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Pesquisador investiga linguagem dos macacos há 20 anos

20 de janeiro de 2010
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Caminhando pela floresta Tai, na Costa do Marfim, Klaus Zuberbuehler podia ouvir os chamados dos macacos Cercopithecus diana, mas a tagarelice não significava nada para ele.

Isso foi em 1990. Hoje, após quase 20 anos estudando a comunicação animal, ele é capaz de traduzir sons da floresta e sabe que determinado chamado significa que um macaco Cercopithecus diana viu um leopardo. Aquele outro significa que o macaco viu outro predador, a águia Stephanoaetus coronatus.

“É uma lição de humildade perceber que existem tantas informações sendo transmitidas de formas que não percebíamos antes”, disse Zuberbuehler, psicólogo da Universidade de St. Andrews, na Escócia.

Será que os primatas têm uma linguagem secreta que ainda não foi decodificada? Em caso afirmativo, isso resolverá o mistério de como a faculdade humana da fala se desenvolveu? Biólogos têm abordado a questão de duas formas: tentando ensinar linguagem humana aos chimpanzés e outras espécies (o que é agressivo e, geralmente, feito em cativeiro, configurando exploração) e ouvindo os animais na selva.

Divulgação

A primeira abordagem tem sido impulsionada pelo desejo intenso das pessoas de se comunicar com outras espécies. Os cientistas investem grandes esforços em ensinar uma linguagem aos chimpanzés, seja na forma da fala ou de símbolos. Um repórter do The New York Times, que entende linguagem de sinais, Boyce Rensberger, pôde, em 1974, conduzir talvez a primeira entrevista para um jornal com outra espécie, quando conversou com Lucy, um chimpanzé. Ela o convidou para uma árvore (proposta que ele recusou), disse Rensberger, que agora está no MIT.

No entanto, com algumas exceções, ensinar uma linguagem humana a animais tem se provado algo sem sucesso. Eles deveriam falar, talvez, mas não falam. Eles conseguem se comunicar de forma bastante expressiva – pense em como os cães conseguem fazer com que entendamos seus desejos –, mas eles não relacionam sons simbólicos juntos em sentenças ou possuem qualquer coisa próxima de uma linguagem humana.

Selva

Melhores esclarecimentos têm vindo da audição de sons produzidos por animais na selva. Descobriu-se, em 1980, que macacos-verdes possuíam chamados de alarme específicos para seus predadores mais sérios. Se os chamados eram gravados e reproduzidos para eles novamente, os macacos respondiam adequadamente. Eles pulavam nas moitas ao ouvir o chamado do leopardo, observavam o chão ao ouvir o chamado da cobra, e olhavam para cima quando era reproduzido o chamado da águia.

Tenta-se pensar nesses chamados como palavras para “leopardo”, “cobra” ou “águia”, mas não é bem assim. Esses macacos não combinam os chamados com outros sons para produzir novos significados. Eles não os modulam, até onde se sabe, para transmitir a mensagem de que um leopardo está a 3 m ou 30 m de distância. Esses chamados de alarme parecem menos com palavras e mais como uma pessoa que grita “Ai!” – uma representação vocal de um estado mental interno, em vez de uma tentativa de transmitir uma informação exata.

Entretanto, esses chamados têm um sentido específico, o que já é um começo. E os biólogos que analisaram os chamados dos macacos, Robert Seyfarth e Dorothy Cheney, da Universidade da Pensilvânia, detectaram outro elemento significativo na comunicação dos primatas quando eles passaram a estudar babuínos. Os babuínos são muito sensíveis à sua hierarquia social. Se os cientistas reproduzem um babuíno superior ameaçando um inferior, e esse último gritando de terror, os babuínos não prestam atenção – é normal para eles. Mas quando os pesquisadores reproduzem uma gravação na qual a ameaça de um babuíno inferior precede o grito de um superior, os babuínos olham impressionados para o alto-falante que transmite essa aparente revolução na ordem social daqueles macacos.

Os babuínos claramente reconhecem a ordem na qual dois sons são ouvidos, e dão significados diferentes a cada sequência. Assim, eles e outras espécies parecem muito mais próximos dos humanos em seu entendimento da sequência de sons do que na produção deles. “A capacidade de pensar em frases não faz com que eles falem em frases”, escreveram Drs. Seyfarth e Cheney em seu livro Baboon Metaphysics.

Proximidade

Algumas espécies podem ser capazes de produzir sons que parecem um passo ou dois mais próximos da linguagem humana. Zuberbuehler relatou no mês passado que alguns macacos que vivem nas florestas da Costa do Marfim podem variar seus chamados individuais ao adicionar sufixos, assim como um falante da língua inglesa muda o tempo verbal para o passado usando um “-ed”.

Os macacos produzem um alarme do tipo estalo (“krak”) quando veem um leopardo. Mas acrescentar um “-oo” muda o alarme para um alerta mais genérico de predadores. Um contexto para o som “krak-oo” é quando eles ouvem alarmes de leopardos de outras espécies, como os macacos Cercopithecus diana.

Algo mais notável: esses macacos podem combinar dois chamados para gerar um terceiro, com significado diferente. Os machos têm um chamado “boom boom”, que significa “Estou aqui, venham”. Quando “booms” são seguidos por uma série de “krak-oos”, o significado é bem diferente, diz Zuberbuehler. A sequência significa “Madeira! Árvore caindo!” Zuberbuehler observou algo parecido entre outra espécie de macaco que combinava seu chamado “pyow” (alertando sobre um leopardo) com seu chamado “hack” (águia), numa sequência que significa algo como “Vamos sair daqui agora mesmo!”

Primatas mais evoluídos têm cérebros maiores que macacos e espera-se que eles produzam mais chamados. Mas há um código elaborado de comunicação entre chimpanzés que seus primos humanos ainda não decifraram. Os chimpanzés fazem um chamado por comida que parece ter muitas variações, talvez dependendo da qualidade percebida da comida. Quantos significados diferentes um chamado pode ter? “Precisaríamos dos próprios animais para saber quantos chamados com significados eles conseguem identificar”, afirmou Zuberbuehler. Um projeto como esse poderia levar uma vida inteira de pesquisa, diz.

Macacos possuem muitas das faculdades que estão por trás da linguagem. Eles ouvem e interpretam sequências de sons mais ou menos como os humanos. Eles têm um bom controle sobre seu trato vocal e podem produzir quase a mesma variação de sons que os humanos. Mas eles não conseguem juntar tudo isso.

Isso é algo particularmente surpreendente, pois a linguagem é extremamente útil para uma espécie social. Uma vez que a infraestrutura da linguagem existe, como é quase o caso de macacos, espera-se que a faculdade se desenvolva muito rapidamente por padrões evolucionários. Ainda assim, os macacos existem há 30 milhões de anos sem dizer uma só frase. Nem os chimpanzés possuem algo que se pareça com uma linguagem, embora eles tenham compartilhado um ancestral comum com os humanos há apenas 5 milhões de anos. O que será que tem mantido todos os outros primatas presos no cárcere de seus próprios pensamentos?

Teoria da mente

Seyfarth e Cheney acreditam que uma razão pode ser que eles não tenham uma “teoria da mente”; o reconhecimento de que outros tenham pensamentos. Como um babuíno não sabe ou não se preocupa com o que outro babuíno sabe, ele não tem pressa em compartilhar seu conhecimento. Zuberbuehler enfatiza a intenção de se comunicar como o fator que falta. As crianças, até mesmo as mais novinhas, têm um grande desejo de compartilhar informações com outros, embora elas não tenham nenhum benefício imediato em fazê-lo. Não é assim com outros primatas.

“Em princípio, um chimpanzé poderia produzir todos os sons que um humano é capaz de produzir, mas eles não o fazem porque não houve pressão evolucionária nesse sentido”, disse Zuberbuehler. “Não há nada sobre o que falar para um chimpanzé, pois ele não tem interesse em falar”. Por outro lado, em algum momento da evolução humana as pessoas desenvolveram o desejo de compartilhar seus pensamentos, explica Zuberbuehler. Por sorte, todos os sistemas por trás da percepção e da produção de sons já existiam como parte da herança primata, e a seleção natural apenas teve de encontrar uma forma de conectar esses sistemas com o pensamento.

Mesmo assim, esse passo parece ser o mais misterioso de todos. Marc D. Hauser, especialista em comunicação animal de Harvard, enxerga a interação entre sistemas neurais diferentes como essencial para o desenvolvimento da linguagem. “Por qualquer razão, talvez até acidente, nossos cérebros são confusos de uma forma que os cérebros dos animais não são. Quando isso emerge, é explosivo”, disse ele.

Por sua vez, em cérebros de animais cada sistema neural parece estar preso em um lugar e não pode interagir livremente com outros. “Os chimpanzés têm mil coisas a dizer, mas não conseguem”, disse Hauser. Os chimpanzés conseguem ler as intenções e objetivos uns dos outros e fazem muita estratégia política – para isso a linguagem seria bastante útil. Mas seus sistemas neurais que computam essas complexas interações sociais não foram casados com a linguagem.

Hauser está tentando descobrir se os animais conseguem apreciar alguns dos aspectos essenciais da linguagem, mesmo sem poder produzi-la. Ele e Ansgar Endress relataram no ano passado que macacos da família Cebidae podiam distinguir uma palavra acrescentada na frente de outra palavra da mesma palavra acrescentada no final. Isso pode parecer com a capacidade sintática de reconhecer um sufixo ou prefixo, mas Hauser acredita que isso seja apenas a capacidade de reconhecer quando uma coisa vem antes da outra e tem pouca relação com a verdadeira sintaxe.

“Estou ficando pessimista”, disse ele em relação às tentativas para explorar se os animais possuem uma forma de linguagem. “Concluo que os métodos que temos são pobres e não nos levarão aonde queremos, como demonstrar algo como semântica ou sintaxe.”

Mesmo assim, como fica evidente na pesquisa de Zuberbuehler, há vários sons aparentemente sem sentido na floresta que transmitem informação de uma forma talvez semelhante à linguagem.

Fonte: Primeira Edição

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