Na forma tradicional de se pensar a ética, os animais não humanos não são considerados dignos de respeito, a menos que sirvam a algum propósito, interesse ou necessidade humana. Naquele modo de pensar, só são dignos de respeito os seres humanos, e a razão pela qual o são é o fato de serem dotados de razão. O cuidado ético destina-se somente àqueles que podem retribuir a ação boa com outra boa, ou ainda melhor. O fim para o qual a ética existe é apenas atender mais uma necessidade considerada genuinamente humana: dar e receber na mesma medida, a da justiça.

Fora do círculo da racionalidade capaz de retribuir o bem com o bem ou com algo ainda melhor, ninguém está contemplado na ética antropocêntrica. Assim, os filósofos tradicionais trouxeram ao longo dos séculos, para não dizer, dos milênios, uma concepção na qual animais não humanos e ecossistemas naturais não são objeto de consideração ou respeito moral.

No último quartel do século XX, influenciados pelos argumentos do teólogo britânico defensor dos animais, Humphry Primatt, o filósofo australiano Peter Singer, o cientista britânico Richard Ryder e o teólogo britânico Andrew Linzey rompem com a ética antropocêntrica racionalista e colocam na pauta do debate a questão da capacidade para sentir dor, sofrer e ter a integridade física e psíquica violada pela ação de agentes morais, como critério para se julgar se um ser merece, ou não, consideração moral. Com essa virada, a ética deixa de seguir o eixo da racionalidade ou capacidade de retribuir o bem com o bem, e passa a considerar que nenhum agente moral tem direito de fazer o que quer que seja, caso sua ação implique causar dor, dano, sofrimento ou morte a qualquer ser dotado de sensibilidade e consciência. Os filósofos tradicionais não saíram de sua posição antropocêntrica, mas os críticos passaram a adotar o argumento da senciência para definir o limite da liberdade humana na interação com outros animais destituídos da forma humana da razão.

O conceito de dano e o de sofrimento abrem o círculo da comunidade dos seres capazes de serem afetados pelas ações dos agentes morais. Com esses dois conceitos cai a barreira que separa os humanos dos demais animais. Entre as ações mais capazes de causar dor, dano ou sofrimento a um animal, seja lá de qual espécie for, inclusive da humana, está o confinamento forçado. O animal é um ser vivo que se define pela liberdade física, no sentido de que provê seu corpo dos meios de subsistência através da capacidade de mover-se no ambiente natural e social próprio de sua espécie. Em cada animal se forma a mente capaz de mantê-lo em vida às próprias custas. Sem essa liberdade, a de prover-se a si mesmo com os meios que sua espécie lhe dá, o animal sofre. Se tal privação se prolonga, não apenas o corpo do animal sofre alterações, mas também seu espírito passa a enfraquecer, como se fosse gradativamente privado da mente que se formou desde o dia do seu nascimento para mantê-lo vivo e preservar o bem próprio que isso representa para si.

Os seres humanos, ao longo dos dois milênios nos quais prevaleceu a ética antropocêntrica e hierárquica, pela qual se nega aos animais o estatuto de seres dignos de consideração e respeito moral, consideram que seres vivos podem ser aprisionados, usados, explorados e até mesmo mortos para atender quaisquer propósitos humanos, porque são destituídos de finalidade própria, dado que não possuem a racionalidade típica dos humanos. Com esse pretexto faz-se de tudo com os animais, tratados como objetos dos quais nos apropriamos sem mais nem menos, como se não fossem seres vivos sensíveis, não tivessem uma mente própria de sua espécie, não vivessem para realizar os propósitos de sua espécie de vida. Os humanos chegaram a pensar com tal lógica, por muitos séculos, que isso também valia, mesmo em relação a outros humanos, considerados destituídos de alma: índios, negros e mulheres, por exemplo.

Tal lógica formata a mente da quase totalidade dos humanos, ainda em nossos dias. Animais são forçados ao nascimento sem que haja um ser humano interessado em suas vidas, apenas nos restos mortos de suas carcaças. Outros são forçados ao nascimento sem que haja um ser humano sequer interessado em que permaneçam em vida depois de serem exauridos por experimentos ditos científicos e médicos. Há animais que são forçados ao nascimento apenas porque humanos querem vendê-los como mercadorias, e com a mesma leviandade os descartam assim que apresentam algum “defeito”. Mas a lista das coisas que podemos fazer injustamente aos animais não para por aí. Alimentação, experimentação, estimação e diversão não esgotam o leque de maus costumes adotados e seguidos por muitos humanos quando se trata da vida animal.

Como se não houvesse matéria suficiente nesse mundo para ser plasticizada, humanos que se dizem artistas passam a usar animais vivos para montarem suas “criações”. O animal é usado com a mesma naturalidade com a qual se usa matéria inerte, como objeto. Para isso, é preciso ser levado do seu ambiente natural, confinado num espaço artificial que emite estímulos olfativos, sonoros, visuais e táteis não apropriados ao bem-estar da ave transformada em personagem numa montagem tirânica, pois o único ser beneficiado com o sequestro do animal de seu ambiente natural e social específico é o próprio artista, cujo nome passa a ser estampado nos jornais, na internet e vira alvo da crítica dos defensores dos direitos animais.

A ciência, do mesmo modo que a arte, tem costume de se autoqualificar de neutra. Na arte, como na ciência, não há espaço para qualquer juízo de valor, a não ser que o cientista ou o artista tenham seus projetos recusados pelas agências financiadoras. Daí, sim, eles passam a emitir juízos de valor sobre os pareceristas que lhes negaram o financiamento de suas performances “criativas”.

Um urubu tem direitos? Um humano tem direito de usar um urubu para fazer montagens performáticas numa exposição de arte? O que dá ao urubu o direito de não ser atormentado pelo artista? O que tira do artista o direito de atormentar o urubu?

Toda ação criativa implica uma intervenção humana na matéria fonte a partir da qual a mente criativa projeta ou inventa uma nova dimensão para aquilo que até então se julgava ser o “mesmo”. Novas formas nada mais são do que espaços novos, abertos para que a mente humana possa prosseguir com seus sonhos, escapando da imobilidade à qual sua materialidade parece lhe condenar (agradeço aqui ao arquiteto Américo Ishida a leitura de Mafesoli sobre o nomadismo…).

Mas, que sentido tem usar um ser vivo de outra espécie para plasmar uma realidade que, mesmo servindo à imaginação criativa ou à crítica criativa, possíveis à mente humana, de nada adianta ao animal sequestrado e confinado no espaço da mostra internacional de arte? Quando usamos outro ser senciente, que tem um bem próprio segundo o alcance e os limites de sua realidade biológica e, portanto, mental, sem que esse ser tenha qualquer proveito disso, estamos simplesmente, mais uma vez, explorando um animal para atender propósitos nossos, bastante triviais.

Uma coisa é interagir com seres vivos de outras espécies; outra, intervir em suas vidas de modo tal que sejam impedidos de gozar o que seu espírito ou mente lhe propicia. Nesse caso, nossa interação deixa de ser ética, pois implica uma inter-ferência, essa forma negativa de intervir na vida alheia ferindo-a ou trazendo-lhe prejuízos em vez de benefícios, ferindo, em vez de defender. Não adianta alegar que o animal está sendo bem tratado, porque cada espécie animal só é bem tratada se não for privada da liberdade de buscar por si mesma os meios de que necessita para assegurar seu próprio bem a seu próprio modo. Isso vale para todas as interações humanas com todos os tipos de animais. Lutamos, no Brasil, para que nenhum circo volte a usar animais em suas apresentações. É preciso que nenhuma mostra de arte seja autorizada a fazer uso de animais para criar realidades absolutamente desnecessárias ao espírito dos animais.

Deixamos de ser éticos quando fazemos aos animais algo de que eles não precisam, pois isso significa que o único interesse buscado é o daquele que teve a ideia de usar um ser vivo em sua montagem, como se esse ser fosse um vivo-vazio. Descartes afirmou isso, que os animais são vivos-vazios ou autômatas, há quase quatrocentos anos. Mas nos últimos vinte anos se publicou imensamente sobre a mente, os sentimentos, as emoções, a linguagem, a consciência e a racionalidade específicas de cada animal. Por que o artista não lê nenhum desses livros? Sua ação não está além do bem e do mal (Nietzsche). Se seu propósito, ao expor uma ave catartídea, é chamar a atenção dos visitantes para o fato de que esse animal se alimenta de cadáveres, por que o artista não se pôs ele mesmo na cena a comer cadáveres? Afinal, comer cadáveres lhe é algo bastante corriqueiro, habitual. Chamaria bastante a atenção dos passantes. Seu gesto seria olhado de forma indagativa. Poderia ter deixado o urubu em paz. Na natureza, o urubu faz uma faxina ao comer carnes em decomposição. Ao contrário, os humanos, em sua necrorexia, alastram lixo e sujeira pelo planeta afora, ao produzirem e abaterem animais para extrair matéria morta e ingeri-la como alimento. Um humano necroréxico bastaria para compor a montagem carnivorista. Urubus não podem escolher não comer carne decomposta. Humanos podem escolher não comer o que implica assassinato.

10 COMENTÁRIOS

  1. Namastê Professora!
    “Um urubu tem direitos? Um humano tem direito de usar um urubu para fazer montagens performáticas numa exposição de arte? O que dá ao urubu o direito de não ser atormentado pelo artista? O que tira do artista o direito de atormentar o urubu?”

    A lógica q adoto permite-me responder assim:
    Sim, o Urubu(bem como todos animais) tem direitos./ Não, os humanos não tem direito de usar qualquer ser capaz de sofrer, seja pra qualquer fim – uma vez que sua CIÊNCIA o coloca em posição superior./ O que dá ao urubu o direito de não ser atormentado é a compaixão, isto é, o desejo de não-sofrimento sobre quaisquer ser sensciente. E o que tira do artista o direito de atormentar o urubu é satyagraha, a força da verdade, por mim representado na soma da lógica com o reconhecimento do direito do outro de não sofrer> AHIMSA.

    Frases finais deste comentário:

    “por que o artista não se pôs ele mesmo na cena a comer cadáveres?”

    Complemento: porque a ignorância que caracterizou o showzinho poderia motivá-lo a comer as próprias fezes(ou as do referido urubu, se der mais público) já que em nenhum momento demonstrou se preocupar com o sofrimento causado por sua “obra de arte”. Ou seria, no dicionário infantilizado, “arte” sem obra, já que o protagonista “são os urubus”… ?

    Namastê PROFESSORA

  2. Parabéns! Está tudo dito, e de forma extremamente didática e esclarecedora. Não há como argumentar em contrário. Tudo o que se disser a favor do uso e da permanência dos urubus na “obra de arte” cairá no vazio, em vista das brilhantes colocações da autora.
    Maria Hedwiges da Silva
    Brasília, DF

  3. Esse artigo deve ser enviado ao tal artísta plástico, aos legistas e a todos os centros de arte, escolas, e áres afins.
    Já houve aquele fato nefasto da exposição de um cachorro, que vivenciou todas as etapas desumanas da vida: o confinmento, a fome, a sede e a morte. Isso com o aval dos amantes da arte. Oh, céus, que tortura agoniante e sem necessidade. Um crime bestialmesmo.
    Irinéia Coêlho.
    Aqui em Manaus, o artista plástico, Roberto Evangelista, apresentou uma exposição com 100 gaiolas dependuradas do teto. Dentro de cada uma delas, um par de baladeiras (estilingue) e na gavetinha do alpista um manifesto sobre o costumeiro e terrível aprisinamento de pássaros. Moral da mensagem: “a arma do crime é que deve ser detida e não a vítima dela.
    Muito oportuno o artigo= aula de Sonia T.Felipe. Oarabéns,
    Irinéia Coêlho,

  4. Gostaria de dizer que este texto “quase” alcança o Brilhantismo. Sou sim um grande amante da natureza, respeito toda a forma de vida, mas provavelmente por ser EU um humano carnivoro, não consigo chegar a certos entendimentos e iluminação.

    Faço então algumas considerações:
    1 – O final do texto me parece inclinado quando diz: “Na natureza, o urubu faz uma faxina ao comer carnes em decomposição. Ao contrário, os humanos, em sua necrorexia, alastram lixo e sujeira pelo planeta afora, ao produzirem e abaterem animais para extrair matéria morta e ingeri-la como alimento”. É como se somente os humanos carnívoros fizessem isto, quando na verdade TODA A RAÇA HUMANA SEM EXCEÇÃO PRODUZ ABSURDA QUANTIDADE DE LIXO EM SUA EXISTÊNCIA. Uns mais, outros menos e os defensores de animais não são o agente de diferenciação destes índices.

    2 – O Artista Nuno Ramos, se utilizou dos Urubus em questão, inclusive como forma de protesto sobre o comportamento da raça humana, e isto é claro na obra dele quando podemos ter os urubus como os humanos da cidade.Acredito sim, que tais urubus nao fossem preciso se a espécie humana nao necessitasse ser representada muitas veses por estes animais.

    3 – O Artista, ainda teve toda a preocupação com o transporte das aves, a permanência de seu tratador no local e a presença do veterinário no período de adaptação das aves.

    4 – AS AVES NÂO FORAM RETIRADAS DA NATUREZA e sim do cativeiro onde vivem que é 30 VEZES MENOR, do que os que elas estão expostas no momento.

    5 – Estas aves, JÁ ACOSTUMADAS COM CATIVEIRO, fazem parte de um projeto de REPRODUÇÃO PARA PRESERVAÇÃO DA ESPÉCIE no Parque dos Falcões em Sergipe.

    Então, considero que o texto é realmente maravilhoso, mas não chega ao brilhantismo por falhar com determinadas verdades em questão e me parecer denegrir a imagem do homem que come carne.

  5. Me parece que o cidadão aí em cima não conseguiu entender muito bem o texto…

    1 – A autora não diz, em nenhum momento, que as pessoas que não comem carne não produzem lixo. Ela compara somente UMA questão dentre tantas que poderiam ser abordadas: a alimentação. A alimentação e o hábito natural dos urubus de consumirem carne e completarem um ciclo VERSUS o hábito comercial, forçado, anti-natural dos homens de produzirem carne para consumo. De produzirem vidas com o único intuito de matá-las, independentemente da falta de respeito para com essas vidas e do impacto ambiental que isso gera.

    2 – A espécie humana NECESSITA ser representada por esses animais? Por que? Por que esses animais têm hábitos [naturais] imundos e representam uma forma de vida tão baixa e tão suja a ponto de chocar os intelectuais que irão observar a obra e comparar suas próprias vidas perfumadas com a desses urubus imundos?
    Ah! Sim!

    3 – Se foi necessário terem acompanhamento veterinário para promover a adaptação das aves, é mais uma prova do impacto desnecessário na vida desses bichos.

    4 e 5 – Estas aves, já acostumadas com o cativeiro, vivem em cativeiro para promover a REPRODUÇÃO com o intuito da PRESERVAÇÃO DA ESPÉCIE. Ou seja, alguns humanos, tentando consertar um pouco da porcaria que sua própria raça provomeu em destruição da vida no planeta, NÃO TÊM MUITA ESCOLHA a não ser criar as aves em cativeiro para garantir a continuidade da vida dessa espécie.
    Não é o caso de “os bonzinhos” X “o mau”, é o caso de: o que infelizmente é necessário X o que não traz nenhum benefício, ao contrário, causa um mal estar desnecessário a essas vidas sobre as quais nós não temos [ou não deveríamos] ter nenhum poder.

  6. É preciso lembrar que toda vez que tiramos um animal de seu ambiente natural e social próprio, ainda que com o intuito de preservar os genes que eles trazem consigo, estamos apenas “preservando seus genes”, e um aglomerado de genes não é sinônimo de “espécie” de vida. A espécie, para ser genuinamente preservada, precisa ser preservada em seu espírito próprio, “específico”. Quando preservamos um animal vivo apenas em sua figura biológica, quando, em resumo, o preservamos confinado, matamos seu espírito. Passadas duas ou mais gerações, nenhuma lembrança haverá na mente dos jovens nascidos, de como se é aquele ser vivo em sua interação criativa na rede natural e social na qual sua espécie originalmente viveu. Matar o espírito do animal e guardar apenas seu corpo para deleite é uma das formas mais brutais de violência contra eles. Imagine, para entender o que estou escrevendo, que nos tirassem agora de nosso ambiente natural (social) e nos confinassem num espaço artificial, sem contato algum com outros seres de nossa espécie, sem comunicação e expressão plenas da nossa mente com todos os demais seres vivos. Imagina que nos reproduzíssemos mesmo assim, e que nossos filhos vivessem nesse cativeiro e tivessem eles também seus próprios filhos. Ao final da terceira geração, o que sobraria da mente desses seres que pudesse ser comparado ao mundo mental nosso antes do sequestro?
    Em resumo, animais mantidos em cativeiro, ou seu sêmen mantido congelado para ser levado à fecundação no futuro nada mais preserva do que a matéria com um projeto específico de organismo. O que não se pode manter vivo, tanto no congelamento quanto no confinamento, é a mente do animal. Tirar animais de seu ambiente natural e social para fazer montagens de quaisquer espécies é tirar deles o espírito que sua espécie possibilitou a eles forjarem com suas experiências, emoções, afetos, inteligência e racionalidade próprias.
    Obrigada Luciana, Lucks e aos demais leitores por postarem suas críticas
    sonia t.