De olhos bem fechados


Este texto é inspirado no poema “Visão 1944”, que Carlos Drummond de Andrade escreveu sobre a guerra. Tentei aqui adaptá-lo para uma similar situação de violência: o massacre institucionalizado de outras tantas vítimas da insensibilidade humana. Pedindo escusas à memória do grande poeta brasileiro, pela ousadia, apresento aos leitores da ANDA minha singela versão literária, chamada “De olhos bem fechados”:

Meus olhos são pequenos para ver
as matas verdejantes transformadas em pasto.
Árvores assassinadas, pássaros desorientados
e o fogo atroz que se alastra lento, impiedoso.

Meus olhos são pequenos para ver
a vasta solidão dessa terra corrompida.
Onde vida já não vive, apenas agoniza
sob as botas dos que a tomam e silenciam.

Meus olhos são pequenos para ver
os visgos, as gaiolas, o furor das espingardas.
Filhotes separados das mães,  mortos-vivos
sem cor sem perfume sem alma sem nada.

Meus olhos são pequenos para ver
uma praia de águas viscosas, letais.
Mar em que a mancha rubra se espalha:
memória insepulta de lanças e arpões.

Meus olhos são pequenos para ver
a agonia dos touros espicaçados nas arenas.
E nos picadeiros dos circos a triste mágica
que faz de seres livres mudos fantoches.

Meus olhos são pequenos para ver
rãs trepanadas, coelhos cegos,  ratos desfalecidos.
Atirados ao cesto de lixo, ante o horror
daqueles que aguardam a sua hora de morrer.

Meus olhos são pequenos para ver
esses cães trêmulos atrás das grades do depósito.
Maltratados, sujos, famintos, sem esperança
que lhes redima da injeção derradeira.

Pequenos os meus olhos, pequenos para ver
as chibatas estalando no dorso dos cavalos.
Voz latejante da escravidão que não cessa
Ó distante sonho de um tempo de delicadeza.

Meus olhos são pequenos para ver
a faca trespassada no coração, os gritos quase humanos
que vêm do fundo das pocilgas, dos longínquos sítios
em que o cimento branco se lavará em sangue.

Meus olhos são pequenos para ver
as galinhas aterrorizadas suspensas mutiladas.
E os bois em fila, conduzidos a golpes de pau
para a fúria das marretas e dos facões.

Meus olhos são pequenos para ver
na vitrine do restaurante um cabrito escalpelado.
Peixes sem cabeça, frangos desossados, uma profusão de carne
pendurada morta torturada que logo será servida às mesas.

Meus olhos já não querem ver
tanta injustiça neste mundo mundo vasto mundo,
mundo que se esvai em dor e sofrimento.
– Mas eles vêem, pasmam, baixam desolados…


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