Cães continuam ficando para trás na desocupação de área da serra do Mar


A remoção dos moradores de bairros nas encostas da Serra do Mar, em Cubatão (SP), para ocuparem conjuntos da CDHU continua tendo como efeito colateral o abandono de animais.

Sempre que a cozinheira Renata Bergman, 27, avista um carro da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) no bairro Água Fria, Cubatão, onde mora, ela vai atrás.

Sabe que o carro é indício de que mais um vizinho está sendo removido da serra do Mar – e que algum cão ou gato será abandonado por ele. “Já virou rotina. Espero encontrar ao menos um bicho. Às vezes preso, sem comida.”

Muitos dos animais abandonados têm sarna, bicheira, pulga, carrapato. Ela leva para casa os mais debilitados. Após um mês, eles ficam com a aparência mais saudável: “A sarna sai, a bicheira cicatriza”. É aí que ela tenta doar, quase sempre sem sucesso.

Na casa de Renata moram hoje 14 cães e uma gata, mas ela também calcula alimentar 36 cães de rua. Na casa de Áurea Dantas, 51, do bairro Cota 200, são cerca de 30 cachorros. Na mesma região, Helena Ribeiro, 46, abriga outros 24 cães e seis gatos.

Helena Ribeiro cuida dos cães e gatos abandonados por famílias removidas da Serra do Mar para um prédio da CDHU. (Foto: Luiz Carlos Murauskas/Folhapress)

As três precisam de desembolsar parte do salário a fim de comprar alimentos e remédios para os bichos que os vizinhos não quiseram mais, após serem transferidos para um prédio da CDHU. Dizem que contam com apoio de ONGs e que a prefeitura local não as ajuda nem a castrá-los e vaciná-los.

Helena mora com o marido, dois filhos e os 30 animais em uma casa de três quartos que fica num terreno de 150 m2. “Cheguei ao limite, não tenho mais condições.” Até pouco tempo ela tinha outros dez filhotes, que conseguiu doar. Diz que gasta os R$ 500 que ganha de pensão só com “comida, remédio e desinfetante” para os bichos.

Áurea mora sozinha – com seus 30 cães adotados – em um barraco de um só cômodo, dividido por um guarda-roupas. Ela trabalha de segunda a sábado e dorme só às 3h para conseguir cuidar de todos os animais.

A ONG Associação em Defesa da Vida Animal de Cubatão calcula que já foram abandonados cerca de 200 animais, desde que as famílias começaram a ser retiradas, no começo do ano.

“Já não estamos dando conta, imagine quando forem removidas mais famílias”, diz Denise Araújo, uma das protetoras da ONG. Até hoje, segundo a CDHU, já foram transferidas 530 famílias, ou 10% do total previsto.

Ela aponta como possível solução para esse problema a construção de um novo abrigo para animais na região.

Impasse

Segundo Lair Krähenbühl, secretário de Estado da Habitação, as pessoas foram liberadas para levar até dois animais para as novas moradias. Ele diz que já foi feito o orçamento para a construção de canis bancados pela CDHU, mas a Prefeitura de Cubatão não definiu o terreno onde seriam construídos.

A prefeitura disse que há um impasse sobre quem forneceria funcionários, equipamentos e demais despesas. O custo para abrigar um cão é de R$ 250 mensais e a prefeitura estima que 3 mil cães sejam abandonados até o fim do programa.

Ela informou também que seu novo Centro de Zoonoses, inaugurado no ano passado, já está superlotado e que não tem capacidade para atender à demanda de castrações que surgiu agora.

Com informações da Folha


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