O jegue, o lagostim e outros bichos no Carnaval


Por Paquito
do Terra Magazine

Ecos ainda do carnaval: o Ministério Público da Bahia, mais entidades ambientalistas, conseguiram proibir o uso dos jegues no desfile do bloco Mudança do Garcia, ano que vem. Este ano foi o último no qual os animais deram o ar de sua (des)graça. Já que o animal humano tem o poder de legislar sobre os outros bichos, que o faça a favor, afinal as pobres alimárias nada tem a ver com as exibições humanas.

Rejane Carneiro/Agência A Tarde
Rejane Carneiro/Agência A Tarde

As reações à medida do ministério é que me causaram espanto, pelo que contiveram de antropocentrismo caduco travestido em defesa de tradições. Ora, desde que Darwin nos pôs a par do nosso lugar entre os seres vivos, convém que sejamos mais modestos e atentos para o que já foi e vem sendo feito por nós, humanos, pela degenerescência da vida no planeta, vide o aquecimento global. Quanto ao Mudança do Garcia propriamente dito, a molequeira e o deboche não precisam andar de jegue para ser mais eficientes.

Estou assim agora, melancólico ao visitar zoológicos, só por ver os bichos presos. Nestes dias de carnaval, visitei o Projeto Tamar, exemplar ao recuperar tartarugas da extinção, e confesso que me entristeceu ver uma arraia se esforçando para sair da exígua piscina em que foi colocada, apenas para estar disponível aos nossos olhares. Há lá, inclusive, um lugar chamado Submarino amarelo, onde se põem bichos que vivem a cerca de 400 metros de profundidade e, que, de outra forma, não poderiam ser contemplados pelos humanos. Uma bióloga nos recebe, explica a maneira como os bichinhos são capturados, e todo um cuidado que se têm para evitar abusos aos mesmos. Somos, então, introduzidos a um lugar escuro, semelhante ao habitat deles. Só que cada um fica num aquário minúsculo, iluminado artificialmente, por vezes, pela bióloga que nos ciceroneia. Destes seres das profundas, me chamaram a atenção o peixe-bruxa, que não possui olhos, e o lagostim.

Imagine que você seja um lagostim e viva no fundo do mar do litoral baiano. Um lagostim é uma lagosta pequena, espécie que mora onde é frio pra chuchu, não se move muito e come pouco, pois há pouco para se comer. Ele economiza em tudo pra levar sua mínima vida, e não sabe, no seu mundo de silêncio e recolhimento, dos sons do carnaval, dos litígios em terra, de nada a não ser seu silencioso e quieto canto e arredores. Um dia, o você-lagostim é retirado do seu mundo por um ser maior, e posto em um mundo que é um arremedo do seu, só que bem menor. Neste mundo, que não mede nem um metro quadrado, de vez em quando a escuridão é interrompida por uma luz forte, e outros seres que só observam. Eles olham, olham, depois se vão, e vêm outros neste mesmo entra-e-sai. E você vive nesse mundo de quase-nada numa espécie de roda-viva de luzes e seres estranhos, junto a outros mundos de quase nada também, sequestrado da vastidão em que nasceu.

Sei que, diante de maus-tratos sofridos por galinhas e bois, mortos em escala industrial e vivendo em condições precárias, esse papo parece café pequeno. No entanto, o sofrimento de algumas espécies não invalida que se chame a atenção sobre mal tratos outros infligidos a outras espécies. Na verdade, como disse Derrida, no livro De que amanhã…, os animais sofrem, e como sofrem, pela mão do humano. O filósofo chega a falar em genocídio, em alguns casos.

Portanto, nestes dias de não-carnaval, só me senti momentaneamente redimido ao encontrar, na saída do Tamar, meu amigo Max, acompanhado da esposa e do filho, além de um cão labrador e um pássaro pousado no ombro, feito um Francisco de Assis redivivo. Ele me explicou que achou a ave, um bebê bem-te-vi, o alimentou e, a partir daí, onde quer que fosse, ia o pássaro atrás. O bem-te-vi adotou Max que, ali, nas dependências do Projeto Tamar, tornou-se atração turística, fazendo concorrência às tartarugas e outros seres marinhos.

Hoje não tratei de música, mas vou finalizar a crônica lembrando o Samba dos animais, de Jorge Mautner. Neste samba, Jorge fala de um éden hipotético, onde o homem falava com bichos, como a cobra, o leão e o macaco, a quem chamava emblematicamente de “meu irmão”.

Porém, “durou pouquíssimo tempo/ essa incrível curtição/ pois o homem que é o rei do planeta/ logo fez sua careta e começou a civilização”.

Tempos de agora, “o jeito é tomar um foguete, é comer deste banquete/ para obter a paz/ que a gente tinha quando falava com os animais”. Precisa dizer mais?


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