Eu me lembro


Era uma árvore imensa, cujos galhos rasteiros permitiam que nós – crianças, ainda – adentrássemos em um mundo repleto de caminhos secretos, insetos surpreendentes,  andorinhas azuis e abacates em flor. Uma árvore inesquecível. Podia-se também brincar demoradamente à sua sombra, esquecendo por tantas e tantas vezes da hora de voltar. Uma árvore fora do tempo. Se ela fosse gente, eu diria que os ramos abertos eram braços acolhedores junto ao qual firmávamos um silencioso pacto com a natureza.

Eu me lembro desse tempo, quase quarenta anos passados, tempo em que as estações pareciam bem definidas. A primavera se anunciava no jardim, o verão tinha o doce sabor das mangas, no outono o vento soprava as folhas secas e no inverno, eu juro, fazia um frio de congelar o nariz.  Lembro-me de uma igreja branca no alto da colina e do bosque que a adornava. Passamos muitas tardes de domingo naquele lugar bucólico, ao lado de cães amigos, barulhentas maritacas, borboletas multicoloridas e galinhas quadriculadas. O futuro parecia algo muito distante, como se os dias e as horas caminhassem em passos lentos, devagar quase parando, em direção à idade adulta.

E de repente, tudo acabou. De mudança para a capital, já nos anos 70, deixamos para trás nosso pequeno universo encantado. Blackbird agora andava triste: never more, never more… Em lugar da mata e dos rios, casas, automóveis e avenidas sem fim. Concreto armado por toda parte. Passamos a ver brotar prédios e viadutos sobre o asfalto de nossas sonhadas ilusões. Solidão solitude. E um poeta canta desolado: Em todas as ruas te procuro, em todas as ruas te perco. Onde o sol se põe?  Eu já não sabia mais. Cadê aquele céu salpicado de estrelas? Brilha atrás da fumaça das chaminés. Alguma coisa se perdeu em nós, que não apenas a infância ou a inocência. Alguma coisa se perdeu.

Eram dias preciosos aqueles. Os domingos – acreditem se quiser – dedicados inteiramente ao descanso e ao lazer. Quase tudo fechava, incluindo-se as lojas e os postos de gasolina. Os ônibus urbanos pouco circulavam.  Supermercado 24 horas, nem pensar.  Não havia cartão de banco nem tanta indústria nem televisão por assinatura nem febre consumista nem fast food nem telefone celular não havia computador nem o oráculo contemporâneo chamado google nem transtorno bipolar nem balas perdidas nem o maldito chip e nem nada dessas coisas que as pessoas hoje acreditam essenciais para viver. Que me perdoem os leitores, mas éramos felizes naqueles tempos primitivos.

Tudo mudou, até aquilo que soava moderno. O escritor George Orwell havia feito um vaticínio tenebroso do mundo totalitário, prevendo-o para o (distante) ano de 1984. Desse romance nasceu o olhar do Grande Irmão que monitora todos os nossos passos e que atualmente – pasmem – tem o respaldo da sociedade urbana. Tudo mudou. A máquina de escrever morreu apunhalada pelas mãos cibernéticas do computador. Hoje, se não nos curvarmos à deusa eletrônica chamada internet, morreremos também. De tédio. Talvez de depressão. Ou de overdose, seja lá do que for.

Eu me lembro que em nossos dias mais preciosos havia livros maravilhosos. Enquanto dávamos asas à nossa imaginação literária, os gatos espichados no sofá sonhavam com outras asas…  Asas do sonho, sonho dos homens e dos animais.  Falando nisso, e as cartas de amor e de amigo, que se escreviam cuidadosamente para depois postá-las no correio, até que a pessoa destinatária as recebesse em mãos, alguém já ouviu falar dessas espécies em extinção? Respondo: as cartas simbolizavam o mais perfeito e singelo exercício das pequenas coisas. E algo parece ter morrido junto com elas, o romantismo.

Não há como deixar de se envolver emocionalmente quando o assunto diz respeito ao tempo e à fugacidade da existência, temas cruciais da humanidade e que, decerto, nos tocam a fundo. Vida que pulsa e silencia, vida que prende e liberta, vida de encontros e despedidas.  Vida, simplesmente vida.  Eu me lembro de tanta coisa boa que se passou e de outras tantas coisas nem tão boas que gostaria de esquecer. Mas essa dinâmica dos contrários parece incorporada ao fardo da aventura humana. E hoje bem sei que “O futuro dura muito tempo”. Este era o nome, aliás, de um monólogo encenado por um ator que morreu tão logo encerrada a temporada. Não fui ver a peça, e muito me arrependo. Na próxima crônica talvez eu fale um pouco disso. Prometo.

Acho melhor parar por aqui. Chega de nostalgia, porque a vida moderna é tresloucada e dinâmica.  Nela não há mais espaço para ternuras. Mas devo abrir uma exceção. Apenas para dizer que eu viajei, recentemente, em busca do meu abacateiro. Por incrível que pareça tive dificuldades em achar o local, hoje incorporado a uma área militar da aeronáutica. Atrás das cercas eletrificadas, enfim, eu o reencontrei. O meu abacateiro ainda estava lá. Um pouco menor do que eu imaginava, sem tanta ramagem ou frutos, é verdade, mas o fato é que ele vivia. No instante em que me aproximava da árvore sagrada com a máquina fotográfica a tiracolo, fui admoestado pelo guarda sentinela: – é proibido tirar fotos.  Tarde demais, soldado, minha memória não se apagaria jamais.


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