A carrocinha através dos anos


Por Marcus Accioly

Recordo uma cantiga de infância, também cantada no Colégio Americano Batista e nas reuniões sociais das igrejas presbiterianas, chamada “A carrocinha”. Cantávamos, meninos e adolescentes: “A Carrocinha pegou/ três cachorros de uma vez/ trá-lá-lá, que gente é essa?/ trá-lá-lá, que gente má”. A cantiga se repetia como um refrão dividido e, na parte final, sofria um revezamento melódico que alternava o “trá-lá-lá” com “ai-ai-ai” ou “au-au-au”. Jamais, adolescentes e meninos, pudemos perceber a dor dessa cantiga. Recentemente, voltei a ouvi-la e não vou esquecê-la nunca mais. Decerto que já não era a mesma música dos meninos e adolescentes que fomos. Demorei-me, perplexo, sem entender como aquele horror se traduziu em um estribilho feliz. Quem inventou aquilo? Como poderia soar alegre uma modinha tão triste? Foram mexer na minha infância e na minha adolescência. Ah, foram remexer minhas lembranças! Era uma monstruosidade o que cantávamos. O “ai-ai-ai” ou “au-au-au” eram gritos, que ouvi (e vi) ao vivo, dos cachorros na Carrocinha. Só agora posso indagar de verdade: “Que gente é essa?” E suspirar sem alívio: “Que gente má”. Pensa o leitor que me tornei piegas? Não, estou, sim, indignado, com o que fizeram ser uma canção.

Estava às portas do ano 2000 – às vésperas do terceiro milênio – quando (procurando uma cadelinha desaparecida) descobri que o ex-matadouro dos Peixinhos, em Olinda, Pernambuco, continuava em pleno funcionamento, passando de matadouro de bois (apesar do disfarce recente do nome – “Nascedouro”) para campo de concentração de animais e corredor da morte de cães, no abominável Centro de Vigilância Animal. Com um instrumento de tortura chamado cambão (uma espécie de pré-enforcamento) o CVA realizava a diabólica tarefa de laçar, na rua, cachorros vagabundos para matar. Vagabundos? Sim, como Walt Disney – que comoveu o mundo com “A Dama e o vagabundo”; como Jack Kerouak, que escreveu “Os vagabundos do Drarma”; como Eduardo Galeano, que escreveu “Vagamundo”; como Chaplin, que, sendo gênio, se inventou Carlitos, o maior vagabundo do planeta; como Baudelaire  nos seus Pequenos poemas em prosa: Eu canto os cães desgraçados, sejam aqueles que erram, solitários, nas barrancas sinuosas das cidades imensas, sejam aqueles que disseram ao homem abandonado, com olhos pestanejantes e espirituais: – Leva-me contigo, e das nossas duas misérias talvez venhamos a fazer uma espécie de felicidade!

Dez anos após, potencializaram-se as estatísticas: só em 2009 foram mortos seis mil cães no Recife. Trata-se de verdadeiro cinocídio. Os médicos que ordenam e executam tal tarefa (que fizeram o Juramento  Médico Veterinário – de hipócritas), mexem-se como lesmas da náusea e lagartas do ódio. O prefeito João da Costa convocou, ao seu gabinete, instituições públicas e privadas, determinando prazo para resolver o problema. Recente Lei, do deputado André Campos, aprovada – à unanimidade – pela Assembleia Legislativa, proíbe a prática da eutanásia nos centros de controle de zoonoses e canídeos do Estado. Diz a Declaração dos Direitos Humanos – Os direitos do animal serão defendidos por lei, como os Direitos do Homem- e o Decreto Federal que estabelece medidas de proteção aos animais do Brasil: Os animais serão assistidos em juízo pelos representantes do Ministério Público, seus representantes legais e pelos membros das Sociedades Protetoras de Animais. Por que estamos tão desassistidos?

Cito Isaías (66-3) – O que mata um boi é como o que fere um homem, o que sacrifica um cordeiro, como o que degola um cão – e Leonardo da Vinci – Chegará o dia em que todo homem conhecerá o íntimo de um animal. E neste dia, todo crime contra o animal, será um crime contra a humanidade. Afinal, cito Humboldt: Pode-se avaliar o grau de civilização de um povo pelo modo que esse mesmo povo trata seus animais. Logo, em matéria de civilização, nós estamos ainda na barbárie.

Fonte: Jornal do Comércio


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