seu prestígio para apoiar e defender de fato os direitos dos animais, certamente estaríamos em um outro patamar nesta luta. Este “chacoalhão” dado pelo Paul Watson é mais do que merecido.

  3. Concordo, o Greenpeace ta bem caido e precisa agir se não vai acabar ficando só na memória das pessoas, até as ongs mais novas e que não recebem tanto apoio estão fazendo bem mais, não adianta ter um site e uma carinha bonita, é preciso agir!!!

  4. O greenpeace é hipócrita, eu já sabia disso, outro dia estavam na praça da liberdade pedindo doações, que você ganha uma revistinha, e só…Tudo para que? para eles não defenderem os golfinhos, focas, baleias e tubarões, só para mandar uma baleia de papel pro Barack Obama.

  5. Paul Watson otima bronca no greenpeace e naõ é qualquer um que tem sua coragem sair em mar aberto sem saber se vai voltar meus parabens Paul watson voce e brigitte bardot saõ meus idolos.

  6. A MAIORIA das organizações ambientalistas se tornaram organizações riquíssimas e quanto mais ricas ficam, menos fazem pelo Planeta.
    A RAZÃO é muito simples, eles trabalham na divulgação da idéia de que o homem não pode estragar o “seu patrimônio”, que é a Terra.
    O HOMEM precisa pensar nos outros homens que nascerão no futuro, eles também têm direito de consumir a Terra.
    NÃO podemos acabar com as espécies, porque os seres humanos merecem “ver”o animais e as plantas.
    PRECISAMOS conservar a Terra, porque “se souber USAR não vai faltar”.
    A GESTÃO das ONGs ambientalistas também tem uma cara bem empresarial, usa muito os conceitos de “sustentabilidade”, “viabilidade”, “otimização”, “reengenharia”!
    SÃO VERADEIRAS instituições de lucratividade.
    ESTAS organizações apenas não têm ÉTICA.

  7. CLAUDIA MOSCHINI, o Barack deveria enfiar as baleinhas de origami, mas o pessoal do green peace também.
    COMBINEMOS uma coisa, como crianças às vezes lêm a ANDA, não vamos falar onde.
    OBSERVEMOS uma coisa muito importante, os voluntários do Sea Shipherd e o próprio Watson são vegetarianos.
    AÍ já começa toda a diferença.

  8. Não há dúvidas que Paul Watson é um ativista comprometido com sua causa. Mas é um ativista à moda antiga – o que vale dizer tanto para o bem qto para o mal, afinal ele radicaliza o seu discurso ao ponto de querer tornar o seu modo de
    pensar como o unicamente eficaz e verdadeiro. Com isso ele ironiza o modo como o Greenpeace atua, rechaçando os e-mails que a organização promove e que são sim uma forma eficaz de pressão popular. Isso mesmo, de pressão popular, porque afinal conclama à participação geral. Nesse caso já não é mais “meia-dúzia” de destemidos, porém solitários homens à dar murros em ponta de faca para uma audiência zero. É a “opinião pública” conscientizada e participativa – o que aos olhos de qualquer político pode ser tão devastador quanto a tomada da Bastilha.
    É o que chamam de ciberativismo. Ciberativismo aliás de inúmeras demonstrações de força e eficácia nos embates pelo mundo afora.
    Vide, por exemplo, na organização e divulgação pelo povo iraniano, cerceado dos seus direitos mais elementares dos conflitos pós-eleições 2009 naquele país. Se mudanças mais significativas não aconteceram, conseguiram no entanto levar para o mundo imagens de uma realidade que os aiatolás desejariam esconder.

    Que as ações da Sea Shepperd sejam dignas de consideração, tudo bem. Eu concordo. Mas se elas salvam baleias no momento de sua intervenção, igualmente não lhes garante a continuidade no momento em que tiverem que voltar prá casa.
    É como querer enxugar gelo com um pano. Ao final não passam de ações paliativas, sem intervenção
    direta nas causas do problema.

    A garantia de sobrevivência das baleias está à milhares de quilometros do local de embate desses infelizes navios baleeiros com os abnegados e “sem noite de natal” dos ativistas desta ou aquela organização.
    Na verdade está na ponta das canetas dos homens que lideram o poder no mundo. O alvo são eles e convenhamos os tempos são outros, também, prá se achar que tudo se resolve no olho-por-olho dente-por-dente…Ainda que a causa seja justa e legal.

    Quanto ao não reconhecimento do Paul Watson como um dos fundadores do Greenpeace, só posso dizer que é vergonhoso. Divergências ideológicas, não podem ser contaminadas por mesquinharias pessoais – e isso vale prá ambos os lados, afinal o discurso de ambos os lados está contaminado pelo ranço do ego ferido.
    Cada qual deve escolher a forma como considera a mais correta de atuação e ponto.

  9. Para comentar a opinião de alguém que diz:
    “…OBSERVEMOS uma coisa muito importante, os voluntários do Sea Shepherd e o próprio Watson são vegetarianos”.
    O que concluí “…AÍ já começa toda a diferença”.

    Ora, não tem diferença nenhuma aí. A questão não é de cardápio, mas de defesa de uma espécie ameaçada por uma ação predatória. Ninguém precisa deixar de comer “galinha” ou qualquer outro animal de criação para se colocar contra a caça predatória. Esse é o foco.
    Opiniões desse tipo já demonstra o viés preconceituoso e desvirtuado de parte dos que opinam à respeito. Já não bastasse a maneira grosseira e “infantilóide” com que sugere o Obama e o pessoal da tal ONG a fazer com os tais origamis.
    Além de não acrescentar nada, ainda ocupa tempo dos que ainda acreditam que vão encontrar no mínimo uma opinião pertinente à cada texto, mesmo que discordante da sua.

    Só posso dizer que sinto pelo site e pelos leitores verdadeiramente sérios.
    Depois não reclame se não te levam à sério na vida!

    É claro que no final das contas ninguém leva esse tipo de gente à sério. Depois acha ruim.

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