Tamara Bauab

Libertação da Terra

A humanidade começou a caminhar sobre a Terra há pelo menos 3 milhões de anos  (Quinn; 2007) e durante muito tempo não temos nenhuma notícia cientificamente aceita, só conhecemos a história de uns 5 mil anos para cá, acredita-se ser esta espécie primitiva dotada de tanta inteligência como a atual espécie humana. Podemos imaginar que, durante todo este longo período, a humanidade optou pela natureza, por ser mais uma entre as espécies em detrimento da cultura e da civilização.

Uma espécie que evoluiu sem trabalhar, como nômade, coletando e caçando até o surgimento da sociedade pré-agrícola, que se estabelece, toma posse da terra, domestica os animais e molda o ambiente a suas conveniências. Este modo de vida permitiu o acúmulo de alimentos o que possibilitou que homens que não trabalhavam pudessem pensar…e pensaram, pensaram e encontraram fórmulas cada vez mais poderosas de consumir o mundo, de sujar o mundo, de escravizar os seres.

Atualmente o pensamento humano, em constante modificação, desenvolve-se em uma direção,  em resposta a atual calamidade ecológica e manifesta-se em uma constante preocupação com os males que nosso modo de vida causou ao ambiente.

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A ecologia rasa, antropocêntrica  pensada na década de 70, é uma postura da humanidade de tentar melhorar nossa relação com o meio, numa atitude bem estarista que pretende minimizar os danos ambientais, fala em desenvolvimento sustentável que ainda assim explora o meio sem esgotar suas reservas.

Mais recentemente este pensamento ecológico evolui e temos o surgimento da ecologia profunda, biocêntrica, que é capaz de reconhecer a interdependência entre todos os fenomênos da natureza e entre todos os seres vivos e o ambiente.

A filosofia ecológica reconhece  a necessidade de uma mudança de percepção e de valores que norteem nossa sociedade, mas isso vai contra  as estruturas de poder e do sitema político-econômico vigente.

O racionalismo, o cientificismo e o materialismo que impregnam nossa sociedade nos últimos séculos, embora sejam motivo de orgulho da humanidade ocidental branca, leva-nos a cometer atos profundamente antiecológicos e egoístas, que destroem e contaminam  grande parte do planeta.

A humanidade começa a despertar para o abalo que nossos atos causaram à vida do planeta, os movimentos ecológicos surgem como um sintoma desta gradual, lenta e irreversível conscientização, de que não estamos apartados da natureza, somos parte deste grande organismo chamado Terra, que por sua vez é parte de um organismo maior e assim infinitamente estamos todos ligados; temos também a consciência de que a ganância do poder masculinista  dominador ameaça a vida de todo o planeta e consequentemente a vida humana.

O ecofeminismo surge como uma oposição aos padrões patriarcais  impostos à humanidade que acabam por normatizar a violência e força bruta e nos acostuma à idéia de explorar e sermos explorados de diferentes formas, sem nos darmos conta.

Capitalismo, militarismo e hierarquismo são formas de dominação baseadas nas teorias mecanicista e cientificista que visam controlar a mente de forma a eliminar contestações.

A exploração da mulher, da natureza e de tudo que seja o outro, que não o homem socialmente superior, é aceita e considerada natural pela equivocada “lei do mais forte”.

A percepção humana da realidade é então limitada a padrões éticos convenientes à manutenção do poder na mãos de alguns.

O ecofeminismo é mais um desdobramento no leque de nossos horizontes éticos, aflorando a percepção da Terra como um organismo dotado de vida própria, que como todo organismo é influenciado e influencia a vida de suas partes, que não podem existir independentemente, dismistificando a crença de que o homem é filho eleito de um Deus todo poderesoso e que toda a natureza foi criada para o seu prazer e bem-estar.

Nos comportamos como uma espécie câncer, multiplicamo-nos desordenadamente, evitando a morte a qualquer custo, destruímos tudo a nossa volta, ocupando todos os espaços que não nos seriam destinados.

Precisamos recuperar nossa ligação de irmandade e respeito com todos os outros seres da Terra e com a própria Terra, reaprender a relacionarmo-nos com o que nos é exterior mas não estranho, não vermos mais nossos irmãos, humanos ou não, como o outro, como o sistema opressor nos fez acreditar. Precisamos voltar a nos conectar com a Terra, entendermos que somos “da” Terra e não o contrário, a propriedade é o roubo da natureza.

Essa nova maneira de pensar tenta dar conta do que ao racional-cientificismo não deu: preservar a vida.

O pensamento andro-antropocêntrico viabilizado pelos técnicos e cientístas objetificou a vida endossando o paradigma mecanicista cartesiano tem o mérito de ser capaz de destruir 8 vezes a vida na Terra e quem sabe ..fora dela.

Nossa sociedade civilizada destrói, polui, desmata, mata, provoca mutações, tortura, violenta, estupra, saqueia a natureza, incluindo a própria espécie, em nome de um progresso que fez de nós os seres mais infelizes que jamais existiram.

O modo como toleramos a exploração cometida contra a mãe-Terra e seus filhos é apenas um reflexo de nossa tolerância com a exploração cometida contra as mulheres, os negros, as crianças, os índios, os pobres, os povos dominados. Mesmo o que adotamos como moral e ético é um sistema inscontante que tentamos impor à natureza, conceitos que variam no tempo e no espaço e têm que ser impostos a força para que os seres humanos os obedeçam.

Ainda não somos éticos e quanto mais nos distanciamos da Terra mais nos distanciamos de um um ideal de paz e harmonia. Enquanto não pararmos de tentar subjugar a natureza, forçar a Terra a nos dar cada vez mais, escravizarmos os animais, sofreremos os males que provocamos.

O esgotamento da Terra, devido a antinaturalidade desta nossa concepção de civilização, que ainda hoje é defendida pelos líderes políticos, empresários, cientístas e instituições que lucram com a alienação e massificação humana, perpetuam ações antiecológicas que sejam favoráveis a seus interesses gananciosos. A mídia trata de embotar o senso crítico de forma que a maior parte de nossa sociedade aceite a destruição da natureza como uma calaminade inevitável e continue a viver consumindo o planeta.

As “jaulas” são as mesmas, jaulas da opressão humana condicionante que nos faz escravos voluntários e cegos mediante a máquina de morte que que vem devastando todo o planeta; mais da metade dos animais e plantas que existiam na Terra há 4 séculos atrás já foi exterminada pela ação do homem. A maior produção da nossa sociedade civilizada é o lixo, um lixo  desconhecido da natureza.

A agressividade do paradigma andro-antropocêntrico é tamanha que já se torna impossível não despertar, não abrir os olhos ante a degradação que o homem causou a natureza. Os efeitos nocivos causados ao ambiente agora é algo difícil de se escoder, os chamados recursos naturais estão se esgotando, vivemos um colápso sócio ambiental, embora grande parte de nossa sociedade ainda se recuse a enxergar, surgem em todo o mundo pensamentos e vontades de dizer “não”, de desmasculinizar, de desumanizar, de libertar…

A filosofia ecofeminista propõe  reconhecimento de um “eu” ampliado, de modo a perceber a natureza como um contínuo e não como o outro estranho e externo a nós. Assim não precisaremos de uma moralidade imposta pela religião ou Estado, nenhuma ética vinda de cima, paternalista. Ampliando  nosso “eu”ecológico nos percebemos parte integral do mundo e o sentido do cuidado com o próximo, seja ela animal, vegetal ou mineral será o cuidado com nós mesmos.

Esta é a nova maneira de pisarmos sobre a Terra, um veganismo ampliado, além do prato de comida, uma ética que abrenge a maioria das nossas ações, pois a libertação animal está diretamente ligada a libertação da Terra e a libertação humana.

 


Tamara Bauab,Bióloga Antivivisseccionista,Ativista pelos Direitos dos Animais

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