Pulsar - Cecília Valentim

O canto do sabiá, os sons da cidade e da floresta

Todos os dias há cerca de um mês e meio, um sabiá canta na minha janela ao amanhecer. Acordo e, bem quieta, como se ainda estivesse dormindo, me deixo envolver...

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01/11/2010 às 11:15
Por Redação

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Todos os dias há cerca de um mês e meio, um sabiá canta na minha janela ao amanhecer. Acordo e, bem quieta, como se ainda estivesse dormindo, me deixo envolver pelo seu canto. Sinto-me privilegiada por acordar dessa maneira em uma cidade como São Paulo. No meu silêncio e no canto do sabiá, começo a ouvir o ruído branco da cidade, lembrando que é hora de levantar.

O ruído branco, resultado de uma combinação de sons de todas as frequências que se somam e envolve a cidade, aumenta de intensidade a cada dia. Quando a intensidade é baixa e é gerado por frequências naturais, como o som do mar, o ruído branco pode ser relaxante, mas, em uma intensidade maior, cria em nós um estado de tensão e estresse que, sem que percebamos, nos põem para funcionar. O sabiá, o silêncio, o sensível, desaparecem.

Na sua caminhada, os humanos foram se desligando da paisagem sonora natural e se ligando na tomada da paisagem sonora urbana, onde não há espaço para o silêncio e o ouvir. Os ruídos de fora se tornam os ruídos de dentro. Escutar-se é doloroso.

Aqui, no espaço dessa coluna, a intenção é possibilitar a escuta da música que acontece o tempo todo em nós e ao nosso redor, questionar a paisagem sonora que geramos, constituímos, vivemos e vibramos, levantar as questões sobre os efeitos do som e da música no comportamento humano e em outros animais, para o bem e para o mal: nas últimas décadas,várias espécies, principalmente pássaros, foram expulsos ou extintos por conta do barulho criado pelos humanos, que invadiu seus habitats.

Agora é quase noite, o sabiá silenciou. Escuto um cachorro ao longe, um avião passando, uma moto próxima, um helicóptero, carros em uma avenida distante, o ventilador do computador, vozes. Um tanto saudosista, sinto falta do sino da igreja, das crianças na rua, do canto do riacho e, principalmente, dos grilos e seres da noite que constituíram a trilha sonora afetiva da minha infância nessa mesma cidade.

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