Tratados com dignidade

Especialista em saúde pública diz que eutanásia em cães não protege humanos

As evidências científicas que preconizam a eutanásia em cães como forma de proteger os homens da leishmaniose visceral são frágeis e ambíguas, na opinião do médico e especialista em saúde pública tropical Carlos Henrique Nery Costa. De acordo com ele, a estratégia de eliminar cães não tem nenhum impacto sobre a saúde humana.

“Não adianta matar (cães) porque as pessoas não vão ter menos Calazar (leishmaniose). Até compreendo a “boa intenção” do Ministério da Saúde (MS), mas não é ciência. O volume de contaminações não seria maior sem as eutanásias. Não existe uma única evidência de que tirar a vida de um cachorro protege as pessoas. Não tem nenhuma eficácia”, diz o médico. Até há cinco anos, ele era consultor do próprio MS para o programa de controle de leishmaniose.

Doutor em Saúde Pública Tropical pela Harvard University, ele atualmente é professor da Universidade Federal do Piauí, médico do Governo do Estado do Piauí e Coordenador Executivo da Rede Nordeste de Biotecnologia. Costa foi indicado como referência por vários membros de entidades de proteção animal de Bauru. Ele explica que a ideia da eutanásia começou há mais de seis décadas com um famoso cientista israelense (Adler).

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“Ele tratou alguns cães na Palestina com as medicações disponíveis na época e não curou. Concluiu que o melhor jeito de controlar a doença era matar os bichinhos. Logo em seguida, começou o regime comunista na China, onde a situação era deplorável do ponto de vista geral, inclusive de Calazar (leishmaniose). Decidiram então atacar o Calazar”, informa. Na época, trabalharam em três frentes: trataram em massa as pessoas, mataram cães em algumas áreas e usaram inseticida extensivamente.

O DDT era utilizado nas paredes das casas, informa o médico. O país contava na ocasião com dois tipos de leishmaniose visceral. A zoonótica (que atinge homens e animais – trata-se da encontrada no Brasil) e a antroponótica (só infecta seres humanos). “Quando começaram esse programa quase acabaram com o Calazar, mas principalmente nas áreas de transmissão entre pessoas. O Calazar Zoonótico continua na China. Mas foi concluído que matar cachorro também era eficiente”, acrescenta.

Já no Brasil, a história das eutanásias começa com o cientista Joaquim Eduardo Alencar, no Ceará, explica o médico do Piauí. “Diante da grande quantidade de casos, ele começou a matar cães. Mas tem até um trabalho dele mostrando que nos distritos onde só fez matar cães, a doença continuou igual, até piorou um pouquinho. Mas nos municípios onde ele usou DDT, diminuiu bastante”, destaca.

Do ponto de vista teórico, com base em modelagem matemática, o elo mais frágil da transmissão da doença é o inseto, não o cão (reservatório), enfatiza. “Porém, os inseticidas atuais, do modo como são utilizados, parece que não são eficientes. O que devemos reavaliar, voltar a estudar é o DDT, que é objeto de muita controvérsia”, conclui.

O Ministério da Saúde não segue as normas internacionais de consulta à comunidade científica, segundo o especialista em saúde pública tropical Carlos Henrique Nery Costa. De acordo com ele, qualquer recomendação concernente à saúde pública deve ter fundamentos científicos, conforme consta no Código Sanitário Internacional.

Para dispor de evidências científicas, o MS deveria encomendar oficialmente um texto de especialistas tanto no assunto quanto em revisão sistemática. “Ele (o especialista) escreve o texto e faz uma avaliação idônea, não enviesada da literatura. Feita a revisão, apresenta a um comitê de pessoas que lida na área e, então, é retirada uma conclusão. Se a medida deve ser tomada ou não”, explica.

Já o que foi feito em outubro do ano passado foi uma revisão bibliográfica, pondera o médico. Na ocasião, foram analisados periódicos científicos de circulação nacional e internacional, sendo que a conclusão reiterou a proibição do tratamento canino no País e a indicação de eutanásia para cães infectados. Segundo o texto elaborado pelo governo federal, os modelos de tratamento propostos atualmente podem levar a uma melhoria transitória do quadro clínico do cão, reduzindo os níveis de parasitas.

“Revisão sistemática é outra coisa. A redação tem uma série de critérios e exigências. Aquilo foi uma revisão bibliográfica que você pode fazer com quem você quiser. Como é comum que os autores tenham uma opinião formada anteriormente, portanto tenham uma afinidade maior com certas referências, a revisão bibliográfica simples não atende às exigências de uma representação idônea do pensamento científico”, finaliza.

A possibilidade de existirem outros transmissores da leishmaniose, além do ‘mosquito palha’, tem sido aventada por alguns especialistas. De acordo com Carlos Henrique Nery Costa, existem alguns estudos que também apontam como vetores um carrapato e outro inseto parecido com o ‘palha’.

“O que é cientificamente estabelecido, acordado, é o ‘mosquito palha’. Mas é possível sim que haja transmissão direta entre cães. Como um cão lambendo o outro, mordendo o outro, tendo relações sexuais. É possível, mas não sabemos a expansão disso. A pergunta que se coloca é a seguinte: de onde vêm os parasitas que infectam os insetos? Nos seres humanos, provavelmente do sangue. Já dos cães não temos certeza. Pode ser da pele, que está doente, como pode ser do sangue também”, afirma.

Costa diz não ter nada a favor especialmente dos cães. Mas acredita tratar-se de um animal que merece respeito e humanidade. “Não pode ser submetido a nada que ameace sua vida. Os cães não são seres moralmente insignificantes”, pondera.

Fonte: Jornal da Cidade

7 COMENTÁRIOS

  1. Dia desses li em algum canto uma matéria sobre a doença em que uma criança de 5 anos, contaminada, tinha uma vida normal, apenas controlando a doença. O raciocínio é: se a criança está infectada, ela pode transmitir a doença da mesma maneira que um cão e é lógico que ninguém falaria em ‘eutanásia’, mas ainda assim o Brasil escolhe matar os cães… Achei ótima a matéria, ainda mais sendo um especialista em saúde humana, o que o colocaria em posição ‘insuspeita’ ao defender que não é necessário matar cães.

  2. Há quase 50 anos sacrificam-se cães no Brasil para controlar a Leishmaniose e a doença está em franca expansão em todo o país. Se a doença está em franca expansão, alguma coisa está errada. Então está claro que os cães são tão vítimas como o ser humano, por que o principal responsável é mosquito, este é quem devemos combater e todo o processo de controle adotado pelo Ministério da Saúde enfoca o cão como o principal responsável pela disseminação.
    O Ministério da Saúde proibiu o tratamento de cães com Leishmaniose. O médico veterinário está proibido de tratar, de exercer a sua profissão. A medicina veterinária no Brasil é excelente, os veterinários estão sempre buscando novos conhecimentos, trocando informações, sempre buscando crescer, então merecem ser respeitados pelo profissional que é. No Brasil o tratamento é feito há mais de dez anos e na Europa e em outros países não se adotam mais o sacrifício como obrigatório (o significado de eutanásia é diferente de sacrifício), permitindo que o proprietário opte por tratar. É preferível que regulamentem o tratamento para que seja feito de maneira responsável, do que as pessoas fazerem por conta própria.
    A própria OMS diz que não se controla zoonoses sacrificando cães. É um dinheiro desperdiçado e não precisamos ser um entendido no assunto, basta observar e chegaremos a esta conclusão. Devemos combater o “mosquito”, ele sim é o grande responsável pela doença e não o cão.

  3. Porque nao investem em vacinas? a vacina contra calazar canino confere uma otima imunidade,mas preferem a pratica do exterminio por ser facil ea custo insignificante,pois oera eles a vida dos animais nada vale!

  4. Sou profissional de Saúde Pùblica e lido com a Leishmaniose há muito tempo e lamentavelmente, está mais que comprovado que em local com cão positivo para LVC vem ocorrendo casos de LV humana,principalmente em meu município. O cão é vítima sim. Mas os veterinários precisam lidar com mais seriedade e responsabilidade a doença ao invés de criarem terapéuticas absurdas e impagáveis pela maioria dos proprietários. Os fabricantes de vacinas também deveriam concluir todas as etapas das vacinas para que realmente ela possa ser confiável e usada com segurança, o que hoje ainda não fizeram. Para lidar com a doença precisamos de dados comprovadamente científicos. De que ainda comparar a leishmania que ocorre no Brasil com a da Europa que tem um comportamento totalmente diferente do nosso país ? Cadê os trabalhos dos clinicos veterinários comprovando a eficácia do tratamento ? Não tem. Então, precisamos de gente séria e competente. Chega de achismos. Precisamos de gente séria.

  5. Devemos tomar muito cuidado com as nossas opiniões sobre o controle da Leishmaniose. O próprio especialista, em um trabalho publicado sobre o controle da Leishmaniose visceral em meio urbano de Teresina/PI concluiu que a borrifação para o controle do vetor aliada a eliminação canina diminuiu em 80 por cento a incidência da infecção, dados esses que inclusive citei em minha tese de dissertação. Agora, como pode hoje esse dado ter mudado? E a regra da epidemiologia dos 80/20 ? Também mudou ? Muito cuidado para nao confundir dados cientificos e ética com opiniões puramente sentimentalistas.

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