A ideia de Deus


Há pouco mais de um século, na cidade do Porto, o filósofo português José Pereira de Sampaio {1857- 1915} – que tinha adotado  o sobrenome literário Bruno, em homenagem ao mártir Giordano Bruno – trouxe a lume um livro instigante: A ideia de Deus. Nessa época, Portugal ainda vivia sob regime monárquico e Sampaio Bruno, conhecido ativista republicano, amargara dois anos no exílio francês por causa de sua participação na malograda tentativa do golpe de Estado de 1891. Em Paris, todavia, conheceu personalidades como Santos Dumont, Benoit Malon, Paul Verlaine e António Nobre, aprofundando-se em estudos esotéricos, inclusive, tanto que chegou a influenciar, anos depois,  o poeta Fernando Pessoa.

Na referida obra,  A IDEIA DE DEUS {1902}, Sampaio Bruno não hesita em rechaçar o dualismo cartesiano. Mais do que isso. Debruça-se sobre o sentido da liberdade,  o papel do homem no mundo e a busca de uma redenção universal.   É no capítulo derradeiro, intitulado Mal e Bem, que se sobressai seu pensamento reflexivo. Ao conjecturar sobre a existência de Deus,  responsável pela ordem, beleza e harmonia do Universo, ou, como diria Rousseau, pelo astro que nos alumia, pela ovelha que retouca, pela ave que voa e pela folha que o vento leva, ele questiona:  seria possível que a mão criadora dessa inteligência superior se deixasse  desviar pela mão arbitrária do homem? E logo responde: se o amor de Deus pelas criaturas se não individualiza para com estas, a noção de Providência perde-se no conceito indiferente de finalidade genérica. Sob tal linha argumentativa o autor – que teria sido vegetariano – sugere uma visão não hierarquizada entre as espécies e defende uma atitude  pacífica aos homens.

O mal, prossegue o filósofo lusitano, decorre única e tão-somente da ação humana:   o mal moral é, incontestavelmente, obra nossa, por isso, Homem, não procures o autor do mal, esse autor és tu. E sentencia: Se o mal é obra do homem, os flagelos morbíficos que açoutam animais e plantas obra do homem são.  As imagens de destruição e de  carnificina falam por si,  em um mundo de ruínas em que não se dá um passo sem destruir. Em consequência,  Deus resta como responsável, por ter concedido a existência a um ser tão mau que haveria de perturbar a própria ordem do Universo. Assim sendo, ao rejeitar  o chamado finalismo antropocêntrico,  Sampaio Bruno constrói seu discurso heterodoxo afastando-o do dogma da criação, para aí reconhecer a existência do mal a ser combatido.

Importa dizer, a propósito, que Sampaio Bruno opunha-se às diversas formas de intolerância, seja contra mouros,  judeus e gentios;  também às manifestações de violência e crueldade para com os animais, dentre elas a barbárie festiva que ocorre nos espetáculos de touradas. O compromisso maior do homem, portanto, é em relação à natureza, abdicando-se do egoísmo,  dos interesses individualistas e das diversas formas de dominação. Por isso é que, para Sampaio Bruno,  o verdadeiro Messias não é nenhum príncipe morto e ressuscitado pela febre dos ignorantes, mas tão-só e apenas o Homem. Em síntese,  para ele o mais autêntico progresso humano é de natureza moral.

O fim do homem neste mundo, pois,  é libertar-se e libertar  os outros seres. E essa libertação pode ser entendida como o respeito à manifestação da vontade de viver, inerente a cada ser. Cabe ao homem, então, tentar cumprir o seu dever moral perante a natureza toda, abstendo-se da destruição e da crueldade. Ou, segundo as palavras do próprio Sampaio Bruno, libertando-se a si, libertando os seus irmãos de espécie, ele contribuirá já para a libertação universal.


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