Educação Vegana - Leon Denis

Contraponto

Nos últimos três anos, toda vez que procuro levar algum profissional vegano, em especial da área da saúde para palestrar na escola ouço da coordenação pedagógica, vice-direção ou de alguns...

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20/09/2010 às 14:07
Por Redação

“Quando os alunos examinam, podem começar a criticar-se mutuamente,
a criticar seu professor, seu manual, seu diretor e até seus pais.
Os preconceitos, os valores e os tabus podem ser revelados.”
(Raths)

Nos últimos três anos, toda vez que procuro levar algum profissional vegano, em especial da área da saúde para palestrar na escola, ouço da coordenação pedagógica, vice-direção ou de alguns colegas docentes especistas de plantão a seguinte frase: “é preciso um contraponto”.

Mas não se enganem os leitores e leitoras da ANDA. O que o corpo burocrático da escola quer dizer é que, se eu levar um nutricionista ou nutrólogo vegano para falar da dieta vegetariana para as adolescentes, a escola precisa chamar um outro especialista para falar o oposto do vegetarianismo. Isso para eles é contraponto. Tentarei explicar por que discordo de que isso seja contraposição. 

O interessante nessa história é o estado crônico de alienação que a tradição lega a uma pessoa humana. O que o corpo burocrático e não menos o corpo docente não entende ou faz de conta que não entende é o seguinte: esses adolescentes passaram seus poucos 14,15, 16 ou 17 anos recebendo explícita e ocultamente, direta e indiretamente, uma formação, a ideia, de que tudo que eles usam que é proveniente de outro animal é natural. Ou seja, o habitus especista, as disposições advindas da experiência cotidiana incorporada desde a mais tenra idade tornam-se o aluno, por um processo de “interiorização da exterioridade”. O capital cultural e social especista são passados ao aluno como natural, e por ele incorporado como tal. Como, bebo, visto, me divirto à custa do sequestro, confinamento, tortura e assassinato de outro indivíduo senciente porque “sempre foi assim”, “tá na bíblia”, “é a cadeia alimentar”, “somos racionais” etc. São as desculpas oriundas dos valores estabelecidos na antiguidade ocidental e, desde então, seguidas sem passar por nenhum abalo estrutural. Alguns pensadores até o final do século XIX deram algumas marteladas nessa estrutura, mas nada que a colocasse abaixo.    

Na segunda metade do século XX, homens e mulheres de espírito crítico aguçado pensaram e desenvolveram as dinamites que podem pôr abaixo a discriminatória filosofia moral tradicional, qual seja: o veganismo e os direitos animais. E com as minhas aulas de veganismo e direitos animais os alunos aprendem que cultural é uma coisa, natural é outra. Moral é uma coisa, Ética é outra. Que a dieta vegetariana é coerente e justa com os outros animais e, por tabela, com o meio ambiente natural e seu corpo. Que a adoção do modo de vida vegano é o primeiro passo para pôr fim à reificação dos animais não humanos, pois só o veganismo faz verdadeiramente oposição ao especismo. Que defender os direitos animais não é rebaixar os Direitos Humanos, mas ampliá-los.

Portanto, quando o corpo burocrático diz que trazer uma nutricionista carnista na escola é fazer um contraponto às minhas aulas, eles cometem um erro pueril, mas compreensível e perdoável, levando em consideração o peso da tradição especista à qual eles foram formatados moral e cognitivamente. Não podemos esquecer que essa atitude advinda dessa incorporação não é mecânica, dada inflexivelmente da realidade externa (de fora para dentro), mas fruto de uma relação dialética entre a estrutura objetiva externa e a prática, as disposições estruturadas.  

Trazer um nutricionista carnista na escola não é fazer um contraponto ao que eu ensino, é buscar legitimar e reproduzir um trabalho pedagógico fundamentado num arbitrário cultural que já está estabelecido pela tradição como normal, natural, inalterável. Ele vai falar o que todos os dias – desde o nascimento – esses adolescentes ouvem; seja dos pais, dos professores, dos líderes religiosos e das mídias. Isso não é contraponto, é inculcação e imposição de um arbitrário cultural, ou seja, uma violência simbólica. Procurar através de discursos e práticas tirar os alunos de uma possível adoção do modo de vida vegano e do ativismo pró-direitos animais não é contraposição, e sim legitimação do status quo.

O corpo burocrático não entende que quem faz o contraponto sou eu. Quem anda na contramão da injustiça naturalizada sou eu. Em uma sociedade especista, quem faz o contraponto é o veganismo. Somente com uma educação vegana clara, objetiva, não violenta e com uma didática da provocação, as pregas, rugas e dobras morais que a tradição nos legou serão desfeitas.   

Concluo com a seguinte reflexão do sociólogo Pierre Bourdieu em A Miséria do Mundo:

“A família e a escola funcionam, inseparavelmente, como espaços em que se constituem, pelo próprio uso, as competências julgadas necessárias em determinado momento, assim como espaços em que se forma o valor de tais competências, ou seja, como mercados que, por suas sanções positivas ou negativas, controlam o desempenho, fortalecendo o que é ‘aceitável’, desincentivando o que não o é, votando ao desfalecimento gradual as disposições desprovidas de valor (…)”.