Pesquisa mapeia o que pensam os protetores dos animais


Katia Okumura Oliveira
koliveira@centralnacionalunimed.com.br

“Desde criança eu já gostava dos animais.” É o que dizem 65% dos protetores dos animais que responderam a pesquisa desenvolvida para meu mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. O questionário utilizado teve como base o modelo de John M. Kistler, em seu livro “People Promoting and People Opposing Animal Rights. In Their Own Words”. Lá o pesquisador entrevistou 44 pessoas, entre aquelas que são a favor e as que são contra aos movimentos de defesa dos animais.

Para o meu trabalho, ouvi 48 brasileiros selecionados por meio de grupos de discussões na Internet e que são ativos em seus propósitos de defender os animais. Os argumentos se assemelham:

“Em primeiro lugar, eu sempre amei os animais, desde que eu era criança.”

“Adoto animais de rua desde criança, mas em 2002, comecei a organizar um grupo. Em Maceió não havia nenhum trabalho organizado, apenas protetores solitários.”

“Sempre amei animais, sempre tive galinhas, patos, porquinhos da índia, coelhos. Eles, na verdade, sempre foram meus reais e grandes amigos. Tive uma infância e uma adolescência de muita solidão, então, eles eram meus grandes amigos.”

“Desde pequena sempre amei os animais e, junto com minha mãe, recolhia bichos de rua.”

“Eu sempre gostei de animais e desde pequeno tive cachorro, cuidava de pássaros doentes etc.”

O perfil dos protetores

Das 48 pessoas entrevistadas, 51% estão no Estado de São Paulo e 16% no Rio de Janeiro. Os demais se dividem, na ordem, entre Minas Gerais, Estados Unidos, Rio Grande do Sul, Alagoas, Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo e Santa Catarina. A idade média é de 41 anos. Aposentados, estudantes, funcionários públicos, professores, advogados e jornalistas são os principais atores nesta causa.

Atuação

A grande maioria pratica trabalhos voluntários na área. Apenas 7% declaram que atualmente não desenvolvem nenhuma atividade, embora sejam fiéis à defesa dos animais. Pouco mais da metade, 52%, estão dentro de ONGs; 6% apenas contribuem com algum grupo e 10% se autodenominam independentes, isto é, atuam sozinhos.

Quando questionados sobre os motivos que os levaram a se envolver com a proteção dos animais, destaca-se o fato de sempre terem gostado dos bichos, resposta dada por praticamente 65% da amostra, o que denota influência do ambiente familiar. A compaixão pelos animais que vivem na rua vem em segundo lugar, com 42% das citações.

“Às vezes, vejo um cão chegar apenas com um problema na pata ou atropelado. Ninguém quer dar uma chance de vida ao animal e se fala logo na eutanásia. É mais fácil para as pessoas eliminarem o animal do que passar o tempo todo cuidando.”

“Dedico-me a arranjar um lar para os que foram abandonados por seus ‘tutores’ ou aqueles que sofreram maus-tratos. Porque são criaturas indefesas que não têm como pedir ajuda.”

As respostas foram bem diluídas, com destaque para Nina Rosa, do Instituto Nina Rosa, com quatro menções, e a própria mãe, com três. Entre os famosos, as menções vão para Gandhi e Paul McCartney, com quatro menções cada um, e Brigitte Bardot, que foi citada três vezes. Algumas respostas:

“Acima deles, eu admiro pessoas anônimas, como Nice, da Ama, que cuida deles incondicionalmente. Eles nunca aparecem no Jornal Nacional. Fazem desinteressadamente o papel de protetor dos animais.”

“A proteção é podre. Muita gente está aqui pensando mais nas vaidades do que nos animais. E tem aqueles que são ´protetores de internet´. Ficam na frente do PC repassando pedidos de socorro e xingando porque ninguém socorreu. Na verdade me inspiro muito naquilo que não devo fazer. Não tenho ninguém em especial.”

A oposição

Os opositores são muitos e bem diversificados. Os principais alvos de críticas são aqueles que se mostram indiferentes aos animais, mesmo diante de informações sobre maus-tratos. Os entrevistados falam que essas pessoas não gostam nem de ouvir o que eles têm a dizer. Em segundo lugar nas menções, aparece a indústria da carne. Nas palavras deles:

“As pessoas que obtêm grandes lucros através da pecuária. Utilizam vaquinhas e porquinhos felizes para vender a carne.”

“O uso de animais aumenta em razão dos benefícios econômicos que os exploradores conquistam e, também, por causa da anestesia moral nos consumidores, os quais consomem mais produtos de animais tratados de forma ´humanitária´.”

O objetivo maior com a defesa dos animais é educar e conscientizar a população sobre os animais e seus direitos. Também buscam por Leis mais rigorosas com punição para os que venham a agredir os bichos. Reforçando a questão que mais os preocupam, que são os animais abandonados, a castração em massa surge como um objetivo a ser alcançado, evitando que novos animais nasçam condenados a ficar nas ruas.

Neste contexto, eles buscam convencer, principalmente as pessoas mais próximas como amigos e familiares, incentivando a adoção de cães e gatos e condenando os pet shops que comercializam esses animais, entre outros. A estratégia para isso é, mais uma vez, a educação: leituras, palestras e divulgação de mensagens e imagens que atestem atos cruéis contra os animais. Petições, cartas e e-mails para políticos e imprensa também fazem parte dos artifícios que eles utilizam na tentativa de serem ouvidos. Em longo prazo, alguns esperam criar santuários para abrigar os animais encontrados nas ruas.

“A mídia deveria trabalhar mais esta questão assim como tantas outras. Divulgar a necessidade de adoção, da esterilização, a tutela responsável, enfim, atingir o maior número de pessoas que for possível. As pessoas precisam aprender a ter atitude e não esperar que uma força divina intervenha e faça algo. Rezar não salva ou enche barriga de ninguém.”

“As pessoas têm de perceber que animais são seres vivos, sentem dor, têm sentimentos, não têm como se defender do maior predador de todos que é o homem. Não tem mais desculpa, temos que parar de fingir e tentar protegê-los.”

“Esse movimento social de luta por direitos animais é algo que veio para ficar. É, acima de tudo, uma luta pela não-violência. Acredito que a violência é algo que se aprende. Infelizmente, aprendemos isso todos os dias quando comemos, vestimos e usamos outros seres que possuem interesses como nós. Reconhecer os direitos desses seres não é nada mais do que um dever ético.”

“É importante ressaltar que protetores dos animais não são pessoas que odeiam seres humanos, que querem o extermínio da espécie. Além de trabalhos voluntários pelos animais, também trabalho pelos direitos humanos. É possível conciliar a luta pelo fim de todas as injustiças do mundo, tanto para humanos quanto para animais. E existem diversas áreas que necessitam de trabalho voluntário e atuação. Se a pessoa quiser dedicar seu tempo por um mundo melhor, ao invés de criticar aqueles que já fazem alguma coisa, trabalho e atividades não faltam, tanto para humanos, quanto para animais e meio ambiente.”

Para eles, as pessoas devem se importar com a proteção dos animais, principalmente porque os animais também são seres vivos, que sofrem e sentem dor, e que há muita crueldade sendo praticadas contra eles. Alegam, ainda, aspectos éticos e pregam o fim da violência. Chegam a apontar que as pessoas que convivem bem com os animais têm um relacionamento melhor com outras pessoas.

De uma forma geral, pedem mais respeito e atenção aos animais. Neste aspecto, a educação e conscientização surgem como uma das principais dificuldades, uma vez que as pessoas têm dificuldades em ouvir o que eles têm a dizer.

Autoria da pesquisa: Katia Okumura Oliveira


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