Reflexão sobre a covardia praticada contra a fox paulistinha que foi queimada viva


Por Mário Sérgio de Moraes

Não me choco facilmente com notícias. Chacinas, homofobias, invasões de morros etc. estão na ordem (ou desordem?) do dia. Sobrevivo cru diante delas, protestando. Mas na terça feira (MN, 7/12) fiquei “quebrado” com este fato: três rapazes, no sábado passado, às 14 horas, desceram de um carro Uno. Em frente ao prédio do INSS. Com um cachorrinho da raça Fox Paulistinha, molhado em álcool (leia aqui a matéria que foi publicada na ANDA). E o incendiaram. Em seguida, entraram no veículo e saíram velozmente. Uma das pessoas, José Roberto de Almeida, que socorreu o animal disse: “Nunca vi um animal urrar daquele jeito”.

Que a crueldade tenha sido praticada por jovens é alarmante. Em plena luz do dia é assustador. No centro da cidade, perto do Corpo de Bombeiros, é desafiador. Num sábado, dia de descanso, é pior. Como terror premeditado, no cãozinho já ensopado, é chocante. Na crueldade sobre um ser miúdo – imagem do puro afeto – é insuportável. Pela pressa existe a confissão do crime. Daí constato: a cultura humana é uma película muita fina, frágil, e não detém a selvageria. Que é um atributo humano. Nunca dos animais. Que tristeza…

Mas em pedaços – não sei qualificar o sentimento -ouço aquele ganido. De um ser indefeso. Contorcendo no fogo. E seu gemido estilhaçado. Que sofreu um escalpo na alma. Daí pergunto: uivos de socorro para quem? Não sei… Talvez, os deuses estejam loucos! Ou, ao contrário, estamos narcotizados pela fumaça da nossa escuridão. Paralisados e surdos como zumbis. Ao matadouro? Também não sei…

Mas, chocado, percebo que nosso instinto de morte está nos deliciando. De uma dor, algo suicida, mas que imaginamos ser apenas do outro. E se é do outro, alguns dizem: “que tudo se f…”. Exemplos: cenas incendiárias sobre índios, indigentes, matas, favelas (está do outro lado do mapa, não?) e, agora, numa mulher mogiana: Mara Barbosa. Numa submanchete do MN (9/12): “Mais uma”. A evidenciar que nos alimentamos (daí a aceitação!) destas aberrações. Não é bom com um sanduíche, vendo televisão, na hora do jantar?

A minha esperança são as crianças. Só a criança entende que nenhum cachorrinho do mundo será igual ao seu. Que morreu. E lembrei-me, para meu consolo, de um bálsamo poético. Que diria para meu neto, Mateus, que está para nascer. E vai herdar este mundo deserdado. São versos de Carlos Drummond de Andrade: “Vamos, não chores/ Não possuis casa, navio, terra/ Mas tens um cão/ A injustiça não se resolve/ A sombra do mundo errado/ Estás nu na areia, no vento…/Mas tens um cão”. E complementaria (desculpe-me o Drummond): E que este Foz Paulistinha/ acorde meu neto/ filhote da paz.

Mário Sérgio de Moraes é historiador e professor de Cultura Brasileira

Fonte: Mogi News


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