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Mudando a percepção sobre os animais

25 de janeiro de 2010
4 min. de leitura
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Eu não sei porque você se perturba tanto – eles são apenas animais, afinal de contas.”

Quantas vezes vocês já ouviram isso ? Embutida na frase está a crença que devemos desmascarar e confrontar:  a ideia de que animais são “apenas animais” – isto é, que eles são meras coisas, mercadorias, recursos para o nosso uso. O que devemos lutar é contra a percepção de que os animais não são nada além de coisas feitas para os humanos. Se hoje usamos animais de fazenda como apenas meios para os objetivos humanos é porque nossos ancestrais pensavam que isso seria verdade.

Mudar percepções é um processo difícil, árduo e arriscado.Antigamente, eu pensava que era fácil. Hoje eu reconheço que é uma das tarefas mais exigentes do mundo inteiro. As pessoas raramente querem repensar suas ideias, confrontar seus próprios preconceitos, desafiar os hábitos da mente e do corpo a que foram acostumados.

“Poucas pessoas pensam”, escreveu Bertrand Russell, “a maioria das pessoas preferiria morrer do que pensar, e a maioria delas na verdade fazem exatamente isso.” E ainda sem uma mudança de percepção – e uma mudança fundamental – não haverá futuro para o movimento de defesa dos animais.Campanhas, estratégias, petições, protestos – toda a parafernália do ativismo é essencial, é claro, mas por si própria dificilmente poderá causar a necessária mudança de percepção.

Se alguém examina os movimentos reformistas similares, pela abolição da escravatura ou a emancipação feminina, por exemplo, poderá ver em retrospecto o quão essencial – e simples – foram as visões fundamentais que motivaram esses movimentos:  o igual valor e dignidade de todas os seres humanos, negros ou brancos, homens e mulheres. O movimento dos animais tem a ver com a percepção do valor intríseco dado por Deus à cada um dos seres sensíveis. À primeira vista, isso parece uma coisa simples, até elementar, mas eu pude ver que a maioria não tem essa mesma percepção – ou se têm, não querem demonstrá-la.

Da forma como eu vejo, a nossa tarefa é encorajar, convidar e às vezes exortar as pessoas a olhar para os animais como mais do que se pensa que um “animal” é. Cada criatura é um ser sensível, vivente, que vale por si próprio e não pelo que pode nos dar em troca ou pelo uso que possamos dar a esse ser.

Esse trabalho, eu acredito, é uma tarefa principalmente espiritual. Para mim, os direitos dos animais têm a ver com uma percepção e luta espirituais.E por “espiritual” eu não quero dizer religião organizada, eu quero dizer uma consciência ampliada do valor da criação divinamente concedido e a abominação da crueldade como algo mau em si.

Em minha visão, o valor dos animais é algo a ser descoberto – uma descoberta de novos aspectos da psique humana.

Por quase 25 anos, eu tenho trabalhado com igrejas cristãs para tentar animá-las a serem o canal para essa nova sensibilidade. Infelizmente, as igrejas, que deveriam ser líderes no movimento de proteção aos animais, ainda não se envolveram. Mas mesmo que as igrejas sejam lentas para responderem às novas idéias, a teologia cristã pode dar um forte fundamento racional para as idéias que as próprias igrejas têm negligenciado.

De uma perspectiva teológica cristã, os animais não são nossa propriedade; nós não os possuímos. Não temos direitos absolutos nesse planeta:  somente o dever de cuidar. Afinal de contas, o quê esses animais são senão criaturas de Deus ? Se isso não puder dar uma base para o respeito necessário e urgente de suas vidas individuais, eu não sei o que mais poderá dar essa base.

Andrew Linzey, é pastor anglicano. É um teólogo internacionalmente conhecido por seus textos sobre cristianismo e os animais. Ele ensina na Faculdade de teologia da Universidade de Oxford e é titular da primeira cadeira de ética, teologia e bem estar animal de Blackfriars Hall (Universidade de Oxford). Ele dirige o Centre for Animal Ethics de Oxford. Há pouco tempo começou a ensinar ética animal na Graduate Theological Foundation (em Indiana). Andrew Linzey escreveu mais de 180 artigos; ele é co-autor de cerca de vinte livros, dentre os quais figuram:
Animal Rights: A Christian Perspective (1976)
Animal Theology (1994)
Animal Gospel (1998)
Animal Rites: Liturgies of Animal Care (1999)
Gays and the Future of Anglicanism (2005)
Creatures of the Same God (2007)
Oxford Centre for Animal Ethics

O Oxford Centre for Animal Ethics, inaugurado em novembro de 2006 foi criado a partir da iniciativa de seu diretor, Andrew Linzey. O projeto é apoiado por uma centena de intelectuais e universitários, dentre os quais está o prêmio Nobel J.M. Coetzee. O centro é uma instituição independente de ensino, pesquisa e publicação sobre a ética animal e tem como objetivo criar um pólo intelectual que trabalhe para a melhoria do estatuto moral dos animais.

O artigo do Professor Linzey faz parte de uma série sobre “Literatura Teológica” que foi publicada em 97/98 no BTI Newsletter/Mansfield College, Oxford University BTI Newsletter, Volume XXVII, Nro. 28 15/04/1998

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