Pesquisa mostra que vira-latas são os preferidos dos paulistanos


Eles não são “puros” e, muitas vezes, têm histórico de passagem pelas ruas. Seu nome é associado ao lixo e aparece no dicionário como sinônimo de “sem classe, sem vergonha”. Ainda assim, e talvez com a ajuda de uma abanadinha de rabo, os vira-latas conseguiram driblar a má fama: são os preferidos e fazem companhia a milhares de moradores da cidade, de todas as classes sociais.

Segundo uma pesquisa realizada pelo Datafolha,que entrevistou 613 pessoas, esse é o cão mais comum na casa das famílias paulistanas.

Por ser fruto de uma mistura de raças, o vira-lata tem características muito mais variadas do que qualquer cachorro puro. Mas, na aparência física, é possível identificar um perfil médio: a maioria pesa de 10 kg a 20 kg, tem pelo curto e cor escura – é o “pretinho básico”, como chamam alguns protetores de animais.

A genética explica por que os vira-latas, conhecidos como SRD (sem raça definida), são mais resistentes a doenças. Existem problemas de saúde determinados por genes recessivos, que devem estar presentes em dupla para que as complicações se manifestem.

Enquanto os animais mais puros têm mais tendência de portar os dois genes, estes acabam sendo “diluídos” com a mistura de raças.

Um problema que vem aumentando em cães de raça nos últimos cinco anos, por exemplo, é a alergia, segundo Roberto Monteleone, veterinário de pequenos animais há mais de 30 anos. “Há comerciantes que cruzam animais aparentados. Muitos nascem com imunodeficiência e pegam infecções com facilidade. No caso do vira-lata, há uma chance muito menor de que isso aconteça.”

Isso não quer dizer, no entanto, que eles precisem de menos cuidados do que um cão de raça. “Tem que vacinar, levar ao veterinário, dar boa alimentação. É um cão como outro qualquer”, alerta Cida Lellis, presidente da ONG Clube dos Vira-Latas.

Carlota Joaquina, 1 ano, moradora do Morumbi (SP), foi adotada em uma feira de animais.

Segundo o CCZ (Centro de Controle de Zoonoses) de São Paulo, há 2,5 milhões de cachorros domiciliados na cidade. O número vem crescendo, em média, 6% ao ano, e estima-se que, em 2020, atinja 4,5 milhões. Os dados são de uma pesquisa  feita pela USP de 2007 a 2009 em parceria com o CCZ e com regionais de saúde. Foram visitados quase 12 mil domicílios.

O professor de veterinária Ricardo Dias, autor do estudo, diz que não surpreende saber que o SRD é o cão mais comum. “Vimos que só 26% dos cachorros foram comprados. O restante foi adotado”, diz.

A adoção dos sem raça, aliás, está virando “moda” entre paulistanos de classes mais altas, e agora eles dividem espaço com primos “ricos” como poodles, lhasas e labradores. “Os animais de rua não ficam mais só na periferia. Temos visto muito mais vira-latas nos parques, junto com os cães de raça”, afirma a veterinária Cíntia Tonelli, fundadora da ONG Vira-Lata É Dez.

Em 2003, quando foi criada, a entidade conseguia doar quatro cães por mês – hoje são cerca de 16. O problema é que eles também têm tido mais animais para recolher.

Desde 2008, não é mais permitido, no Estado de São Paulo, sacrificar animais apenas por estarem na rua – a eutanásia só pode ser feita em casos extremos, de doenças incuráveis ou infectocontagiosas. Os animais recolhidos pelo CCZ ficam disponíveis para adoção – são doados, em média, 50 por mês.

A ONG Clube dos Vira-Latas é outra que aumentou as doações: eram cerca de dez por mês há cinco anos e agora são entre 40 e 50. “As pessoas estão acordando para o problema dos animais abandonados na cidade e vendo que o bicho não precisa ser comprado e ter raça”, diz Cida Lellis.

Mas os adotantes ainda procuram perfis específicos: filhotes, de porte pequeno, peludinhos e que não sejam pretos, justo o contrário da maioria dos cães que estão nos abrigos. Casais jovens, com ou sem filhos, são os adotantes mais comuns na cidade de São Paulo.

Com informações da Folha de S. Paulo


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