Minha experiência sobre as experiências


No final de 2009, fui tomada por uma vontade louca de mudar de vida. Entre morar em outro país e voltar a estudar, fiquei com a segunda opção. Escolhi cursar a faculdade de psicologia. O resumo das matérias me mostrou um problema: testes com animais. Achava que seria no último ano, mas já na primeira semana chegou à minha carteira uma lista com o título “testes com ratos albinos”. Uma pequena descrição dizia que faríamos testes psicológicos em ratos albinos de olhos vermelhos. Cada aluno deveria escolher por uma turma. Não assinei. No dia seguinte liguei para a faculdade e pedi o contato da coordenadora. Ela me ligou em seguida e demos início a um diálogo com respostas absurdas, antiéticas e cruéis, que durou o mesmo tempo da minha permanência no curso: dois meses.

Expliquei minha postura. Falei que sou contra testes com animais, que sou vegana há anos e, inclusive, colunista da ANDA. Entre outras coisas, ela me disse que achava ótimo ter uma pessoa que trouxesse essa discussão para a faculdade, mas que, no momento, não podia fazer nada. Concluiu: “você não tem escolha. Ou participa das aulas, ou será reprovada.”

Escrevi um e-mail ao Laerte Levai, promotor de justiça que admiro muito e, assim como traz esperança aos animais, trouxe para mim também. De imediato, me sugeriu falar com Luís Martini, membro da ONG Interniche Brasil, que também me respondeu prontamente e passou a me orientar quase diariamente. O próximo passo foi tentar com a professora da disciplina, de maneira amigável, uma forma de aprender o conteúdo sem usar os ratos, mas ela também foi enfática ao dizer que eu não tinha outra opção, mesmo quando falei que outras faculdades já usavam o ratinho virtual, com um software chamado ‘Sniffy Pro’. Orientada pelo Luís, levei para a coordenadora um pedido de ‘objeção de consciência’. Um requerimento bastante completo, que mostrava que a minha postura estava baseada em um compromisso ético e apoiada pela lei, assim como já havia acontecido com outros estudantes.

A resposta veio por e-mail e em tom bastante agressivo, no qual a coordenadora me chamou de imatura e egocêntrica, como transcrevo: “Se é algo que não aceita a ponto de realizar o que está realizando, posso dizer que é uma forma infantil de reagir às situações que discorda. (… ) Está sendo egocêntrica ao ponto de perder um conhecimento importante na formação como Psicóloga na área Comportamental e que poderá ser de outra forma.”

Sua resposta já foi completamente absurda para uma profissional da área de psicologia, que dirá para uma coordenadora de um curso para formação de psicólogos. Além disso, usou argumentos bem-estaristas que tanto repudiamos, como nesta outra parte que reproduzo: “fizemos de uma maneira que não prejudique os ratos da maneira que você coloca. Ao passarem pelas atividades eles são levados para um local com mato, combinado com os donos e que eles têm outra utilização não prejudicial. É importante colocar que este tipo de atividades no laboratório não mata os bichinhos.”

Antes de receber esta resposta, conversei com uma aluna do segundo ano que, sem saber das minhas intenções, contou que no ano anterior, quatro, dos oito ratos, morreram porque tiveram uma gripe forte. Segundo a aluna, eles passaram frio no laboratório.

Precisei sair da faculdade por motivos profissionais e não pela “batalha” que só estava no início. Eu a levaria até o fim e tenho certeza que, cercada de pessoas tão competentes como Laerte e Luís, conseguiria estudar sem ferir meus valores e princípios.

Para finalizar, quando fui trancar a matrícula, havia uma resposta na secretaria. Dizia que eu não estava dispensada das aulas práticas, mas que meu pedido ainda seria analisado e eu receberia outra resposta em breve. O coordenador geral da universidade quis falar comigo. O diálogo foi mais ou menos assim:

_Ah, você que é a Paula?
_Estou famosa aqui pelo jeito.
_(risos) Resolvi te responder por escrito, já que você deu um tom formal ao seu pedido.
_Eu vi, mas não precisa mais se preocupar. Para alívio de vocês, estou aqui pra trancar a matrícula.

No decorrer da conversa, falamos sobre minha objeção de consciência, sobre o programa virtual que sugeri usar como substituto aos ratos e, pouco depois, o coordenador me disse:

_Ah, mas pra que se preocupar tanto com isso? Eles são cobaias, ratos de laboratório.

E eu respondi:

_Não. Eles são ratos. Quem decidiu que eles deveriam servir para testes em laboratórios foi o ser humano.

Desconcertado, ele sorriu sem graça e virou como se dissesse “nossa conversa acabou”. Eu concluí:

_O ser humano é egoísta demais para perceber que os animais existem pelo mesmo motivo que a gente, e não para nos servir.

Peguei meus documentos e saí com o mesmo pensamento que me cutuca frequentemente: “o que eu estou fazendo neste planeta?”

Resolvi compartilhar isso aqui, para que cada vez mais pessoas saibam o quanto ainda é arcaico o ensino superior que teima em usar animais. E como é medíocre a mentalidade de quem lidera as faculdades.
Estão formando, na verdade, pessoas frias e insensíveis. Que olham para animais e enxergam cobaias. Assim como os brancos olhavam para os negros e enxergavam escravos.

Complemento em 11/05/2010:  

Luís Martini também é diretor para assuntos acadêmicos do VEDDAS – Vegetarianismo Ético, Defesa dos Direitos Animais e Sociedade – e havia me dito que George Guimarães, presidente da organização, revisou a carta que entregamos à coordenadora. Porém, soube que o envolvimento do VEDDAS foi muito maior, como a mobilização de voluntários e a veiculação de uma campanha por meio do site, entre outros esforços que Luís comentou que pudessem acontecer, mas que eu não soube, até ontem,  que foram efetivos. Contudo, deixo aqui meu agradecimento ao George, aos advogados Renata Martins e Daniel Lourenço, e demais voluntários do VEDDAS. Peço desculpas por não ter entendido como estavam envolvidos nesta ação e, erroneamente, não ter citado o VEDDAS antes, neste artigo. 





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