Vegetarianismo

Conheça os mitos sobre o consumo de soja e seus reais benefícios para a saúde

Por Marcela Couto (da Redação)

Na sua última entrevista para a Rádio BBC de Londres, a nutricionista e ativista vegana Dra. Justine Butler foi mais uma vez questionada sobre a segurança da alimentação com soja. As pessoas querem saber se a soja causa aumento das mamas em homens, se é boa para os bebês, se interfere na tireoide ou se contribui para o desmatamento, e alguns até mesmo acreditam que a alimentação com o grão pode causar câncer.

Missô com tofu Foto: Limited / Alamy

A soja divide opiniões como nenhum outro grão, mas será que realmente existem ameaças ocultas ou são apenas lendas criadas pela brigada antissoja para seus próprios interesses? Com um olhar mais próximo, constatamos que a maioria das informações duvidosas surgiram do mesmo grupo: A Weston A Price Foundation (WAPF), sediada nos EUA.

A WAPF tem como objetivo promover uma “boa nutrição” incentivando o consumo de produtos de origem animal o mais naturais possível – particularmente o leite de vaca sem processo industrial. O grupo alega que a gordura saturada é essencial para uma boa saúde e que altos níveis de colesterol não têm relação com câncer ou doenças cardíacas. Eles também pregam que os vegetarianos têm baixa expectativa de vida, e que os humanos historicamente sempre ingeriram muita gordura animal. Tudo isso, é claro, contradiz todos os conselhos nutricionais do mundo, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a American Dietetic Association e a British Medical Association.

Conforme reportagem do jornal The Guardian, a duvidosa organização usa citações científicas falhas para promover seus próprios interesses e já influenciou muitos consumidores, fazendo-os pensar que a soja é um péssimo alimento.

Todas as intrigas começaram na Nova Zelândia, em 1990, quando um advogado de sucesso contratou o toxicologista Mike Fitzpatrick para descobrir o que estava matando seus papagaios de estimação.O especialista resolveu culpar a ingestão de soja, e desde então passou a acusar o grão de ser impróprio para a alimentação humana, mesmo sendo consumido há mais de 3.000 anos.

A Dra. Butler participou de uma entrevista com Fitzpatrick para falar dos efeitos da soja, mas o convidado foi tão agressivo que a rádio nem sequer transmitiu. Curiosamente, ele é membro da WAPF.

Outro membro da organização é o Dr. Stephen Byrnes, que publicou um artigo na revista Ecologist afirmando que o vegetarianismo não é saudável e que destrói o meio ambiente. Ele se gabou de sua forma robusta e dieta rica em gordura animal – mas, infelizmente, morreu de derrame aos 42. Havia mais de 40 citações equivocadas no tal artigo, além de recortes fora de contexto de alguns estudos. Mais curioso ainda é que o editor da revista também é membro da WAPF.

O Dr. Kaayla Daniel, por sua vez, é um dos diretores da WAPF, e publicou um livro dedicado exclusivamente a atacar a soja (A História Completa da Soja). O engraçado é que o grupo gasta muito mais tempo difamando o grão do que efetivamente promovendo seus supostos produtos saudáveis (leite puro, queijo, ovos, fígado etc.).

Uma das preocupações que rondam a soja é a presença de fitoestrógenos (hormônios vegetais), que poderiam afetar o desenvolvimento sexual e a fertilidade. Se houvesse qualquer evidência desse efeito em humanos, com certeza o grão teria sido banido dos alimentos infantis ou pelo menos existiriam alertas nas embalagens.

Um comitê de toxicidade formado em 2003 pelo Ministério da Saúde reportou a ausência de qualquer distúrbio sexual ou hormonal em populações com alto consumo de soja, como chineses e japoneses. É interessante lembrar também que a China tem a maior população do mundo, com 1,3 bilhão de habitantes e que consome muita soja há 3.000 anos.

Na verdade, não existem evidências científicas de que o consumo de soja faz mal aos seres humanos. Todas as afirmações da WAPF são falsas ou baseadas em experimentos equivocados feitos com animais não humanos. Primeiro, os fitoestrógenos se comportam de forma diferente de acordo com a espécie, então os estudos em animais não se aplicam a humanos. Segundo, os intestinos agem como uma barreira para esses hormônios, logo as injeções de fitoestrógenos aplicadas artificialmente em animais são um método totalmente falho. Finalmente, a maior parte desses experimentos expôs as cobaias animais a níveis absurdamente altos de hormônios, impossíveis de ser absorvidos pelos seres humanos em uma alimentação regular com soja.

Cada vez mais cientistas e médicos estão comprovando que os testes em animais não podem servir como base para políticas de saúde pública. O Dr. Kenneth Setchell, professor de pediatria do Hospital Infantil Cincinnati, afirma que ratos e macacos metabolizam certas substâncias da soja (isoflavonas) de forma diferente dos humanos, e que a única referência apropriada para estudar o desenvolvimento sexual humano está nos bebês. Cerca de 25% dos bebês americanos são alimentados com fórmulas à base de soja há anos, e a ausência de efeitos causados pelo grão sugerem que não há problemas biológicos ou clínicos associados ao seu consumo.

Na realidade, grãos de soja contêm muitos nutrientes de alto valor e são uma excelente fonte de proteína. As evidências mostram que a proteína de soja abaixa os níveis de colesterol e protege contra doenças cardiovasculares, diabetes, efeitos da menopausa e certos tipos de câncer. O grão também pode ajudar na prevenção de problemas ósseos e estimular as habilidades cognitivas de algumas pessoas, e felizmente o número de estudos científicos que apontam os benefícios da soja continuam a crescer cada dia mais.

Como último recurso, os inimigos da soja a condenam alegando que sua produção tem grande impacto ambiental na Amazônia. Eles até estão corretos em se preocupar, porém o problema não está no consumo humano de soja, e sim no fato de que 80% da produção do grão ainda é usada para alimentar o gado da pecuária, para que assim todos possam consumir carne e derivados de animais.

Tanto as florestas quanto nossa saúde teriam muitos benefícios se mais pessoas trocassem os derivados de animais por uma dieta  rica em vegetais, incluindo a soja.

Da próxima vez que você ouvir alguma estória tenebrosa sobre os malefícios da soja para a saúde humana, não deixe de questionar quais foram as evidências apresentadas.

O artigo é de autoria da própria Dra. Justine Butler, para o jornal britânico The Guardian

Por Marcela Couto (da Redação)

9 COMENTÁRIOS

  1. Sou vgana e não gosto de soja. Tenho tantas opções que a soja é só mais um item na minha alimentção Muito raramente. Mesmo assim ñ tenho nenhuma carencia

  2. Faltou falar sobre a questão da PTS X soja fermentada. Muitos dizem que a PTS não faz mal nem bem, ao contrário das formas fermentadas de soja, como o tofu, que fariam muito bem.

  3. Dá muito nojo dessas organizações charlatonas…
    Ainda bem que existem entidades sérias como a ANDA, que mesmo que assumidadamente defendam um ponto de vista, disponibilizam informações confiáveis, sem fazer deturpações para atingir seu fim.
    Viva o veganismo! Pelo fim da escravidão animal!

  4. Gostei muito do esclarecimento. Já havia sido questionado sobre os impactos da soja sobre o meio ambiente, e nem consumia os seus derivados com exceção do óleo, pois sempre tive preocupações com a destruição de nossas florestas, e o uso de agrotóxicos que que se aplica nesse tipo de cultura. Cheguei numa viagem pelo interior do estado a parar com uma caravana que fizemos passando por uma região produtora desse grão para observação da ausência total de vida. É triste ver que não há grilos, formigas ,gafanhotos, anus, urubus…é um verdadeiro deserto verde…Mas, mudei de opinião sobre o consumo em minha dieta, por saber que já há produtores orgânicos e principalmente que essa enormidade de áreas exigidas não é por culpa dos que se alimentam diretamente dela e sim dos que produzem carne com ela, podemos portanto ficar tranqüilos em nossas consciências pois não somos os culpados pela grande depredação e envenenamento do planeta…

  5. Só faltou falar sobre a questão da diferença entre a soja fermentada e a proteína texturizada (dizem que a soja fermentada é que faz bem e a PTS é inócua à saúde).

    (Este comentário não foi direcionado à redação)

  6. Olá! Gostaria de saber se a soja só tem benefícios na forma fermentada, ou se na forma de leite, creme de leite, tofu, etc tambem faz bem para a saude e quais são os benficios.
    grata
    odete

  7. Eu conheço outra história sobre a soja, que contradiz o que o texto acima fala….

    Primeiro, a soja era considerada um dos cinco grãos sagrados da antiga China, só que não era consumida. Era plantada e ceifada no próprio terreno para fertilizar a terra. Ela não é tão consumida assim no Oriente… e quando é consumida é sempre em sua forma fermentada (missô, tempê, shoyo, tofu). Alguém já viu um sushi de carne de soja????

    A soja somente passou a ser consumida em larga escala na China após a invasão japonesa, devido a ser um grão resistente e fácil de plantar.

    Entre outros problemas, a soja teria a tal da isoflavona que deixaria meninos com voz e seios mais femininos. Os ossos descalcificariam por que a soja tem um elemento, cujo nome não me lembro, que ajudaria a eliminar o cálcio dos ossos…

    Além do quê, com toda essa problemática da soja transgênica, é muito melhor comer um grão como feijão, lentilha ou grão de bico, para estar livre deste mal, pois não se sabe o que o consumo – no caso da soja, em larga escala, – poderá acarretar para nossa saúde.

    Uma coisa é fato: os maiores beneficiários do plantio de soja são as grandes empresas como a Unilever que transformam um grão insosso em bebidas e comidas com bastante açúcar e corantes…

    Para saber mais, acessem o site da jornalista Sonia HIrsch, http://www.correcotia.com.br.

    Namastê

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