Direitos Animais - Bruno Müller

A (re)definição de vegetarianismo: o horizonte dos direitos animais

Introdução

A discussão acerca da proposta da Sociedade Vegana de um novo conceito, o “protovegetarianismo” e de uma definição mais rigorosa, e etimologicamente mais correta, do conceito de vegetarianismo, tem suscitado bastante polêmica no meio do movimento vegetariano e de defesa animal.

Acompanhando as discussões, tenho percebido uma linha argumentativa de objeções à nova proposta que afirma basicamente o seguinte: trata-se um “revisionismo”, que questiona uma definição já consagrada de vegetarianismo, de pouca implicação prática para a causa, excludente da ampla “comunidade” vegetariana que não se enquadra na nova definição, sendo, portanto, uma proposta de viés autoritário baseada num preciosismo conceitual. Essa releitura autoritária e excludente estaria sendo promovida por uma “elite” com vistas a impor sua visão ortodoxa, monolítica, menosprezando a “diversidade” existente no movimento vegetariano.

O próprio conceito de “revisionismo” tem em si mesmo uma carga pejorativa, associado, por exemplo, às interpretações reformistas do marxismo, uma doutrina política revolucionária; e à negação da existência do Holocausto perpetrada pelo regime nazista. Ao “revisionismo” marxista geralmente se contrapunha a acusação do “marxismo ortodoxo”, dogmático e autoritário.

Como se vê, os defensores da nova terminologia acabaram enquadrados no pior dos dois mundos: revisionistas e ortodoxos. Afora a contradição dessa dupla acusação, veremos que nenhuma das duas se sustenta. Por fim, acrescento que, longe de um preciosismo nascido do amor à teoria, a proposta de um novo conceito é de importância política e estratégica para o movimento.

Revisionismo ou resgate?

Em primeiro lugar, não consiste a proposta da Sociedade Vegana em revisionismo, mas antes em um resgate do sentido original, e etimologicamente mais preciso, do conceito de vegetarianismo.

Originariamente, o termo vegetariano se referia a uma dieta estritamente baseada em vegetais, como já apontado no texto fundamental  da Sociedade Vegana sobre o protovegetarianismo, e como também pode ser consultado em diversos documentos disponíveis da seção de história da página da International Vegetarian Union na internet. Sua criação antecede a da Sociedade Vegetariana, na Inglaterra, e era definida como uma “dieta vegetal”. Não é por outro motivo que foram cunhados termos como “lactovegetariano” e “ovolactovegetariano”. Fosse “vegetariano” sinônimo de abstinência apenas de carne, esses termos seriam simplesmente redundantes.

Desse modo, se há alguma vertente “revisionista” do movimento, esta é aquela que associou vegetarianismo a uma dieta que inclua ovos e leite (o que eu chamo de “ovolactismo”, dado o apego e a centralidade desses alimentos para essa vertente). Esta é a vertente que vem se impondo no movimento desde a criação da Sociedade Vegetariana na Inglaterra, em 1847, que foi também aquela que propagou o mito de que o termo deriva do latim vegetus (forte, vigoroso), e não de “vegetal”. A pesquisa com textos de época, entretanto, desmente essa versão. A confusão foi tamanha que se propôs que a Sociedade Vegetariana passasse a se autodenominar Sociedade pela Reforma Alimentar, e sua dieta, definida como VEM (vegetais, ovos e leite, nas iniciais em inglês).

Com o passar dos anos, entretanto, a posição da Sociedade Vegetariana prevaleceu, e a confusão se impôs. E isso não teve implicações negligenciáveis. Ela perpetuou e propagou uma visão equivocada e deficiente sobre as implicações éticas de uma dieta que inclua ovos, leite, mel e outros subprodutos de animais, mesmo que não diretamente derivados de sua morte. A cegueira da sociedade, e mesmo de muitos vegetarianos, quanto a essas implicações éticas está diretamente ligada ao fato de a definição hegemônica de vegetarianismo não confrontá-las. E, como tenho defendido, não há como separar o vegetarianismo de um fundamento ético. De modo que, tanto do ponto de vista etimológico, quanto do ponto de vista ético, não faz sentido falar numa dieta vegetariana que não seja estritamente baseada em vegetais.

Se existe uma elite e uma ortodoxia no movimento vegetariano e de defesa animal, este está materializado em entidades como a Sociedade Vegetariana britânica, a WSPA e a PETA: de um lado, o ovolactismo, de outro, o bem-estarismo. São essas as ideologias hegemônicas no movimento desde sua origem, no ocidente. Esse é o dogma, a ortodoxia: aquele que legitima o uso e a exploração de animais. É contra este dogma que o veganismo tem se levantado, desde a década de 1940. Já era tempo de esta ortodoxia ser desafiada também no Brasil. É com este objetivo que surgiu a Sociedade Vegana.

Portanto, a proposta da Sociedade Vegana não é revisar um conceito e adequá-lo à sua visão do mundo, mas sim resgatar seu sentido original, e revitalizá-lo com o devido rigor ético e etimológico.

Da importância dos conceitos

E este debate vai muito além do preciosismo conceitual. Conceitos são parâmetros que orientam a comunicação, transmitem ideias e definem o horizonte de pensamento daqueles que os aplicam. A existência ou ausência de um conceito é reveladora do contexto histórico, político, social e até geográfico de um povo. A definição de um conceito tem uma importância política e estratégica, como o estudo dos movimentos políticos demonstra. Esta hipótese pode ser verificada com dois exemplos.

Em primeiro lugar, toda palavra é um conceito. Copo, vaso, garrafa, frasco e tubo são todos recipientes de líquidos. Contudo, não são conceitos intercambiáveis. Eles comunicam o contexto e o propósito com que um determinado recipiente recebe um determinado tipo de líquido. Para atestar a importância dessa diferenciação, basta pensar na enorme diferença que faz um líquido como a estricnina estar contido num frasco ou num copo.

Uma evidência da importância política dos conceitos pode ser apresentada por meio de duas inovações da Revolução Francesa: o sistema métrico decimal e o calendário revolucionário. O calendário passou a fazer referência às estações do ano (Brumário, o mês das neblinas; Termidor, o mês mais quente do verão; Germinal, o mês da germinação, e assim por diante). A semana continha dez dias – assim, deixava de existir o domingo, sem o qual os cultos cristãos deixariam de pautar a vida pública, tornando-se um culto privado, e no longo prazo perderiam sua influência. A dificuldade de manter dois calendários paralelos poria o próprio culto em perigo, mesmo na vida privada.

Da mesma forma, o sistema métrico decimal, que acabou consagrado, oferecia um sistema de medidas universal, simétrico e perfeitamente racional, diferente das medidas locais, arbitrárias, e até mesmo baseadas em medidas do corpo do rei (daí medidas como “pé” e “polegada”), que prevaleciam até então. O sistema métrico decimal e o calendário foram duas expressões do pensamento iluminista – racionalista, universalista e secular – que inspirou a Revolução Francesa. O triunfo de suas inovações seria o triunfo de suas ideias.

Todo conceito é limitado e limitante, é verdade. Daí muitas pessoas preferirem se esconder sob o discurso pseudocrítico da oposição aos “rótulos”, noutra forma de referência pejorativa. Isso nada mais é do que o medo ou indisposição de assumir compromissos, de tomar uma posição, de fazer escolhas. Coisas que, claro, são impossíveis na vida em sociedade.

Conceitos são importantes, como sabe qualquer cientista ou filósofo. Sem eles, a comunicação se torna confusa, senão impossível. E as ideias que eles comunicam são aquelas que irão pautar nossas ações. Por isso as discussões filosóficas, teóricas e conceituais não constituem mera divagação intelectual. Elas definem os parâmetros e o objetivo de um movimento. Se existe um movimento pelo vegetarianismo, faz uma enorme diferença se esse movimento advoga apenas a abstenção de carne ou a abstenção de todo alimento extraído de um animal. Essa definição também nos informa sobre o que, afinal, leva as pessoas a se tornarem vegetarianas: saúde? religião? ética? Ser vegetariano ético implica apenas se abster de matar? Ou igualmente se abster de explorar? São todas essas questões que começam a ser respondidas a partir do momento em que nós esclarecemos o que entendemos por “vegetarianismo”.

O sentido político e estratégico do vegetarianismo

Daí, então, chegamos à questão central por trás do debate sobre a definição do vegetarianismo: o sentido político e estratégico do resgate do conceito original.

Esse debate tem um efeito direto sobre o movimento pelos direitos animais. Pois aquelas pessoas que hoje conhecem o vegetarianismo como uma dieta frequentemente desvinculada de qualquer ideologia e, quando vinculada, uma ideologia reformista e bem-estarista, no futuro conhecerão um vegetarianismo alicerçado sobre o abolicionismo e os direitos animais. Um vegetarianismo que não mais legitima o uso e a exploração de animais para fins de alimentação, que expressa a dimensão dietética de uma visão de mundo mais ampla, o veganismo.

Isso significa que o ponto de partida da difusão do vegetarianismo não terá mais a ambiguidade que hoje carrega.  E, desse modo, o movimento dito de defesa animal terá de enfrentar com mais clareza suas próprias contradições. Perceberá com maior nitidez a distinção entre aqueles que defendem as reformas bem-estaristas e legitimam o uso dos animais, e aqueles que de fato defendem os direitos animais, isto é, o respeito pela vida, liberdade e integridade desses animais, e a rejeição inequívoca de sua exploração para fins humanos.

Não partimos do pressuposto, como tem sido aventado, de que aqueles que nós chamamos de “protovegetarianos”, porque ainda consomem alimentos derivados de animais, irão adaptar sua dieta para continuarem a ser “merecedores” do título de “vegetarianos”. Muitos não o farão.

Nossa proposta não tem esse caráter imediatista. Ela é de médio e longo prazo, de importância vital não para alguns indivíduos, mas para os rumos de todo um movimento. Queremos suscitar o debate, levantar um questionamento amplo, que envolva não apenas os protovegetarianos, mas o movimento de defesa dos animais e do vegetarianismo, e da sociedade como um todo.

Nos protovegetarianos, esperamos provocar a reflexão sobre os limites éticos de sua dieta. No movimento pelos animais e pelo vegetarianismo, esperamos provocar a reflexão sobre quais são, afinal, seus objetivos, e até onde podemos ir na defesa dos animais sem abdicar do falso direito de explorá-los. Da sociedade como um todo, esperamos que ela tenha contato com uma concepção coerente de vegetarianismo, e que essa concepção também a desafie a questionar o especismo e antropocentrismo nela arraigados, a naturalização da exploração animal e o estatuto moral e legal dos animais.

Conclusão

O debate já está em andamento. Isso quer dizer que a proposta está cumprindo seu papel. Esperamos que desse debate saiamos com um movimento fortalecido, de propósitos claros.

Essa mudança conceitual terá um efeito direto e fundamental sobre toda a causa. O movimento em favor dos animais ganhará clareza e coerência. E a partir do momento em que a sociedade em geral entender “vegetarianismo” como dieta estritamente baseada em fontes vegetais, as pessoas que despertarem para o problema irão ver o consumo de ovos e leite como os protovegetarianos de hoje veem o consumo de peixe, isto é, incompatível com o conceito de vegetarianismo e a racionalidade por trás dele. Logo, elas não vão parar na abstenção da carne.

Claro que o vegetarianismo, nos dias atuais, não está sempre vinculado a uma objeção ética quanto à exploração animal, e assim continuará sendo, mesmo que o termo deixe de ser vinculado ao consumo de subprodutos de animais. Entretanto, para que a sua dimensão ética volte ao centro do debate, a separação conceitual entre vegetarianismo e regimes alimentares que perpetuam a exploração animal se torna inevitável.

Questionar ideias consagradas é a base de toda transformação social. O que define o caráter “autoritário” de um movimento são seus métodos e objetivos. Nós, da Sociedade Vegana, defendemos um movimento pelos direitos animais fundado sobre o método da não violência e o objetivo da abolição da exploração animal. Não há nada mais distante do autoritarismo do que esses princípios.

Por fim, em resposta àqueles que nos acusam de desconsiderar a diversidade do movimento, cabe ressaltar que a diversidade não é um fim em si mesmo. Ela deve estar condicionada ao grau de justiça e emancipação que confere à sociedade. Práticas que violam os direitos mais fundamentais dos indivíduos não podem se legitimar sobre um suposto respeito à diversidade de pensamento e costumes. Nesse sentido, um movimento vegetariano que perpetua e é conivente com a exploração animal não é legítimo. Ele o será apenas na medida em que contribua para a emancipação dos animais e sua plena inclusão na comunidade de direitos.

34 COMENTÁRIOS

  1. Bruno,
    Essa poderia ser uma bela epigrafe para esse seu belo texto.

    “O conceito é um dispositivo, uma ferramenta, algo que é inventado, criado, produzido, a partir das condições dadas, e que opera no âmbito mesmo dessas condições. O conceito é um dispositivo que faz pensar, que permite de novo, pensar. O que significa dizer que o conceito não indica não aponta uma suposta verdade, o que paralisaria o pensamento; ao contrario, o conceito é justamente aquilo que nos põe a pensar. Se o conceito é produto, ele é também produtor: produtor de novos pensamentos, produtor de novos conceitos; e, sobretudo, produtor de acontecimentos, na medida em que é o conceito que recorta o acontecimento, que o torna possível”
    Silvio Gallo seguindo Deleuze & Guattari

  2. Gostei, Bruno… gosto mais da linha em que se promove o objetivo principal de sua “luta”, a ética… gostei de uma pasagem, ainda que tímida, em que você diz lutar para que os protovegs (cá prá nós, o nominho feio q “inventaram”) um dia enxerguem o movimento de outra forma. É isso aí… nesse sentido, quando se debate a questão do que é melhor para o movimento fugimos das bases para investigar as ferramentas e nesse aspecto é que surgem as maiores dificuldades.

  3. Bruno,
    teu texto está exemplar! Uma aula sobre os conceitos fundamentais do movimento genuíno de defesa dos direitos animais e abolição da exploração deles para benefícios humanos! obrigada por escrever sobre isso e fertilizar o debate em andamento.
    sonia t.

  4. Prezado Bruno,

    O conceito de veganismo já não seria mais que suficiente para os propósitos daqueles que clamam pelo fim da exploração animal? Por que esta teimosa persistência em restringir esta questão ao âmbito alimentar?

    E o mais importante de tudo: como é que ficam aqueles fungo-vegetarianos que, como eu, não querem abrir mão do champignon e do shitake?

  5. Bruno,
    No seu texto, uma das principais mensagens é que pessoas em defesa dos animais pensam que a sociedade vegana é a elite do veganismo no brasil (isso percebi de algumas pessoas que estavam no ENDA), mas isso não é verdade, ela quer ajudar veganos e definiu conceitos mais claros sobre vegetarianismo. Algo muito interessante que aprendi nesse texto foi que a Revolução Francesa criou o sistema métrico decimal, que teve o absurdo da medida do corpo do rei que é do mesmo tipo das medidas : pé e polegada, que nesse texto essas medidas estão descritas como arbitrárias e que essas medidas são consideradas como imperiais (conhecidência); O sistema métrico decimal é mais exato e fácil de calcular do que as medidas imperiais

  6. Oi, Guilherme

    Os revolucionários não criaram o sistema métrico, mas o implementaram em 1795.

    Já ouvimos algumas vezes essa acusação de que aqueles que defendem o veganismo ético, não necessariamente a Sociedade Vegana apenas, formam uma “elite” do movimento, o que é, claro, risível e totalmente descabido. O movimento não precisa de vanguardas, e sim de coerência.

  7. “O debate já está em andamento. Isso quer dizer que a proposta está cumprindo seu papel.”
    Infelizmente eu acho que a Sociedade Vegana se perdeu nessa proposta. Inegavelmente a alteração do termo como proposta é segregacionista e pouco fundamentada. Insisto que é deturpação de um conceito, negativa de aspectos históricos, desvalorização do termo vegano e causa mais reação de auto-defesa – e, portanto, isolamento do movimento vegano – do que qualquer reflexão que reflita mudança de conduto. Não se trata sequer de uma “elite vegana”. Além de insistir na necessidade de, no mínimo, proposição da mudança do conceito em Congresso Internacional (IVU) antes de utilizá-lo amplamente e até mesmo cobrar que outras pessoas o façam.
    Discutir condutas é necessário. Modificar conceitos, indevidamente, não.
    http://vista-se.com.br/redesocial/questoes-de-definicao-vegetarianismo-genero-e-especies-origens-do-veganismo/

  8. Renata,
    Essa sua frase: “Modificar conceitos, indevidamente, não”, me causa calafrio. A pergunta que faço é, o que foi feito na Historia da Filosofia de Platão a Sartre com relação aos conceitos? O que foi feito com relação aos conceitos dentro da temática “direitos animais” de Primatt a Francione?

    “Desvalorização do termo vegano”? IVU?

  9. Oi, Renata

    A IVU não é o Vaticano, nem os Congressos Vegetarianos são Concílios. Não existe uma Congregação para a Doutrina da Fé Vegetariana. O vegetarianismo não é uma religião. Não precisamos de autorização de ninguém para propor a alteração de um conceito. O próprio debate encarregar-se-á de refutá-lo ou, o que é mais provável, consagrá-lo. Por que? Porque se trata de uma transformação qualitativa pela qual o movimento em defesa dos animais está passando. Os tempos mudam, e com eles os conceitos. Você acha que o conceito de “democracia” atravessou 2.500 anos de história incólume? Por que o de vegetarianismo então deve permanecer congelado, mumificado, da maneira incoerente, imprecisa e antiética que está hoje?

    Se fôssemos seguir esse raciocício, não poderíamos hoje falar em “senciência” (contração de sensação + consciência), nem em “direitos animais” (corruptela de direitos humanos). Conceitos não são imutáveis. Quem parte desse pressuposto sim, é que está sendo autoritário, pois quer congelar o debate filosófico no tempo, em última instância interditando-o.

    No mais, acho que todas as suas objeções já estão respondidas no texto. Não vou ficar repetindo argumentos.

    • Só acho meio estranha essa volatilidade do conceito. Se os conceitos são mutáveis, isso não leva a um perigoso relativismo? (tipo o que é vegetarianismo para você não é para mim) [é uma pergunta de quem quer entender, certo? não é de confronto]

  10. “Por fim, acrescento que, longe de um preciosismo nascido do amor à teoria, a proposta de um novo conceito é de importância política e estratégica para o movimento.”

    Não é pelo termo em sí que se pode atribuir a Sociedade Vegana uma postura elitista, mas pela perspectiva até inocente de que esta sociedade pode definir um plano político e estratégico para o movimento.

    A Sociedade Vegana é um grupo fechado e pequeno. Não foi formada, segundo sua própria comunicação, para servir de forúm para o movimento vegano.

    Assim sendo, o nome Sociedade Vegana expressa um conceito equivocado para o movimento vegano.

    Penso que, antes de rever um termo que inevitavelmente será usado apenas como sinônimo de vegetariano não estrito e naturalmente explicado a partir do vegetarianismo estrito, a sociedade vegana poderia rever, ou o seu nome, ou o seu formato.

    No mais, penso que o texto da Renata sobre o termo Vegetariano é de altíssima qualidade. Profundamente esclarecedor.

    Apoio a idéia de revisão de conceitos. O problema está muito mais na forma do que no conteúdo.

    Se a proposta é de debate porque a exasperação quando do questionamento do conceito proposto?

    Outro ponto é a inutilidade do termo em sí, já que ovolacto-vegetariano é ainda mais explícito em relação ao fato da inclusão de alimentos de origem animal do que protovegetariano. E, como já está acontecendo, protovegetariano está sendo incluido em nosso contexto conceitual como subcategoria de vegetariano.

    Existe uma distância grande entre definir conceitos e implantar políticas. Neste ponto penso que a sociedade vegana se perde.

    A definição de estratégias devem passar obrigatoriamente pelo debate e consenso dentro do movimento vegano como um todo, sem o qual é ilegítima e sem aderência à realidade.

    Da mesma forma, a implantação de política exige, entre outras coisas, ações políticas, incluindo-se nisto a negociação com o setor público e com o setor privado.

    A menos que esteja desinformado, a sociedade vegana se repudiou o diálogo com os políticos.

    Ao meu ver, falta planejamento estratégico e inteligência tática dentro da própria sociedade vegana na organização de suas atividades. Assim sendo, penso que seja precipitado propor políticas e estratégicas para o movimento vegano.

    Contudo, apoio que continuem a trabalhar e propor novas idéias. Mas espero que estejam abertos às eventuais discordâncias.

  11. “Não existe uma Congregação para a Doutrina da Fé Vegetariana. O vegetarianismo não é uma religião. Não precisamos de autorização de ninguém para propor a alteração de um conceito.”
    Que bom que concordamos com isso.
    O que eu não entendo é qual é a necessidade que vocês tem de IMPOR esse novo conceito, em detrimento de algo consolidado, sem a menor discussão. E, mais, porque manter isso só no Brasil? E se vocês não enxergam a mínima utilidade num termo uniformizado – e a sugestão da IVU é justamente por isso, já que ali ocorre um diálogo entre sociedades vegetarianas e veganas pelo mundo – bom, criem uma nova doutrina de uma vez. Só não sei como criar uma doutrina nova se o que se defende é veganismo puro e simples.
    O que eu sei que é o que eu estou vendo: uma salada entre ideologia e conceito bem pouco fundamentada e, falar a verdade, bem pouco útil. Concordo com o Christina: temos termos muito mais explícitos quanto a condutas. No mais, virou defesa passional faz tempo.

  12. Oi, Renata

    Quem está impondo o quê? Nós usamos o conceito e o defendemos publicamente. Adere quem quer. Não nos furtamos de debater pois é assim que nossa proposta será conhecida e testada. No mais, nem teríamos os recursos para “impor” o termo. Nós somos UMA Sociedade Vegana, não uma Polícia Vegana. Não temos a pretensão de ser porta-vozes do movimento. Somos porta-vozes de nós mesmos, e dos animais. Até por isso não somos uma Sociedade Vegana BRASILEIRA. Não temos as pretensões ao mesmo tempo restritivas e abrangentes que este gentílico imputaria.

    Do meu ponto de vista, impositivos são aqueles que nos dizem que não podemos fazer isso. Por que, exatamente? Se estamos num país democrático que consagra a liberdade de expressão? As pessoas têm medo do debate. Sem se dar conta, você tem razão: estão fazendo uma defesa passional de um conceito ultrapassado. O tempo todo, quem está assumindo uma postura dogmática são os que nos acusam de segregar quem não se preocupa em não explorar animais, não respeitar um conceito “histórico”, que devemos pedir licença à IVU pra defender nossas teses, etc. O resto não passa de acusações e críticas sem base nem fundamento.

    E uma última colocação sobre suas palavras sobre a proposta ser “negativa de aspectos históricos”: em primeiro lugar, o termo vegetariano só existe a partir do século XIX. Dizer que foram vegetarianos aqueles que viveram antes disso é mera convenção e licença histórica. Da mesma forma que hoje são tidos como vegetarianos, podem ser redefinidos como protovegetarianos, isto é, aqueles que, por limitações éticas, filosóficas, históricas e epistemológicas abriram caminhos ao vegetarianismo pleno, mas estagnaram num trecho desse caminho. Em segundo lugar, pelo contrário, nossa proposta contempla um salto qualitativo na história do movimento, sem renegar sua trajetória – apenas a percebendo como incompleta e incoerente. “História” tem um significado quase místico na leitura de certas pessoas. A história é um processo dinâmico. Não existem pontos fixos, imutáveis, nem momentos históricos congelados no tempo. Os processos sociais e as mentalidades estão em constante transformação, bem como o conhecimento referente a eles.

  13. Fico impressionado cada vez que escuto dizerem que a Sociedade Vegana estaria “impondo” qualquer coisa. Como se faz isso exatamente? Foi feita uma proposta. Usa o termo quem quer. Quem não quer, não usa. Se não for aceito porque a sociedade não viu utilidade no mesmo, beleza, já valeu pela discussão e reflexão geradas.

    por último, não entendo qual é a diferença de “imposição” do termo “protovegetariano” pela Sociedade Vegana e do termo “vegano” pela Vegan Society do Reino Unido nos anos 1940. As mesmas pessoas que criticam a criação do novo termo usam livremente o termo criado por outros em uma época em que certamente houve múltiplas contestações em ralação à criação do termo.

  14. O debate de conduta implica também o debate conceitual. Uma coisa não pode ser separada da outra. A questão mais básica é: o consumo de laticínios e ovos deve ser aceito, tolerado e, ainda pior, INCENTIVADO, como fazem as grandes entidades ditas “vegetarianas”? Incluir essas condutas como parte da comunidade vegetariana é legar-lhe legitimidade.

  15. BRUNO, a integração entre filosofia e ciência política contida nos seus textos aponta para nós, interessados na militância pela Libertação Animal elementos essenciais.
    TODA AÇÃO humana é precedida pelos conceitos e toda a atuação do homem no meio, acarreta sua mudança da percepção do mundo.
    PODEMOS ser sugeitos da história somente quando temos autonomia, motivo porque qualquer que seja o movimento social, quando empreendido por indivíduos que apenas seguem lideranças acabará por gerar uma sociedade, mesmo que modificada, contendo os mesmos defeitos da anterior ou piores.
    DESCULPE-ME pelo utopismo, mas creio que o movimento vegano é um movimento tendente à mudança social, mas com uma vantagem sobre, por exemplo, a revolução socialista de 1917.
    ALI as lideranças catalizaram pessoas que agiam com o seu núcleo psicológico de motivações econômicas, mas não se cogitou de elaborarar a formação de um homem autônomo.
    NO MOVIMENTO vegano, a autonomia é o primeiro passo, justamente porque colocamos sempre a Ética como uma disciplina interior de exercício da liberdade.
    NA MILITÂNCIA vegana, os explorados não têm organização nem voz, não têm exigências nem organização, ocorre apenas que eles são indubitavelmente seres dotados de direitos; do mesmo modo que ocorre com sugeitos da sociedade que são representados por outros, como as crianças, alguns deficientes e os idosos avançados, por exemplo, vendo-se aí, não somente a dinâmica das mudanças dos indivíduos ao longo do tempo, como também, e isto e muito importante, as similitudes, como a sensciência.
    O ELEMENTO que atinge o núcleo de motivações econônicas dos agentes, na verdade é a retroalimentação das consequências catastróficas causadas pelo uso indiscriminado do meio, dos recursos não renováveis etc., no entanto, catástrofes, como a possibilidade do efeito estufa etc., apenas acenderam o pavio da detonação de mudança profunda da sociedade, os objetivos do movimento vegano não aponta para o próprio homem, mas para outros seres dotados de direito.
    ENTÃO se pergunta, que tipo interlocutor é o ativista vegano?
    NÃO é o de um segmento, nem de uma classe social.
    ARRISCO-ME a dizer que nós veganos somos interlocutores de toda a sociedade, no resgate da compaixão que foi soterrada pelos mecanismos de repressão da economia de mercado, que considera ridícula sua manifestação, mas sobretudo, em exigir, que o homem seja consumidor consciente.
    SE NÃO consumimos o produto da abjeta tortura dos animais, tornamo-nos conscientes de todo o sistema de consumo.
    NESTE andamento, definição de conceitos se torna uma ferramenta da ação.
    OS ABOLICIONISTA da escravidão humana, não exigiam que se tratasse os escravos com brandura, “para poupar os recursos dos empresários e propretários” dos escravos.
    ELES exigiam libertação total, integração dos ex escravos no mundo do direito e da liberdade.
    NÃO SE trata de criticar nem de cismar os protovegetarianos.
    NA PRÁTICA, os fatos da realidade podem ocasionar momento de impossibilidade de realização completa de uma norma, no entanto, ela deve ser claramente definida.
    DAÍ concordo com a necessidade de resgatar o sentido do termo VEGETARIANO, que devido à segmentação semântica ocorrida na história, exigiu o surgimento de VEGANO.

    Lorival Ferreira

  16. “Ser vegetariano ético implica apenas se abster de matar? Ou igualmente se abster de explorar?”. Retirar um vegetal da terra (alface, cenoura, tomate) ou o fruto da laranjeira da sua árvore também não é exploração do vegetal e, depois, comê-lo ou fazer um suco, não significa matá-los? Ou os vegetais não são seres vivos, que não sentem dor e reagem a ela? Por exemplo, a soja quando atacada por um gafanhoto reage produzindo substâncias odoríferas que vagam pelos arredores para chamar a atenção de um predador natural, tal como uma ave ou um sapo, para que o predador natural ataque o gafanhoto, ou em outros casos, a planta muda a cor das suas folhas ou flores para atrair predadores. Sinceramente, permanecer na discussão de vegetarianismo e todas essas discussões são dispensáveis. O que o ser humano precisa é não acabar com a flora e a fauna silvestre por prazer ou exploração industrial ou comercial, mas reproduzir e consumir, assim como é feito com os vegetais que os vegetarianos comem sem nenhum remorso pela morte do tomate.

  17. Tem mais: tudo o que é ser vivo irá nascer, crescer, reproduzir, sofrer, ter alegrias, viver na natureza ou nos espaços entrópicos, e conforme cada espécie, mais cedo ou mais tarde, irá morrer. No entanto, todos são parte da cadeia alimentar universal e o homem é o maior entre todos os predadores naturais, servindo-se de vegetais, animais, minerais e até mesmo de alguns fungos e bactérias em sua alimentação. Qual o problema do animal morrer para servir de alimento, o que faz diferente do vegetal em relação à morte? O ser humano sofre, fere-se física, mental e psicologicamente, doenças o atacam e o deixam paralisado em muitos casos, o matam precocemente, assim acidentes (uma queda qualquer, uma colisão de trânsito) ceifam vidas de muitos, sem a mínima explicação, então por quê os animais não podem morrer para servir de alimento? É desejável que o sofrimento seja evitado, mas a morte é natural para todos.

  18. Gil,

    A morte é natural para todos quando vem naturalmente. Dentre as circunstâncias que você cita de morte e sofrimento humano, quando elas podem ser evitadas, como é o caso do assassinato, elas são consideradas moralmente condenáveis, e o imperativo ético nos comanda a abstenção dessas práticas. O mesmo também deve valer para os animais, pois eles possuem as mesmas características que nos comanda não causar sofrimento aos seres humanos. Se quiser uma explicação mais extensa, leia meu artigo:

    http://www.sociedadevegana.org/index.php?option=com_content&view=article&id=11:por-que-animais-tem-direitos&catid=12:direitos-animais&Itemid=5

    E sim, nós exploramos os vegetais. Mas os vegetais não têm senciência para sofrer com isso. Se quiser saber um pouco mais sobre porque a suposta preocupação com vegetais não nos isenta de inserir os animais na nossa comunidade moral, recomendo-lhe outro artigo:

    http://www.anda.jor.br/2009/02/05/e-as-plantas/

    Abraço.

  19. Nossa, de novo a ‘morte’ dos tomates. Como é cômodo e ultrapassado usar a ‘morte’ da cenoura para desviar o foco. Na verdade mesmo, a maioria dos seres humanos, e digo e afirmo aqui, aqueles que exploram e devoram animais, são covardes, estúpidos e cruéis. De um atraso intelectual e moral que só a ignorância explica ou ainda justifica. Quem sabe um dia o véu da ignorância caia, se rasgue todo, e o ser humano, rídículo na pretensão de se achar no ‘topo da cadeia alimentar’, se não tiver caído antes, aprenda de vez que seu lugar, o lugar real é mais embaixo.
    A propósito, como um ser superior como o homem ainda não aprendeu a voar sozinho???? Faltou inteligência para nascer com suas próprias asas? Como ainda este ser superior precisa da carne de outros animais dito inferiores para sobreviver? Falta inteligência para sobreviver por si só? Nossa, que seres humanos no topo (da cadeia da ignorância) são esses?
    A respeito das sociedades veg(etarianas)anas, nao faço parte de nenhuma formalmente, mas me pauto muito (antes de criticar ou fazer um juízo sobre a intelectualidade ou não dos seus membros) pela AÇÃO PRÁTICA QUE CADA NOME FAZ EM PROL DOS ANIMAIS. Ou seja, EFETIVAMENTE, AS AÇÕES DIRETAS, AÇÕES QUE MUDAM A VIDA DOS ANIMAIS, que integrantes ou não destas sociedades realizam. Não sou ninguém também para julgar, mas MEÇO NISSO, o respeito devido.
    Digo isso porque na minha cidade, como em várias outras, conheço seres humanos quase doutos, com nomes atrás de mesas de universidades e de ongs de proteção animal, que NA PRÁTICA, JAMAIS EMPUNHARAM UMA BANDEIRA PARA DEFENDER UM ANIMAL SENDO EXPLORADO OU ABATIDO. Ser defensor dos animais no papel, ou mesmo, debater em congressos e depois ir comer um churrasquinho básico para aliviar a fome é o que mais tem. Quero ver ir para a frente da pet shop que vende coelhos enjaulados, ir para a frente do mc donalds, ir para a frente do aviário. Isso minha gente, é mais do que ficar tecendo teses de doutorado.
    Minha mensagem talvez nem tenha nada a ver com o assunto em pauta, mas confirmo: o que importa mesmo, além dos nomes, é o que CADA UM FAZ POR CADA ANIMAL, saindo de sua zona de conforto, como um grande ativista acima já disse.

  20. Caríssimo Bruno

    Mais uma vez você “põe nos trilhos” o que está vago, impreciso e mal discutido por aí, no caso, há anos.

    A iniciativa da sociedade vegana é excelente. Penso que não se pode duvidar, ainda mais com seus esclarecedores exemplos, da necessidade da correção dos termos que empregamos.

    Como suscitado pela Dra. Sônia Felipe em outro texto, a suposta derivação do termo vegetariano ser de vegetus simplesmente não faz sentido. (http://www.anda.jor.br/2009/10/12/etica-dietas-e-conceitos/)

    Adotei as definições apresentadas (e não impostas) pela sociedade vegana por simples questão de lógica. FAZ TODO SENTIDO! Nada tem a ver com escala hierárquica ou grau evolutivo, mas com a razão. Ademais, se alguém se sentiu incomodado, melhor, dê o próximo passo! Nesse campo, o do respeito e da ética, não há lugar para o “mais ou menos”.

    É incrível, e pensaria ser mentira não fosse eu próprio testemunha, da acomodação e da cegueira de alguns “vegetarianos” causada pelo mau emprego do termo. Exemplifico:

    Um “lacto-vegetariano” certa vez me advertiu que em Buenos Aires a maioria dos pães eram feitos com gordura animal. Por sorte ele havia lido os ingredientes e, claro, não comeu, pois afinal não come nenhum tipo de carne. Mas depois comeu queijo, tomou iogurte, bebeu leite, tudo numa boa. Eu fiquei sem entender, não me contive e disse:

    – Veja, agradeço por seu aviso e te felicito por não comer o pão com gordura animal, mas para você qual a diferença entre a GORDURA ANIMAL identificada no pão e a GORDURA ANIMAL presente em leite e derivados? Só porque a primeira está fisicamente próxima à carne e é facilmente imaginável? Não faz sentido.

    Tenho certeza que a má definição leva não só a este e outros equívocos como também a uma acomodação que não vai de encontro aos plenos direitos dos animais e consectário respeito.

    Parabéns pelo texto. Ás vezes, a verdade dói mesmo.

    Um abraço

    Julio

  21. Temos que lembrar que “vegetarianismo”, como ficou explicito no texto, se refere a uma dieta. Um vegetariano, como quer o autor — que so se alimente de vegetais — nao eh necessariamente uma pessoa que se preocupe com o bem-estar animal. Ou alguem que queira saber as origens dos seus alimentos, e que se preocupe em averiguar, por exemplo, se animaos sao mortos ou maltratados no processo de colheita dos vegetais.

    Ja o veganismo, em sua essencia, eh uma filosofia. A minha pergunta eh: qual a vantagem de passar a usar o termo “protovegetarianismo” como conscientizador dos que consomem proteinas animais? Que novas reflexoes surgirao, que nao as ja estabelecidas pela distincao entre os termos “vegetarianismo”, “veganismo”, “ovolactovegetarianismo”? No que consiste esse suposto “revigoramento” citado no texto? Trata-se apenas de uma questao etimologica?

    Para mim, pelo que entendi desse texto, nao ha nenhum avanco em introduzir o uso desse termo.

  22. Uma ressalva importante.

    O texto original da Sociedade Vegana fala em dieta “exclusivamente” de alimentos vegetais, não “estritamente baseada” em vegetais. Se tivesse dito “estritamente”, apenas, teria entendido como possível sinônimo de exclusivamente. Mas o “baseada” deixa margem para outras partes ‘acessórias’, ‘adicionais’ (leite, ovos ocasionais ou nem tanto), não ‘principais’, não?

    “Está claro que o termo originalmente se referia àquelas pessoas que se propunham a viver de alimentos exclusivamente vegetais, havendo muitas evidências históricas desse fato. Tanto é que a precursora da Vegetarian Society, fundada em 1843, se chamava The British and Foreign Society for the Promotion of Humanity and Abstinence from Animal Food (Sociedade Britânica e Estrangeira para a Promoção do Humanitarismo e Abstinência de Produtos de Origem Animal) e não Sociedade pela Abstinência de Carnes. Instituições que advogavam o vegetarianismo antes mesmo da criação da Vegetarian Society, como a Bible Christian Church e a Alcott House, já utilizavam o termo dentro desse conceito. Além disso, uma alteração de “Vegetable Diet” para “Vegetarian Diet” é um passo mais provável do que a busca por um radical na língua latina.

    A confusão teve origem na própria Vegetarian Society do Reino Unido, por volta de 1888, quando seu presidente, J. B Mayor, preocupado com o pequeno número de associados à sociedade, quis redefinir o próprio termo, de modo a torná-lo mais abrangente. Professor de latim na Universidade de Cambridge, Mayor não teve dificuldade em associar “vegetarianism” a “vegetus”, dissociando-o de “vegetable”.”
    http://www.sociedadevegana.org Texto: Protovegetarianismo

    Li mais um pouco sobre o assunto. Além de rever os artigos, vi novos, como esse citado abaixo, que corroboram essa citação com diversas fontes históricas: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_vegetarianismo.

    Não posso deixar de concordar que as informações que temos sustentam com maior credibilidade a ausência de quaisquer produtos de origem animal na dieta que se denominou vegetariana em determinado momento da história (antes, ao que se conhece, a dieta esteve associada a dieta Pitagórica, Vegetable Diet, Dieta de abstinência de alimento animal, etc.). Mas antes mesmo de uma definição ter surgido por um determinado grupo de pessoas, me parece que já existiam diferentes tipos de concepções em relação às motivações para uma dieta sem carnes ou para uma dieta exclusivamente vegetal.

    Todos parecem concordar que o termo vegetariano carrega um sentido e significado que mudou desde sua origem, como muitos termos que existem. E não só em relação à definição da inclusão de ovos e leite. Ao longo da história, antes mesmo de receber um nome, essa dieta se associou com diferentes motivos para não consumir animais, principalmente religiosos, e saúde. Foi na época que foi cunhado e um pouco antes, ao que tudo indica, que as questões morais e éticas começaram a surgir. Hoje em dia foram ampliados os motivos para questões ambientais, além dos outros três. Esse é o fato, isso aconteceu.

    Até onde conheço, a dieta sem produtos animais nunca esteve exclusivamente associada (ao longo da história e antes mesmo de ser conhecida por ‘vegetarianismo’) com questões éticas e morais.

    Ao longo da história diversos termos deixaram de ser usados por problemas como possivelmente este (vegetarianismo), perderem o sentido original. Pode ser que as primeiras pessoas que usaram o termo, estivessem se referindo a uma dieta exclusivamente vegetal por questões éticas. Mas o termo foi ampliado e passou a ser utilizado com outros sentidos, com diferentes motivações, pois as pessoas precisaram dele (na nova definição ampliada) para poder se definir e se diferenciar de quem não tinha o mesmo tipo de dieta, por diversos motivos que poderíamos pensar, dentre eles o tão acalentado orgulho por não comer carne (como se comer ovos e leite fosse aceitável). As pesquisas em saúde também devem ter tido seu peso na diferenciação dos ‘tipos de vegetarianos’. Não quero dizer que sejam motivos defensáveis para usar o termo, ou se referir as pessoas que os usam por motivos que não são os éticos. É um assunto que tomou dimensões complexas.

    Por fim, quero dizer que penso ser melhor investimento de energia e tempo disseminarmos o veganismo, e tratarmos a dieta do vegano como vegetariana estrita ou vegetariana ética (ou dieta vegana), deixando de lado o desejo de corrigir ou restaurar os significados das palavras, usando-as, antes, conforme possam nos ajudar. O termo vegano, de forma geral, está bem claro quanto às suas motivações éticas, a defesa dos Direitos Animais, ou outras tantas questões relevantes para a defesa animal. E o termo vegetariano estrito ou ético será mais facilmente entendido que qualquer tentativa de refundar termos. Fundamentalismo teórico não deveria ser mais premissa para nenhuma filosofia ou perspectiva para pensar a realidade, desde que Nietzsche declarou morte a metafísica.

    O que importa é que comportamentos temos frente aos outros, humanos e não-humanos, e que tipo de comportamento vamos ensinar. As palavras, essas eu vou usar conforme precisar delas e do sentido que posso transmitir para conseguir compartilhar conhecimentos e modificar os comportamentos dos humanos em relação aos animais humanos e não-humanos.

    Para refletir um pouco sobre conceitos, sugiro a leitura: “Contra o conceito” http://ghiraldelli.pro.br/2011/01/03/contra-o-conceito/

  23. Prezado Eduardo,

    De vez em quando, o homem pode se tornar até canibal. Todo cuidado é pouco com a nau dos esquisitos, especialmente se ela vier a naufragar em uma ilha deserta e aparecer algum desavisado paraquedista de lambuja.

    Prezado Bruno,

    Não vai arriscar ao menos uma lacônica réplica ao comentário-baleia do seu xará?

  24. Bruno seu texto está esclarecedor, excelente!

    É tão óbvio… vegetarianismo já pressupõe o não consumo de produtos de origem animal e ponto, sem balelas sobre ovo, lacto…

    No mais considero a proposta da Sociedade vegana muito oportuna.

    E quanto às críticas contra a Sociedade Vegana e outros… aqui e ali oras ta na cara que isso não passa de fogueira das vaidades (muito comum no movimento por sinal)e dor de corno pq a Sociedade Vegana reúne pessoas muito bem preparadas, um timaço, ao contrário da grande maioria que só sabe ficar batendo boca com com onívoros no orkut e afins, com argumentos muito frágeis, pra não dizer outra coisa.

    Somos poucos e as injustiças contra os animais são muitas, não podemos deixar que as vaidades se sobreponham à causa.

  25. Prezada Fabiana,

    Da mesma forma que é óbvio que o vegetarianismo pressupõe o não consumo de produtos de origem animal, a rigor ele não inclui o consumo de fungos, que, filogenetigamente falando, estão mais próximos dos animais do que dos vegetais. O que talvez não fosse tão óbvio no tempo de Pitágoras.

    Sem contar que o termo vegetarianismo se restringe apenas à dieta, não englobando inúmeras outras formas de exploração. Algo como “não-exploradores-de-seres-sencientes” viria muito mais a calhar.

    Quanto ao debate provocado pela Sociedade Vegana (que futuramente terá que mudar o seu nome para Sociedade Vegetariana se sua proposta vingar), com certeza é muito salutar cobrar uma atitude coerente por parte dos adeptos do ovolactismo ao conceder-lhes o epíteto pouco lisonjeiro de prolactovegetarianos. Só por esta razão, valeu a iniciativa.

    Por fim, não há problema algum com a vaidade em si, desde que ela não prejudique a vida, a liberdade e a integridade física e psíquica de quem quer que seja. Não fosse por sua existência, o universo científico, filosófico e artístico seria consideravelmente mais pobre. Ainda bem que o Bruno Müller não é exatamente uma das pessoas mais humildes que eu conheço. Que ele continue assim!

    Atenciosamente,

    Cláudio Godoy, sem-Orkut & divulgador semanal dos direitos animais em plena rua

  26. Caro Bruno A,

    Realmente não há o que acrescentar. Ninguém tem o monopólio das definições. Os conceitos mudam e mudam… Eu já dei o exemplo da democracia. A democracia moderna não é a democracia grega. No entanto, o termo persiste.

    Seria esta observação contraditória com o propósito do “resgate” do sentido original? Nem um pouco. Se ninguém é “dono” das definições, todos têm direito a propor novas interpretações do conceito, inclusive as que retomam seu sentido original – da mesma forma que algumas pessoas defendem que a democracia deva voltar a ser o que foi a democracia grega, nós queremos que o vegetarianismo volte a ter sua definição original.

    Quanto ao vegetarianismo ético, graças ao maravilhoso trabalho de pessoas competentes e bem intencionadas, ele hoje é mesmo a minoria dos casos. Não era assim quando o conceito surgiu.

    Quanto a esse papo pós-modernista de anticonceito, me desculpe, mas “bobagem” é o termo mais suave e gentil que consigo pensar como réplica. Meu texto é autoexplicativo nesse sentido. Toda palavra é um conceito, eles são necessários para a comunicação, e sem eles não podemos entender, explicar nem intervir na realidade à nossa volta. Só que, claro, os pós-modernistas não acreditam em “realidade” também. Para você se desintoxicar dos venenos do pós-modernismo, recomendo “As Ilusões do Pós-Modernismo”, de Terry Eagleton, Jorge Zahar Editor.

    Abs.

  27. Dileto Cláudio,

    Algumas observações:

    1) Por algum misterioso motivo, os emails dos comentários têm ido para minha caixa de spam, razão pela qual não estou a par das discussões.

    2) Lacônico??? Você sabe que esse termo não existe no meu vocabulário. Acho que você quis dizer “prolixo”.

    3) A Sociedade Vegana não precisa mudar de nome pois, como TAMBÉM já dito nesse texto, o vegetarianismo é UMA dimensão do veganismo.

    4) Cansa ficar repetindo argumentos.

    5) Acho que seu trabalho de “fumigação” de mentes (proponho a mudança do conceito que você usa no seu email particular, já que ele é “ligeiramente” especista) precisa cuidar um pouco das tendências a assolar os meios pró-direitos animais da maior cidade do Brasil. Sugiro uma ampliação de abordagem para desentulhar o movimento de todas as tranqueiras pós-modernistas. Pode começar a se familiarizar com o tema através do mesmo livro que recomendei ao seu parceiro de ativismo de rua. Confio nas suas credenciais para levar adiante esse trabalho.

    Att,
    Bruno Müller, desobsessor & desintoxicador de mentes contaminadas pelo relativismo, esoterismo, pós-modernismo e todas as formas de neocrendices

  28. Ilustríssimo Müller,

    Tentarei ser breve, como sói ser a infeliz sina dos preguiçosos e menos talentosos.

    Um prolixo que se preze nunca se cansa de ficar repetindo argumentos em todos os temas e variações impossíveis e inimagináveis para a nossa humilde e vã filosofia.

    Em segundo lugar, deixa o pobre do seu xará se divertir um pouquinho com o pós-modernismo. Pode ter certeza de que, quanto mais escatológico o seu relativismo se tornar, maior será o tombo no mais absoluto absolutismo.

    Por fim, só para ficar com a última palavra, o argumento de que cogumelos NÃO são vegetais ainda não foi devidamente desconstruído.

    Atenciosamente,

    Seu querido pupilo

  29. Minucioso Cláudio,

    Proponho a seguinte saída para o dilema ético-conceitual dos cogumelos:

    Incorporemos um “adendo” negativo à definição de vegetarianismo: dieta de base vegetal que exclui qualquer alimento de origem animal.

    Alternativamente, podemos divulgar a mais nova categoria de vegetarianismo por você mesmo criada: fungo-vegetarianismo.

    Alerta-se, contudo: se formos minuciar todos os alimentos que comemos nas suas respectivas categorias ou “reinos”, teremos um problema muito mais amplo que o dos cogumelos. Minero-Monera-Fungo-Vegetariano? Esqueci alguma categoria?

    Enfim… “fungo-vegetariano” também não parece ser suficiente. Então, podemos criar um conceito inteiramente novo… que tal “insencientívoros”? Mas isso também cria problemas… afinal, leite e ovos não são sencientes, então um insencientívoro pode comê-los? Voltaremos ao mesmo problema do início…

    O fundamental é que nossa dieta é de base vegetal, e exclui alimentos de origem animal. Esta, para mim, é uma definição que basta.

    Se esta resposta não o satisfez, ainda posso recorrer ao Escapismus Maximus pós-modernista: nenhum conceito é perfeitamente completo e abrangente, pois nossa linguagem e percepção da realidade são incompletas e fragmentadas. Mas isso seria trapaça.

  30. Eu bem que gostaria de ser um vegano intelectual para participar acirradamente dessas discussões, mas sou “pobre” neste aspecto!!!
    E por não ser um vegano intelectual, só me resta a fraternidade para todos que leram e continuam lendo os artigos publicados na ANDA:

    Um abraço veganamente fraterno!!!

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